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12 janeiro 2010

Para lá do Casamento Entre Pessoas do Mesmo Sexo

No imediato, e na actual conjuntura do país, o casamento entre pessoas do mesmo sexo parece assumir pouca relevância. É sim oportuno, pois funciona como uma ilusão óptica, entretém dando espaço para esconder durante mais alguns momentos o gigante buraco onde Portugal está enfiado. Mas de um ponto de vista mais abrangente, tanto no tempo, como no espaço, será liquido pensar-se que, afinal poderá ser algo mais profundo, como mais um pequeno passo, de mais uma pequena roda na silenciosa, mas transversal, engrenagem que, aos poucos, tem vindo a assumir o controlo da nossa sociedade. Deste modo, é, efectivamente, uma questão de extrema importância em termos estruturais.

Em todo o caso, e apesar das duvidas quanto à forma como a máquina funciona, a verdade é que no seu exterior, a franja das causas fracturantes agarra a bandeira e luta por ela, de forma verdadeira e altruísta, quero crer, pois dedicam-lhe toda a sua energia e dedicação, pelo que nos deve merecer, mesmo assim e apesar das divergências, todo o apreço.

Tente-se, então, analisar a questão em si mesma, pesando os prós e contras para a sociedade no geral. Mas, e porque este é um assunto que toca a mais privada da intimidade do ser humano, não posso alinhar, em consciência, na leveza com que se tem abordado o tema. Assim sendo, só posso dizer que acredito que os possíveis benefícios que o casamento entre pessoas do mesmo sexo possa trazer não suplantam os possíveis problemas. Estou certo que se poderia ter achado uma solução que não afrontasse a nossa conservadora sociedade, uma solução que respeitasse a diferença e que, acima de tudo, garantisse todos os direitos e deveres para todos os casais, independentemente do género. Mais do que recear que esta situação venha acirrar homofobias disfarçadas ou abertas, temo que possa ter implicações no alicerce que sustenta as nossas vidas em comum.

O Estado, entidade criada com o Contrato Social para mediar os conflitos do homem no seu estado natureza, deve garantir a Liberdade de cada indivíduo, mas também deve garantir os meios para uma sã vivência entre todos. Neste caso, e perante a esfarrapadíssima desculpa do PS de não ir em frente com o casamento entre pessoas do mesmo sexo na anterior Legislatura porque não fazia parte do Programa de Governo, só se pode concluir que esta é uma medida que, por um lado, atira areia para os nossos olhos, mas por outro anui a interesses submersos. Perante a importância do assunto, exigia-se outro tipo de princípios que norteassem o processo de decisão.

26 dezembro 2009

Culturalmente Menores


O Vítor Marques, no seu Açores 2010, revela números*, de certa forma, preocupantes quanto à adesão da população à “cultura”. Segundo ele, em 2007, 54.8% dos portugueses não foram uma única vez ao cinema, 42% não assistiu a um único espectáculo ao vivo, 56% não visitou museus ou galerias de arte e 56% não leu um livro.

Desconheço por completo a origem destes números, pois se ainda é relativamente fácil encontrar estatísticas sobre idas ao cinema, já sobre livros parece-me altamente duvidoso e, pior ainda, sobre espectáculos ao vivo. No entanto, acho que consigo perceber a interpretação que o Vítor faz dos números, principalmente devido ao título do post.

Para mim, no entanto, a questão é outra e é simples: esses números abrangem, por exemplo, concertos de filarmónicas, espectáculos de ranchos de folclore, concertos de grupos de música popular? Eu arrisco a responder: não, certamente que estes espectáculos não entram naquelas estatísticas. Logo, e seguindo a lógica presente no título do post do Vítor Marques, equivalem a ignorância.

Mas será assim? O que é a “cultura”, afinal? Quem define o que é, ou não é, “cultura”? Que critérios norteiam essas escolhas? Um nórdico que canta aos gritinhos e usa camisolas pretas de gola alta é “cultura”? O rancho folclórico da minha Freguesia a actuar na Casa do Povo não é “cultura”? Sendo assim, de facto, “cultura” deve custar mesmo muito.

A conclusão é óbvia: a “população” (povo é muito comunista) deverá aceitar e pagar a “cultura”, uma vez que é para o seu próprio bem, para combater a sua ignorância. Os que sabem o que é “cultura” vão-lhes mostrar o caminho, sem pedirem (quase) nada em troca. Só que, infelizmente, vivemos numa sociedade que ainda permite que a “população” escolha consumir a “cultura” que entende.

Ainda temos um longo caminho a percorrer em relação à “educação cultural” da “população”. Mas nem tudo são más notícias, porque para nossa sorte haverá sempre um punhado de altruístas entendidos na matéria prontos a indicarem-nos o bom caminho. O primeiro passo está dado: colocámos estes altruístas em directores das casas de espectáculos, dos museus, das instituições de divulgação do bom cinema. Agora falta o resto: legisle-se para obrigar as populações a irem assistir a tudo, poderão não gostar no começo, mas depois .... bem depois, uma coisa será certa, teremos um futuro radioso culturalmente.

* O post em questão não apresenta informações vitais em relação aos números, como a fonte, ou o universo. Deste modo, concluí que se tratam de totais nacionais. Se não for assim, apresento, desde já, as minhas desculpas, adiantando, porém, que sou totalmente alheio a esta falha.

15 dezembro 2009

Contributo para o Problema do Consumo de Drogas - Legalização.

A problemática do consumo de drogas nos Açores parece não ter fim à vista. Por muito que se constituam equipes multidisciplinares, centros de apoio, etc., a verdade é que o combate à toxicodependência está condenado ao fracasso. São anos, ou mesmo décadas, com as mesmas ideias e preconceitos que nos trouxeram a esta situação em que, na melhor das hipóteses, poderemos minimizar danos.

A questão começa desde logo em definirmos o que são “drogas”, para sabermos o que queremos combater. Não parece producente, na óptica do combate, meter tudo no mesmo saco. Há que destacar aquelas que são verdadeiramente trágicas e graves, daquelas que, tendo malefícios, são facilmente controláveis. A sociedade já se encarregou de fazer essa distinção: ao chamar “drogas pesadas” a umas e “drogas leves” a outras. É comum falar-se em heroína e cocaína quando se fala em “drogas pesadas” e, do mesmo modo, quando se fala em “drogas leves” fala-se em haxixe e derivados de cannabis. Entretanto, surgiu (ou ressurgiu) toda uma panóplia de outras substâncias de origem totalmente química que ficaram num limbo, mas que não hesito em colocar incluir nas mais prejudiciais. Mas além destas, que são ilegais, há imensas outras substâncias que poderiam ser catalogadas como “drogas”, como as bebidas alcoólicas e alguns medicamentos. A diferença entre umas e outras é a legalidade. Enquanto as primeiras, ilegais, estão entregues ao mercadonegro (traficantes), as segundas, legais, estão sob o escrutínio do Estado e, apesar do sistema não ser perfeito, a sua venda e respectivo consumo são controlados.

Perante este panorama temos o tráfico ilegal a operar sem qualquer tipo de regra, por isso aproximam-se, quais predadores, das vítimas mais insuspeitas. Daí assistirmos aos mercados ao lado das escolas. Daí também a tal passagem das chamadas “drogas leves” para as chamadas “drogas pesadas” ser mais facilitada, pois quem as vende ao consumidor é a mesma pessoa e essa pessoa está sempre ali ao lado. Ou seja, da forma como as coisas estão, é muito fácil.

Assim sendo, parece-me que, actualmente, o caminho não poderá ser outro que não a legalização do haxixe e dos derivados de cannabis. Permitir que sejam entidades devidamente certificadas, com controlo do Estado, a vender estas substâncias e, assim, afasta-las o mais possível da juventude. Não se pense, por algum momento, que esta legalização seria nos termos do Peter Tosh, onde se encoraja o consumo, pelo contrário esta legalização teria como primeiro objectivo retirar estas substâncias das ruas e dificultar o acesso (principalmente dos jovens) a elas. De resto, incomoda-me quando se inclui no mesmo saco medidas como liberalizar o aborto, casamento entre pessoas do mesmo sexo, transgénicos e legalizar "drogas leves". Cada assunto é, evidentemente, diferente e se é verdade se há uma franja da sociedade que diz "sim" a todas essas respostas (quase automaticamente, diria eu), outros há que as pensam e que têm respostas diferentes para cada uma delas.

Desta forma, aos traficantes restaria apenas a venda das verdadeiras drogas, as tais pesadas. Isto, por um lado, levaria a que as polícias pudessem concentrar todos os seus meios no real problema e, por outro lado, em termos de mensagem de desencorajamento ao consumo de droga, seria muito mais eficaz. Pois, quando se diz a um jovem “as drogas são terríveis para a tua saúde e para a tua vida” e depois ele, inevitavelmente, experimenta o haxixe ou a cannabis e constata que afinal não é bem assim, será apenas normal que ele considere que a inverdade é extensível ao resto e como já se sabe o resto está mesmo ali à mão.

Evidentemente, estou a falar no campo das hipóteses e sem nenhum tipo de estudo científico para sustentar estas posições, apenas o conhecimento empírico da vida real que me rodeia. Ademais, estou perfeitamente consciente que, por exemplo, em relação ao haxixe seria muito difícil chegar-se a este tipo de solução, sem haver um entendimento a nível internacional, uma vez que só é produzido nalgumas zonas do mundo.

Mas, uma coisa é certa, deste modo não se pode continuar, sob pena das estatísticas piorarem. Há que encontrar soluções práticas e viáveis. E este é apenas um contributo.

03 março 2009

Apresentação

Uma sociedade pode tender para a igualdade mas, em biologia, a igualdade é o mesmo que um cemitério.

28 novembro 2008

Para o Povo Açoriano

Emanuel Carreiro foi o responsável por um programa que irá para o ar na RTP-A brevemente. Nas suas palavras, trata-se de uma trilogia sobre o descobrimento, povoamento e actividade económica dos primórdios dos Açores. Adiantou também que é uma forma pedagógica de fazer passar a História dos Açores.

Tive a sorte de conhecer o Emanuel Carreiro há bem pouco tempo e fiquei desde logo com a impressão que se trata de uma pessoa de grande sentido cultural, com uma bagagem intelectual impressionante e com um trato que (infelizmente) vai rareando.

Daqui parte então uma humilde homenagem de reconhecimento a Emanuel Carreiro. O programa que agora nos oferece será mais um contributo para a tão desejada afirmação do povo açoriano, que só se conquista quando esse mesmo povo conhecer e se revir na sua própria História, na sua própria origem. Bem haja!

01 outubro 2008

'Chico-Espertismo'

O assunto já tinha sido abordado no Candilhes, mas volto a ele. O que se passa na entrada da rotunda de Belém, à hora de ponta, é uma autêntica selvajaria. Todos os que respeitam minimamente os seus semelhantes estão na faixa interior, que sabem ser a única que dá acesso ao que resta da rotunda, os outros, os 'chicos-espertos' passam pela faixa exterior. É um exemplo flagrante de esperteza saloia.

O 'chico-espertismo' é uma doença que está impregnada na nossa sociedade e é uma das principais razões para o crónico atraso português.

O que nos vale, ou melhor, o que esperamos é que até dia 19 de Outubro aquelas quantidades enormes de alcatrão estejam todas no lugar e que o trânsito regresse à 'normalidade'.

10 março 2008

(Re)descobrir


Sem querer, ouço Strawberry Fields Forever e descubro um excelente tema. Devo dizer que nunca fui um grande adepto dos Beatles, sempre preferi os Stones ou os Doors (que aproveito e coloco também na Playlist). A mega-hiper popularidade dos de Liverpool contribuiu certmente para isso. Têm, no entanto, alguns temas verdadeiramente intragáveis, como Obladi, e isso também foi factor decisivo para o meu desinteresse.


Além de Stawberry Fields Forever está na Playlist Get Back porque aqui em Bruxelas lembro-me de Enoch Powell. Os Beatles escreveram esta canção em protesto ao famoso discurso de Powell "Rios de Sangue", de 1968 (faz 40 anos), onde com muito racismo à mistura, alertou para a questão da imigração descontrolada para a Grã-Bretanha. Com efeito, nesta cidade há verdadeiros gettos de muçulmanos que não se adaptaram, vivem juntos, com os mesmos costumes e estão claramente descontentes e isso levará, inevitavelmente, a reagirem.

21 dezembro 2007

Coisas que chateiam


- as mensagens sms de Boas Festas com "humor". Para quem não sabe, ou nunca recebeu, deixo um exemplo: "este ano não há presépio, os camelos estão no governo, o burro está a treinar o Sporting", etc. e depois acabam com um smiley. Muitas delas, como esta, até estão certas, mas não me mandem esse tipo de sms, basta a parte final a desejar Bom Natal.


- estar à mercê de uma empresa que não tem concorrência. Por exemplo, no Nordeste só há duas hipoteses para ter internet. Ou móvel (mas a rede não é famosa), ou o Sapo. Mas, para ter o Sapo, é necessário a linha telefónica e é necessário o aluguer do telefone. Depois, se quisermos alterar o tarifário, pode-se ficar à espera um mês e não se pode fazer nada. É uma espécie de " ou é assim, ou não é de todo".

06 dezembro 2007

Uma Perda Irreparável

A ilha de São Miguel, em particular, e os Açores, em geral, estão mais pobres. Faleceu António de Aguiar Machado, Tony Aguiar para os amigos e Tio para mim. Antes de mais foi um homem de família, que celebrou no ano passado 50 anos de casamento e que deixou 4 filhos, todos plenamente integrados na sociedade micaelense.
Mas foi também um homem que dedicou a sua vida ao desporto. Primeiro como praticante, depois como dirigente. E foi como dirigente que deixou um legado digno de registo. Em todos os desportos com alguma importância em São Miguel, Tony Aguiar esteve presente. No hóquei, no futebol, no basquetebol, no atletismo, etc. Mas é ao automobilismo que dedica a maior parte do seu tempo, esteve no GDC mais de vinte anos, nos tempos da Volta à Ilha, e no continente foi parceiro de Alfredo César Torres nos bons anos do Rally Vinho do Porto. Nestes últimos anos foi o golfe a sua paixão, sempre fazendo parte das organizações dos prinicpais eventos.
Foi uma vida cheia a todos os níveis. E faz-me pensar se ainda existem homens destes, capazes de darem uma boa parte da sua vida, em prol da sociedade, sem mais nenhum retorno a não ser a certeza de um trabalho bem feito.
Descança em paz, Tio Tony.