«“O que é que o Governo oferece? Um Audi? Um BM? Um Mercedolas?
A gente oferece um Lamborghini, daqueles que abrem as portas para cima”, anunciaram
esta sexta-feira vários empresários ligados à economia paralela, na
apresentação de um concurso que vai premiar os contribuintes que não peçam facturas.
Factura do Azar? chama-se o sorteio
lançado por este grupo de empresários da economia paralela. Interrogados qual a
razão para lançarem este concurso e para não quererem que os contribuintes
peçam factura, os empresários são peremptórios: “É por causa da floresta, porque, cada vez que se emite uma factura, cai
uma árvore.”»
Desedifica-me,
caro Zé & C.ª, que este sítio não anuncie e propale iniciativa tão
meritória, de que acabo de ter notícia por um emílio.
Eu
corro sérios riscos de ganhar o Lamborghini. Digo riscos porque, se a mudança
para um apartamento melhor muda mais seguramente as ideias e filosofia de um
homem do que o estudo e assimilação das obras, por exemplo, de Emanuel Kant ou
Carlos Marx, segundo o nosso Millor Fernandes, que fará a mudança de carro para
um Lamborghini? Decerto, nada menos que, esta sim, um revolução coperniciana na
vida do premiado, com todas as consequências advindas de uma nova visão do
mundo, – mundividência, ou melhor, Weltanschauung,
como a classificariam os ditos Emanuel e Carlos.
E
porque eu cá nunca peço factura: quando me lembram o exercício, recuso
enfática e veementemente.
Assistem-me
duas boas razões, que me apraz compartir convosco, amigos: estou-me ninando para
o número de contribuinte (pela cartilha oficial, o número de identificação
fiscal! Mais pompa no chamadouro só a Pompadour, convenhamos). Se uma criatura
se empenhasse em decorar a colecção de senhas reputadas por imprescindíveis na
vida moderna – que, diga-se de passo, tem mais de moderna que de vida – estaria
codilhada: antes decorar os rios de Angola. Não se nos depara geringonça que
não traga ajoujada a sua senha, do telelé ao multibanco, passando pela área de
trabalho, até ao cartão de leitor da Bertrand!
Essa
singela palavrinha, «senha», daria pábulo a mais um artigo a locupletar o Nacional e Transmissível do nosso
saudoso EPC, pensador a tempo inteiro, e que nesse opúsculo coleccionou uns
quantos gostos e desgostos, manias ou tiques pátrios, desde o pastel de nata a
Fernando Pessoa. Realmente, já reparastes, amigos, em que raro topais alguém
que a use? O normal é empregarem o bife password
ou então a dupla asnática de palavra-passe.
Ainda assim, mais password – porque é
inglês, e nós somos portugueses (ou algo parecido).
Mas,
vinha eu dizendo, com tanta senha para decorar, não estou para trastejar o
miolo com mais essa alfaia do NIF. Antes aproveitar as raras intermitências de
devaneio que nos permite a tal vida moderna para ir aprofundando a quádrupla
raiz do princípio da razão suficiente ou outra questão de parelha polpa e transcendência,
que, quando menos, sempre mereceria o voto do reflexivo EPC.
A
segunda razão é de princípio: como o Estado acabou por se viciar de todo em
todo no nosso rico dinheirinho, por mais que esprema o seu contribuinte, nunca
se lhe afigurará bastante: precisa sempre de mais e mais, como todo o
toxicodependente vos atestará; e o dever do dito cidadão, informado e
agora também informatizado, cifra em privar o Estado dos meios de se
intoxicar. Conseguintemente, a fuga ao fisco revela-se patriótica.
Enfim,
não pedindo factura, o cordo e cada vez menos gordo pai de famílias aveza
descontos catitas em oficinas, restaurantes, cafés, barbeiros (ou
cabeleireiros), etc. Quanto a mim, que pago a pronto e em dinheiro de contado,
sempre fui benquisto nesses lugares; ultimamente porém quer-me parecer que a
minha popularidade tem vindo a aumentar...
Estamos
pois com o bom Viegas quando, cumprindo a sua promessa, mandar o fisco, cada
vez mais visgo, «tomar» no… viegas.
Mas vejo que somam três
razões. Afinal, havia outra. Há sempre. O bom povo já o compendiou no seu rifoneiro:
não há dois sem três.