Previamente faço uma declaração de interesses: 1- sou um continental apaixonadamente açoriano por amor de uma açoriana. 2- sou livre. Nada mais.
Posto isto, perguntaram-me, num comentário a um "post", se Cascais ou Sintra eram vilas ou cidades e, sobretudo, por que eram corajosas e diferentes.
Sendo um tema que queria abordar mais tarde, não posso ignorá-lo agora, ainda que o faça em traços mais gerais. Fá-lo-ei, apenas, como resposta directa às perguntas efectuadas, deixando para momento mais oportuno, caso se revele necessário, quaisquer outras considerações de carácter político, jurídico ou sociológico.
Assim sendo, percebe-se que estou a falar das duas vilas mais conhecidas de Portugal, vilas essas que, por serem o que são, uma com um peso de cariz mais económico, a outra com uma larga tradição histórico-política, não querem ser ou aparentar ser outra coisa que não aquilo que são. E são, sobretudo, aquilo que os respectivos habitantes transmitem aos estranhos. E o que transmitem eles? A forma natural de pertencerem a cada uma daquelas vilas, tal e qual como elas são, sem qualquer complexo ou sem o desejo bacoco de pretenderem ser aquilo que não são nem deveriam ser. Cascais e Sintra afirmam-se vilas e os seus anónimos habitantes ou os seus governantes não querem ser outra coisa que não vilas. Esta é a diferença. A coragem advém-lhes precisamente do facto de quererem permanecer como vilas, contra qualquer corrente carneirista, vinda da década de 80 do século XX, que grasse onde quer que seja, no sentido exacto de garantirem o seu padrão identitário. E a lógica de tudo isto é simples: o que é que Cascais e Sintra ganham com o facto de passarem a cidades? Tornam-se melhores aglomerados populacionais? Tornam-se melhores e maiores pólos de atracção turistica, comercial ou industrial? Há alguma vantagem concreta para cada uma delas pelo simples facto de deixarem de ser vilas? Não me parece.
Com tudo isto, comparo tal realidade com os Açores e; mais concretamente, com Vila Franca do Campo e Lagoa. Fará algum sentido que a histórica Vila, primeira capital dos Açores, passe a ser cidade? Mais, mutatis mutandis, o que é que Vila Franca do Campo tem a menos do que Sintra ou Cascais ou, já agora, a mais, para querer ser mais do que elas, eclipsando-se no meio de muitas anónimas e anacrónicas cidades? Quererá a Vila seguir o exemplo da Porcalhota (actual Amadora), exactamente naquilo que ela tem de pior? O desenvolvimento económico, social e político de Vila Franca do Campo dependem exclusiva ou principalmente do facto de passar a ser cidade em vez de vila? Vila Franca deveria ter orgulho na sua diferença: é uma vila com um peso histórico indelével que ninguém, nem nenhuma rivalidade, por muito que queira, jamais lhe poderá tirar e que é conhecido de todos. Por isso, qual a razão para ser cidade?
Quanto à Lagoa (que me perdoem os lagoenses), a ideia é ainda mais ridicula. Não existem absolutamente razões nenhumas para ser cidade e a única explicação para tal pretensão radica na mera retaliação política, o que, por ser uma ideia tão inqualificável, me leva a abster de tecer quaisquer outros comentários.
No meio de tudo isto, não se sabe, nem se quer saber e muito menos esclarecer, o que querem as populações, ficando tudo no âmbito do paroquialismo politico, naquilo que etiquetei como "o meu umbigo é maior do que o teu" e "não, eu como mais bifes".
Estarei a dizer alguma coisa inovadora ou intelectualmente profunda? Claro que não.
Expresso simplesmente aquilo que muitos pensam ou dizem muito baixinho e poucos se atrevem a questionar. Porque não o fazem? Não sei nem quero saber. Da minha parte, fiz a minha declaração de interesses.
Obviamente que a minha opinião nada tem de animosidade pessoal contra qualquer político das vilas em causa, concordando ou não com as respectivas opções de governação. Eles exercem os cargos por escolha popular e têm o dever de tomar decisões e efectuar escolhas, com as consequências naturais que as mesmas acarretam. Valerá a pena dizer mais?