03 junho 2014

VERBA MANENT - XXI

 
 
Não acredito no determinismo económico, nesse determinismo que os liberais extremos e os marxistas têm curiosamente em comum.
Jean d’Ormesson, Garçon de quoi écrire, Folio, III, 105.


(futsal) O mau exemplo do Futsal II e o Futebol...



Portugal, 3 de Junho de 2014







O texto anterior relativo ao Futsal, escrito em 27 de Março de 2013, pretendia básicamente evidenciar que era expectável o erro que se acabara de cometer, trocando um treinador conhecido e com títulos, Paulo Fernandes, por um desconhecido que depois se percebeu ser patrocinado por Alípio Matos também ele ex-treinador despedido do Benfica. 




O texto pretendia mostrar que, se um gajo que vive a mais de 400 km da capital consegue antecipar que a troca do treinador, naquele contexto desportivo, naquelas condições, ia prejudicar o Benfica, seus sócios e seus adeptos, como é que os iluminados responsáveis do Clube não perceberam também?




Escrevi: “Agora despede-se Paulo Fernandes e vai-se buscar outro treinador, a quem desejo a maior das sortes, mas que está condenado ao insucesso”. 




Não sou bruxo, não leio cartas, nem ligo para SIC de manhã a pedir previsões à taróloga de serviço. O problema da altura é aquilo que classifico de problema clássico (maus resultados desportivos, incluindo derrotas com equipas com as quais normalmente não perdemos, como o Braga), resolvido da mesma forma clássica (despedimento do treinador) que regra geral tem um resultado também clássico: piores resultados desportivos. Seja no Benfica, ou em qualquer outro clube, esta é uma regra geral com pouquíssimas excepções! 




O erro que se comete na resolução destes problemas “clássicos” tem a ver com a sistemática incapacidade de se avaliar adequadamente a qualidade do trabalho realizado por essa equipa técnica e esse conjunto de jogadores. À pergunta “seria possível melhorar as prestações desportivas com estes jogadores, face à realidade competitiva actual de adversários que todos os anos se apetrecham e investem mais no Futsal e face às arbitragens que nos prejudicam?”, os iluminados que gerem as modalidades no Benfica respondem que “sim”. Não estranharia até que existisse algum ambiente conspirativo em torno de Paulo Fernandes, por ter vindo do SCP, por parte dos que tendo perdido a noção de tempo e espaço, continuam a viver à sombra de êxitos antigos!




Ora assumindo que “sim”, que era possível melhorar, então concluem que o problema é o treinador, porque foi o único a sair. Correcto? Bom, depois vem o tal novo treinador, com a tal nova estrutura técnica (não sei quanto custou a nomeação de um coordenador para o Futsal, que não existia com Paulo Fernandes), e não se dando conta dos problemas que o ex-treinador teve que superar, acabam por obter o que se esperava: piores resultados. Nesse resto de época, voltamos a perder com o Braga na Taça de Portugal e fomos varridos na final do play-off com o mesmo SCP que tinha ganho ao Paulo Fernandes (mas agora já não havia problemas porque a estrutura técnica é benfiquista). 




Normalmente nestes casos e em particular no Benfica (vide Artur Jorge no futebol em 1995/96, ou Manuel José em 1997/98) sempre que se despediu um treinador e se pioraram os resultados, não se admite este erro e arranja-se uma solução clássica de nível 2, o nível da imbecilidade. Que é, “bom, se os resultados foram piores afinal são os jogadores que não têm qualidade, ou que estão a “fazer a cama” ao novo treinador, ou que não se adaptam às novas técnicas de treino”. Vai daí, sai uma palete de jogadores e vem uma nova palete de jogadores.




E o resultado continua a ser o mesmo: piores resultados. Se Paulo Fernandes saiu a meio de uma época onde já tinha ganho uma Supertaça e estava na disputa dos outros dois títulos, este ano e meio que esta equipa técnica e Alípio Dias levam em funções, ganhamos um rotundo ZERO títulos...



Bastava que se tivesse parado para pensar, coisa rara nas modalidades do Benfica (com Carlos Lisboa como Director Geral das Modalidades, não dá para pensar muito, é só meter no cesto), que se concluiria que por lesões, castigos ou más decisões de arbitragem, o Benfica estava aquém do que se pretendia, o que queria dizer que sem lesões, sem castigos e sem más decisões, possivelmente o Benfica estava no seu lugar habitual.




Porque razão é tão importante esta questão do Futsal, dirão uns? “Mais título menos título, que interessa isso quando se ganhou no Basquetebol e no Vólei, e no Hóquei até ficamos à frente do FCP”? Pois esta forma de pensar é errada. Eu pelo menos nunca penso no que ganhei, mas no que podia ter ganho. E acho que num clube de topo, um clube ganhador como diz o Hino cantado por Luís Piçarra é assim que se tem de pensar. Menos que isso é conformarmo-nos com a mediocridade.




Por outro lado o interesse do tema deriva do facto de tudo que aconteceu no Futsal aconteceria no Futebol se a Direcção tivesse feito o mesmo quando os movimentos de opinião alimentados quer pela comunicação social, quer por uns supostamente bem pensantes bloguistas, pediam sucessivamente a demissão de Jorge Jesus, quando “apostava demais em Roberto”, quando “não se percebia o que via no Emerson”, ou quando perdeu 3 finais. Foram alturas em que se viu um certo lirismo de uns quantos opinógrafos benfiquistas, opinógrafos da mesma natureza dos que comandam as modalidades do Benfica, dos que não estudam a natureza dos resultados, não interligam a acção/decisão com o resultado/consequência por falta de capacidade de síntese, e que ainda ficam aborrecidos quando os rotulo de intelectualmente limitados. Porque são mesmo, por mais textos floreados e sem “sumo” que publiquem, em blogues ou em colunas de opinião nos mídia desportivos.

31 maio 2014

(Futsal) O mau exemplo do Futsal I

Portugal, 27 de Março de 2013

O Benfica despediu recentemente o treinador do Futsal, Paulo Fernandes. Ao cabo de 2 épocas completas e a caminho da terceira época, Paulo Fernandes conquistou um campeonato, duas taças de Portugal e duas supertaças. Não me parece mau.

Disputou apenas uma champions, tendo falhado o apuramento para a ronda final, por um conjunto de aspectos que não se ultrapassaram, como seja termos jogado em casa da equipa que acabou por se apurar e termos sofrido (Bebé) 1 golo no último segundo do 1º jogo, golo esse que impediu a vitória e outra confiança para os jogos seguintes, bem como melhoria no eventual factor de desempate.

Disputou os dois play-offs do título, ambos contra o SCP, tendo perdido o primeiro e ganho o segundo. Da mesma maneira que, como treinador do SCP venceu o Benfica de André Lima e Ricardinho por 2 vezes, nos mesmos play-offs do título. Um deles ficou célebre (para mim) porque após ter obtido o empate na final com uma vitória no pavilhão do SCP, André Lima proferiu a frase “não estou a ver o SCP ganhar duas vezes em nossa casa”. O que é certo é que ganharam, um no prolongamento, outro nos penaltys. E André Lima saiu derrotado.

Despedido André Lima, que havia conquistado a inédita Champions League para as vitrinas do futuro museu, foi-se contratar o treinador que havia derrotado o campeão André Lima: Paulo Fernandes. Agora despede-se Paulo Fernandes e vai-se buscar outro treinador, a quem desejo a maior das sortes, mas que está condenado ao insucesso. Mas se se reconheceu algum tipo de fracasso a Paulo fernandes, porque não se foi buscar então o André Lima, anteriormente derrotado por Paulo Fernandes pelo reconhecimento da sua carreira ou pelo reconhecimento dos títulos que nos ajudou a alcançar?

A fuga para a frente não costuma dar bons resultados. E não me parece ser estratégia compatível com um clube que apregoa ser diferente. De facto somos diferentes: praticamos a integração social de jovens através da Fundação Benfica, ajudamos antigos atletas que por razões de saúde viram os seus planos de vida fracassarem ou que simplesmente tinham caído no esquecimento, mas quando se trata de dar exemplos concretos na gestão do futebol ou das modalidades, é isto que vemos: ingratidão atrás de ingratidão.

Mas bem, já fomos buscar Alípio Dias, o primeiro treinador campeão no Benfica. Pode ser que ainda calhe a vez a outros. Quem sabe no futuro, possamos ter de volta o André Lima ou o Paulo Fernandes...

O caricato nestes processos de despedimentos nas modalidades, é que costuma haver umas cortinas de silêncios que nos impedem de saber quem é que toma as decisões, quem é que propõe e porque propõe as rescisões, etc.
Vem isto a propósito da entrevista que Paulo Fernandes em 25 de Março deu à Bola TV, na qual afirma que “na sexta-feira tive uma reunião com Luís Filipe Vieira, a quem agradeço o apoio que me deu. Três semanas antes foi o vice-presidente que me defendeu...”.

Ora estas afirmações adensam mais esta problemática. Se o Presidente e o Vice-presidente dão apoio ao treinador e este logo a seguir é despedido, quem manda afinal nas modalidades? Ou será que a hipocrisia já chegou à forma como o Sr.º Vieira e o Vice para as Modalidades exercem a função?

Não vou pela tese da hipocrisia mas sim pela tese de que o Presidente e o Vice-presidente se estão a marimbar para o que se passa nas modalidades. Isso é questão para os amigos seccionistas tratarem à sua maneira. Depois, se despedimos mais um treinador ou não, se mostramos a nossa ingratidão e falta de inteligência, isso já não interessa. Interessa manter a estrutura de poder que começa no seccionista. É o seccionista que conta. Não o treinador.

O que fica claro é que a treta que a máquina de propaganda do Sr.º Vieira anda a vender aos adeptos, de que o Sr.º Vieira aposta nas modalidades, é apenas isso: treta. Os factos mostram que o Presidente não se interessa com os princípios de grandeza que deviam nortear a gestão do clube. Ele apenas se interessa pelo Futebol, na componente contratação de jogadores e mais e mais empréstimos bancários. Não é por acaso que os empresários são sempre os mesmos e o Banco que financia também.

28 maio 2014

(futebol) Pimceladas sobre uma época gloriosa e previsões



Portugal 28 de Maio de 2014

Na linha de raciocínio dos dois textos anteriores e porque fui estimulado por algumas opiniões recebidas, começo por sublinhar o que considero relevante da análise à época desportiva que findou: 1) Jesus não corrigiu nada da época anterior, mantendo-se fiel ao modelo táctico 4-4-2, mais clássico com Matic, André Gomes ou Ruben Amorim, mais losango com Fesja ou André Almeida. 2) Jesus utilizou regra geral, no campeonato, o mesmo 11 base com excepção de lesões e castigos, o que confirma que Jesus tem convicções e não as altera por causa do ruído mediático ou resultados menos conseguidos. 3) Jesus privilegiou o Campeonato e Taça em detrimento da Liga Europa e Taça da Liga. 4) A arbitragem funcionou em alguns jogos – os suficientes – aplicando as leis de jogo ao FCP e com isso resultando grandes penalidades em instantes cruciais das partidas, que ajudaram o FCP a perder 8 pontos. Não quer isto dizer que fomos beneficiados, longe disso, ou que o FCP também não foi aqui e ali ajudado por erros mais ou menos grosseiros de arbitragem. Para a história fica o facto que tendo o melhor ataque e a melhor defesa, o Benfica teve 9 penaltys a favor, contra 10 e 13 de SCP e FCP, e sofremos 4 penaltys (todos convertidos), tantos como FCP (inédito) e SCP. 5) Ficou claro que uma equipa é campeã, em função dos pontos que os adversários fazem, e este Benfica com menos 3 (e não 2 como tinha referido) pontos do que na época do “esteve tudo mal”, menos 19 golos marcados (e não 18) e menos 2 golos sofridos (único parâmetro positivo), foi campeão com 13 pontos de avanço sobre o FCP e 7 sobre o SCP. Porque o factor arbitragem foi distinto para o FCP, do que na época passada, e não porque o Jesus errou quando obteve 85,6% de pontos (contra 82,2% da presente época).
Posto isto, podemos extrapolar sobre as probabilidades que teremos para ganhar títulos na próxima época? Julgo que sim.
Considerando que Jesus não vai mudar o seu modelo de jogo habitual nas 5 épocas que completou no Benfica (4-4-2 mais losango ou mais clássico, consoante jogue A ou B), considerando que Jesus privilegia o campeonato e que precisamos de mais de 80% de pontos para o garantirmos de acordo com as estatísticas dos últimos 10 anos, isto quer dizer que precisamos marcar golos, e precisamos não sofrer golos. Que previsões podem ser feitas?
Podemos começar por debater qual a percentagem de pontos que nos põe a salvo de uma boa prova adversária. Não é fácil. Mas se considerarmos os vencedores de todos os campeonatos que participamos com a gestão Vilarinho e Vieira, o “score” que nos podia garantir o título eram os 93,3% do FCP de Villas-Boas, pontuação máxima neste período e nas últimas décadas. Se considerarmos este valor como irrealizável nos anos mais próximos, podemos considerar os 86,7% do FCP de Vítor Pereira, na época passada. Ora isto equivale a 78 pontos, a 70 golos marcados e 14 sofridos! Como nos podemos aproximar destes números, que nos garantem o título principal?
A época mais próxima que tivemos em golos marcados foi a do primeiro título de Jesus e a época passada, com 78 e 77 golos. Em golos sofridos as épocas mais próximas que tivemos foi esta, 18 golos, e as duas atrás referidas com 20 golos. Nas duas épocas que Fernando Santos participou, com 20 e 21 golos, também nos aproximamos dessa média.
Quer isto dizer que temos de marcar mais golos, e a dupla Rodrigo + Lima tão aplaudida pela critica e pelos adeptos, claramente não serviria, e temos de sofrer menos golos, e aqui a incerteza vai para o rendimento de Oblak com outros centro campistas, com outra dinâmica de jogo por força das entradas e saídas que se avizinham.
No ataque, se mandarem Cardozo embora isso vai enfraquecer o jogo da equipa. Como se viu esta época, não adianta ter 2 “pontas de lança” velozes, quando o meio campo pressiona alto (Matic + Enzo ou Enzo + Ruben) e o adversário se encolhe eliminando as vantagens da velocidade dos nossos “pontas de lança”. Mas em contrapartida, se o nosso meio campo não pressionar alto porque tem um 6 “puro” e que joga mais recuado, então poderemos tirar partido dessa velocidade dos atacantes como bem se viu no período em que Fesja foi titular.
Apostando num meio campo com Enzo e Ruben Amorim, Cardozo seria essencial, como foi na época passada, com Enzo e Matic. O jogo posicional de Cardozo permitiria abrir linhas de passe para outros avançados e médios de ataque poderem marcar muitos golos, como fizeram na época passada. E no inicio da brilhante época que agora terminou (que bom jeito deu...).
A somar a estas considerações, há que ver se os adversários, FCP em particular, terão equipa para aproveitar as benesses que os árbitros irão continuar a dar-lhes. Lopetegui é uma incógnita, o plantel do FCP outra... O SCP de Marco Silva não irá manter a boa percentagem conquistada este ano, descendo uns pontos, pelo que se nós conseguirmos manter no mínimo os tais 82,2% de pontos, não é por aqui que iremos perder o campeonato.
Em resumo, no campeonato há muitos “ses”, função de quem vai sair e quem vai entrar, e tudo se conjuga para termos uma equipa que marque poucos golos mas que pode sofrer também poucos golos. Se o FCP aparecer com jogadores de qualidade (o que não me parece), tudo dependerá de quem perde mais qualidade colectiva, se Benfica, se FCP. As estatísticas jogam contra nós pois não fazemos um bicampeonato há várias décadas...
Quanto à Taça de Portugal, a habitual rotação de Jesus pode dar bons resultados, mas também aqui o sorteio é fundamental, e saídas a Alvalade ou Dragão, poderão ser “fatais”. Idem quanto à Taça da Liga, onde claramente e após 4 vitórias em 5 épocas, JJ não irá apostar muito. Nas competições europeias prevejo mais uma saída para Liga Europa, em face da qualidade dos adversários já escalonados para os potes 2 e 3, e também da falta de visão dos nossos estrategos, JJ incluído, que continuarão a apostar nos 2 pontas de lança.
A correr tudo bem poderemos ganhar um título ou dois, sendo difícil repetir a proeza desta época, ainda para mais com as saídas que se anunciam e o recomeçar tudo de novo. E no meio de tantos “ses” espero que percebam agora porque é que tenho defendido que devemos saborear a história que foi escrita esta época, porque para o ano é outra corrida. O piloto é o mesmo, mas o carro não. E os obstáculos também não...

26 maio 2014

(futebol) Pinceladas sobre uma época gloriosa II



Portugal 26 de Maio de 2014

Comecei o último texto comparando a última equipa do Benfica que ganhou com realismo a Taça de Portugal, com a equipa do primeiro onde senti que esta época tinha um elán especial, Gil Vicente, 2ª jornada. Concluí que com excepção de 3 posições, uma das quais por negócio (Matic), outra por opção da Direcção (Cortez), todos os restantes 8 jogadores foram os mesmos nos dois jogos.
Não é por acaso que faço essa comparação. Continuando no meu raciocínio, se compararmos a equipa que sofridamente ganhou ao Gil Vicente, com a equipa que perdeu a Taça de Portugal contra o Guimarães (último jogo da época anterior), constatamos que André Almeida deu lugar a Cortez e Cardozo deu lugar a Rodrigo. Apenas! Ou seja, 9 jogadores mantiveram-se! O modelo de jogo foi o mesmo nestes três jogos já referidos: 4-4-2 em losango.
Onde quero chegar é à desmistificação da teoria mais divulgada para explicar os sucessos desta época, que é a teoria “Jesus aprendeu com os seus erros”, porque não corresponde com nada.
Não só não é verdade como se comprova pela repetição do modelo de jogo e da repetição de mais de 9 dos 11 jogadores da equipa, como é uma enorme falácia bem atestada no campeonato onde fizemos menos 2 pontos e marcamos menos 18 golos! Onde é que Jesus aprendeu então com os seus erros?
Eu sei que é muito complicado evidenciar as coisas com esta brutalidade natural dos números e dos factos, mas pior para mim é ver perorar muito doutor de fato e gravata, armados em analistas desportivos nos programas de opinião (quando faço zaping), ou até ex-jogadores do próprio Benfica (fora os outros) repetir quase até à exaustão, essa teoria que não existe.
Nunca existiu, nem podia existir. Porque Jesus como qualquer treinador de topo, acredita num conjunto de competências adquiridas ao longo dos anos, fruto de observação, repetição, análise de resultados, etc. Jesus não podia mudar, porque ele acredita no seu trabalho e nas suas opções. E ainda bem que não mudou, porque ganhamos tudo cá dentro este ano e apenas falhamos o objectivo exterior porque o árbitro alemão não deixou fazer melhor.
Não foi nos erros de Jesus que se perdeu o campeonato anterior, porque como se vê ele usou sempre o mesmo modelo de jogo, repetiu em cada um dos 3 jogos referidos 8 e 9 unidades, e contudo esta época foi gloriosa e a última não. Foi sim nos erros de arbitragem que esta época não “ajudaram” o FCP e no ano passado sim! E também aqui há contas fáceis de fazer. O FCP ficou 13 pontos atrás do Benfica no campeonato. Mas, coisa rara, sofreu 4 penaltys contra, 3 dos quais em situações de jogo com 0-0 (duas vezes) e 0-1 (para o FCP, uma vez). E nestes 3 jogos perdeu 8 pontos! Se somarmos os 3 da derrota na Luz (coisa pouco frequente), temos então 11 dos 13 pontos que o FCP registou a menos que o Benfica! Por meras questões de decisão de arbitragem!
Mas também me podem recordar que eliminamos o FCP duas vezes, da Taça de Portugal e da Taça da Liga. Há aqui algumas explicações que se encaixam com facilidade. Na Taça, o Proença expulsou mal o Siqueira e depois deve ter-se arrependido, assinalando o 1º penalty de sempre a favor do Benfica em jogos com o FCP! Se tivesse tido esse critério no Nacional - Benfica da época passada, tínhamos sido campeões, e mesmo que perdêssemos a Liga Europa com o Chelsea, íamos jogar a Taça sem estar sobre “brasas” devido às duas derrotas anteriores. Porque éramos campeões.
Na Taça da Liga isso sim, houve bastante competência em aguentar o resultado 0-0 com uma equipa que Jesus colocou claramente para “oferecer” a vitória ao FCP (meter uma dupla de centrais inédita Steven Vitória + Jardel não lembra a ninguém que quer ganhar o jogo) e houve a indispensável pontinha de sorte nas grandes penalidades. Já no ano passado, em Braga, também aguentamos o 0-0 com uma equipa bem menos remendada do que a que eliminou o FCP, mas nos penaltys não fomos felizes e fomos eliminados. O Braga, esse ganhou 1-0 ao FCP na final com 1 golo... de penalty. Ora o FCP no campeonato nunca sofreu 1 penalty com 0-0...
Posto isto, sim, em face desta análise mais realista e menos fantasista, que probabilidades temos de ganhar títulos na próxima época? (continua)

23 maio 2014

Eleições e SATA

1 - Quando a capital portuguesa é invadida pelos espanhóis de Madrid, o que deve fazer um português? Naturalmente, invadir Espanha pelo flanco: Barcelona.
 
Eis a razão de este escriba ser um abstencionista forçado no próximo domingo. Estou de férias. Por isso, não posso votar. A minha condição de ausência não cabe na lei. Segundo a eminente Comissão Nacional de Eleições,  «[...] o facto de estar de férias não é uma situação que legalmente justifique o exercício do voto antecipado, enquadrável no art.º 79.º-A, da Lei n.º 14/79, de 16 de maio.». E, pronto, dada a assertividade - como gostam de dizer os modernos -  nem me atrevo a contestar a rigidez absoluta na interpretação jurídica da norma.
 
O sistema eleitoral português é sui generis. É-o per si.  Mas, disso, não curarei agora. Basta a constatação de que ninguém sabe qual o número real de eleitores em Portugal para o pôr a nú nos procedimentos.
 
O Sport Lisboa e Benfica foi pioneiro em Portugal no escrutínio eleitoral. Desde que resido nos Açores, já participei à distância de um clique nas eleições para os órgãos sociais do clube. O voto electrónico foi o meio que permitiu que não me abstivesse em cada um dos momentos decisivos do meu clube, parecendo-me seguro e eficaz quanto ao controlo informático do mesmo. Ou seja, não interessando se votei ou não no vencedor, não tive razões para pôr em causa a sua fiabilbilidade e credibilidade - nem nenhum benfiquista teve ou fez público clamor de tal, derrotados incluídos -.
 
Na política, o bom exemplo eleitoral do Benfica não valerá. Será por causa dos euros e dos eleitores fantasmas?! Da abstenção é que não é.

2- A SATA nunca curou de tratar bem os estudantes açorianos, impondo-lhes preços proibitivos nos bilhetes e actos burocráticos anacrónicos na demonstração da sua condição. O melhor exemplo advém da prova para viajar. Um estudante tem de deslocar-se a uma agência da SATA ou imprimir no respectivo sítio na internet um impresso no qual deverá a respectiva Universidade apôr a chancela probatória de que é estudante. Se fosse uma vez no ano, ainda poderia passar, mas em todas as viagens?!!! E num impresso da SATA?! Este é que faz fé em vez de um documento emitido pela Universidade e que é válido para o ano lectivo?! (E deixem lá a conversa da prova junto do Fisco - esse papão - porque isso é o mais fácil de resolver).
 
Eis uma peculiariedade de bom tratamento ao Futuro da Região. E, depois, admiram-se que isto, somado a umas quantas atitudes relacionadas com o trilho profissional na Região, os afaste para outras bandas.
 
(O Messi manda cumprimentos e lembra que os bilhetes entre Lisboa e Barcelona são baratinhos. O pior é chegar a Lisboa). 


22 maio 2014

(futebol) Pinceladas sobre uma época gloriosa I



Portugal 22 de Maio de 2014

Numa época desportiva inolvidável, parece-me mais útil tentar perceber como aconteceu o que gloriosamente aconteceu, do que propriamente estar a especular sobre a marca da pastilha elástica do treinador, se deve sair ou se deve ficar, que jogadores vão sair, que jogadores vão ficar, etc., debates estéreis que não levam a nada. Porque nada disso depende de nós, mas sim do “mercado”, ou seja, da lei da oferta e da procura com muito bluff pelo meio.
Entre a última gloriosa conquista, Taça de Portugal, e o primeiro jogo onde senti que esta época tinha um elán especial, Gil Vicente, 2ª jornada, podemos constatar que JJ utilizou os mesmos jogadores (!) com excepção de 3: Artur saiu para dar lugar a Oblak, Matic foi vendido e deu lugar a Ruben Amorim (e André Gomes às vezes), e Cortez dispensado deu lugar a André Almeida (ou Siqueira). Ou seja, constata-se que JJ para esta época acreditou piamente num conjunto limitado de jogadores e no 4-4-2 em losango, com 2 pontas de lança móveis (Rodrigo e Lima), um médio box-to-box que joga a 8 mas também a 6 (Enzo Peres), um médio box-to-box que joga a 6 mas também a 8 (Matic primeiro, Ruben ou André Gomes depois) e dois médios alas que misturam criatividade com velocidade (Gaitan e Sálvio, primeiras opções, Sulejmani e Markovic segundas opções).
Por coisas que no futebol não se explicam mas que se registam, o Gaitan que marcou o golo da vitória sobre o Rio Ave foi o mesmo que contra o Gil Vicente mandou uma bola ao poste na marcação de um livre directo, também na 1ª parte. Quando estava 0-0. A diferença que ambos os lances fizeram! Um deu vitória, o outro acentuou o nervosismo e falta de ideias da equipa, talvez condicionada pela má pré-época e turbulência em volta do treinador, e de que veio depois a resultar 1 golo do Gil Vicente após erro de (Super) Maxi Pereira.
O jogo com o Gil foi ganho em condições verdadeiramente incríveis, com 2 golos nas compensações, e já depois de JJ ter efectuado uma alteração táctica invulgar (que não me recordo de ter repetido) trocando Rodrigo por Djuricic (Gaitan e Sálvio deram lugar a Markovic e Suljmani). Com isso desceu ligeiramente as linhas atacantes do Benfica. Impensável nos tempos que correm, pois com o Benfica a perder por 1-0 os “entendidos” dizem que se deve colocar mais avançados.
O primeiro golo que salvou JJ e quiçá a gloriosa época do Benfica foi marcado por Markovic (que logo aí mostrou que gosta de flectir para o meio) com assistência de Djuricic na posição 8! O segundo golo foi marcado por Lima, à ponta de lança (qual mobilidade, qual carapuça) com ajuda preciosa de Luisão que ao seu lado chamou a si um dos defesas centrais, o que permitiu a caprichosa execução de Lima, que como sabemos não marca muitos golos de cabeça.
Raça, querer, ambição, competência e alguma sorte, e eis o Benfica desta época bem espelhado no que foram as incidências desse jogo com o Gil. O Benfica jogou a pensar na velocidade de Rodrigo e Lima, e o que teve foi o oposto: 2 avançados manietados na sobre povoação do ultimo terço do campo gilista. O Benfica quis pensar o jogo com qualidade e jogadores acima de qualquer dúvida, mas foi na raça das alternativas que conseguiu marcar. Ou seja, JJ fez um plano de jogo, saiu outro e ganhamos na mesma!
Veio o jogo com o SCP e lá esteve novamente o mesmo 4-4-2 em losango, e os mesmos 11 jogadores. A diferença foi que Cardozo já tinha sido integrado porque toda a gente da Direcção percebeu que os 2 avançados móveis, Lima e Rodrigo, não estavam a marcar. Desde a pré-época! Nem podiam, mas isso sou eu a dizer, eu que não percebo nada disto. O SCP, animado por uma boa pré-época e 9 golos marcados em 2 jogos, era favorito ante um Benfica psicologicamente debilitado e sem opções produtivas no 4-4-2 losango. E marcou cedo o 1-0. Mas ficou-se por aí, pois o Benfica soube manter alguma serenidade defensiva, fruto da experiência de uns quantos jogadores com anos de casa e habituados a estas rivalidades com o SCP. Um dos momentos do jogo foi a entrada de Cardozo aos 60 mn. JJ teve de redesenhar o seu 4-4-2, colocando Rodrigo ou Lima nas alas (tinham saído Gaitan e Sálvio, ambos por lesão), e Cardozo como pivot atacante. O suficiente para abrir uma pequena brecha para Markovic (entrou para uma das alas) fazer o empate, o seu 2º golo como suplente utilizado! Note-se que por lesão de Enzo Peres, o nosso meio campo ficou com Matic e Ruben Amorim, dois jogadores que fazem as posições 6 e 8 (tornando o Benfica mais pressionante na defesa adversária), e se revezam!
Ficaram apreensivos os sportinguistas, ficamos nós expectantes. Afinal era possível discutir o jogo com equipas mais moralizadas, com mais golos marcados, com mais pontos, com tradição ganhadora, mesmo estando nós a passar um mau bocado... (continua)

20 maio 2014

(futebol) Tripla para a História..



Portugal 20 de Maio de 2014

Há momentos em que a felicidade aparece e diz presente. A conquista do terceiro objectivo da época, Taça de Portugal, é uma dessas coisas que não se explica bem, mas que se sente profundamente. Com imensa felicidade...
É reconfortante ver os que choraram de tristeza no ano passado estarem na linha da frente a chorar de alegria, é reconfortante ver estampados sorrisos de orelha a orelha nos rostos dos adeptos que nunca desistiram, é reconfortante pensar que ser do Benfica é ser de um clube diferente, de um clube que se move mais pela paixão dos adeptos do que pelas virtuosas manobras de gestão...
Ganhamos novamente a Taça de Portugal, um dos meus troféus preferidos. Ao fim de 10 anos voltamos a ganhá-la, no final de um trajecto que teve tanto de brilhante quanto de difícil. Para lá chegarmos tivemos de eliminar SCP e FCP em condições de algum dramatismo e muita intensidade. Num caso após prolongamento depois de desperdiçarmos 2 golos de avanço. Noutro caso recuperamos a desvantagem da 1ª mão, jogando com 10 após mais uma má decisão do Sr.º Proença. No Benfica nada nos cai do céu, tudo é conquistado com muita luta e muita dificuldade. Sempre assim foi e assim continuará a ser...
E por ser tudo difícil, a nós não nos calha jogar finais europeias frente a adversários do nível de um Mónaco (que fez bons resultados em casa, mas fora de casa era uma equipa mediana), Celtic (esteve a 15 mn de ser eliminado pelo Boavista) ou Braga (1ª presença na final) que esgotou os “cartuchos” nas eliminatórias. A nós calham, regra geral, adversários difíceis e de qualidade. O campeão europeu em título, Chelsea, o bi-campeão da Taça UEFA, Sevilha, o super Milan de Savicevic, Ancellotti, Papin, Rijkard, Gullit, etc., o emergente PSV alimentado pelos milhões de florins da Philips ou o Anderlecht que dominava a Taça das Taças e Taça UEFA daquela altura.
A somar à qualidade dos adversários, também nos pode calhar uma equipa de arbitragem que erre de forma grosseira e em lances determinantes, sempre contra nós. A nosso favor não, isto é, percebe-se agora o destaque que teve o suposto fora de jogo não assinalado a Lima no golo fora, em casa do PAOK. Os mesmos que destacaram esse erro milimétrico e de televisão, na final da Turim já não conseguiram ver erros graves contra o Benfica, mas sim os méritos do guarda-redes que defendeu de forma irregular.
Temos de ser superiores a tudo. Aos adversários, aos árbitros e à comunicação social portuguesa, que como tenho diversas vezes referido, é um dos braços do “sistema”, manipulando aspectos dos jogos para induzir conclusões prejudiciais aos interesses do Benfica e favoráveis aos interesses do FCP e SCP. Hoje o destaque desses que não viram 3 penaltys a favor do Benfica, é a exclusão de Quaresma da lista definitiva da Selecção que vai disputar o Mundial. Mas não a exclusão de André Gomes!
E no meio de tanta contrariedade, no meio de tanta dificuldade, conseguir ganhar as três principais provas nacionais numa só época, não é para ficar feliz? Não é para nos sentirmos especiais? Não é para nos orgulharmos por termos acreditado (os que acreditaram no treinador e no plantel)? Acho que é...
Aproveitemos estes dias em que o Benfica voltou a escrever páginas de brilhantismo na história, porque uma nova época se perspectiva, cada vez com mais dificuldades criadas de fora para dentro, embora existam também dificuldades criadas intencionalmente dentro do Benfica. Veremos quem vai ser vendido, com a inestimável e habitual intermediação de Jorge Mendes, vamos ver qual a panóplia de jogadores que vão ser contratados, uns para emprestar aos Banyias da Ásia, outros para serem emprestados aos Getafes da Europa em parcerias que ninguém percebe mas que custam milhões de euros ao clube/SAD, vamos ver que jogadores Vieira vai dar e tirar a Jorge Jesus, e vamos ver que novelas esta Direcção vai continuar a patrocinar com a ajuda dos que não conseguiram destacar os 3 penaltys não assinalados a favor do Benfica em Turim.
Para já desfrutemos e sintamos que estamos a viver História...

Prós e Contras: Racismo


Fátima:
- Perguntou se é racismo usar a palavra “preto” e a senhora com nome estrangeiro da Comissão para a Igualdade disse que não, apesar de muitas pessoas na plateia discordarem subtilmente, usando sempre e apenas a palavra “negro”. Ficou meio mau ambiente.
- Em tom apaziguador, disse que, no fim de contas, todas as raças são iguais: brancos, pretos, amarelos, etc. Depois disseram-lhe, no entanto, que não há raças entre os homens.
- E sobre a Fátima ficamos por aqui, para sermos simpáticos.

Francis Obikwelu:
- Disse que em África não há racismo.

Sr. Que Trabalha Numa Escola Multiétnica
- Disse que além do racismo há outro problema muito grave que é quando os miúdos gozam com o gordo da turma
- Disse que não há racismo, só há pessoas que se dão bem e outras que se dão mal

Mamadou Ba, SOS Racismo
- Disse que o Monumento dos Descobrimentos é racista
- Disse que o maior insulto racista que ouviu em Portugal foi o Marinho Pinto dizer que o Brasil o mais que exporta são prostitutas

Cônsul do Brasil
- Disse que conhece muitas prostitutas que trabalham em Portugal.

Senhora espanhola
- Disse que é preciso reescrever a História de Portugal toda

Abel Xavier
- Apesar de ter sido o culpado por Portugal não ter passado à Final do Euro 2000 (e não é por uma questão racista), disse que casos como o #somostodosmacacos reflectem apenas o sentimento de uma minoria (mas mesmo muito pequena), de modo que não vale a pena falar muito nisso.

Conclusão:
- É incrível que o gajo que fez mais sentido no programa foi o Abel Xavier. No entanto, Abel, não, não estás perdoado em relação à Final do Euro 2000
- Não foi um daqueles Prós e Contras clássicos com a malta aplaudir a apupar de cada um dos lados e com a Fátima a dizer no seu tom reprovador “não façam isso”. Era tudo contras, não havia prós.
- Acabou com a Fátima a dizer um poema.

Palavra de honra que isto é tudo verdade.

18 maio 2014

VERBA MANENT - XX


Luís Rosa: – Somos uma sociedade que gosta de viver à custa do Estado. Isso é incompatível com um projecto liberal.

João Pereira Coutinho: – Esse é que é o principal problema. Os liberais em Portugal são uma tribo engraçada porque nos conhecemos todos uns aos outros. Frequentamos os mesmos espaços e somos uma espécie de extraterrestres, que andamos para aqui meio perdidos. Nós não temos uma sociedade que seja liberal, aliás, um dos motivos que me causam particular vexame é uma ditadura que durou quase meio século. Conheço algumas explicações históricas disso: a polícia política, a censura, o uso da violência, o apoio do exército e da Igreja, etc. Lamento, mas só é possível ter o regime iliberal do Dr. Salazar quando a maior parte da população portuguesa é estruturalmente iliberal e permitiu que o regime durasse quase meio século. Lamento dizer isto, mas não encontro explicação mais plusível. Não era porque o Dr. Salazar tinha grandes mecanismos de repressão ou porque isto era um Estado de cariz fascista ou totalitário. Salazar durou muito porque os portugueses eram tão iliberais quanto ele. […]

O governo recebeu o país num tal estado de catástrofe em 2011 que nem sequer se pode dar ao luxo de articular uma ideologia ou de se pensar a si próprio como um governo liberal ou conservador, porque procurou resolver um problema específico. […] No entanto, não foi capaz de fazer aquilo que é fundamental para o pensamento conservador e liberal como é a circunstância de remeter o Estado para o seu específico e limitado papel.

O Estado continua a ter uma presença esmagadora face à criação de riqueza do país. Veja o caso da reforma a nível autárquico no país, que é um caso clamoroso da incapacidade reformista demonstrada pelo governo. Mas, repito, o governo apanhou o país numa situação difícil e teve de lidar com essa emergência nacional. […]

Entrevista ao jornal i, 17/18.05.2014, por ocasião do lançamento do seu último livro, Conservadorismo, Dom Quixote.

17 maio 2014

McNamara vs. Rumsfeld, pela lente de Errol Morris

The fog of war – eleven lessons on the life of Robert S. McNamara, de Errol Morris, é um daqueles filmes essenciais para mim. Já o vi varias vezes e voltarei a ver muitas outras certamente. E sobre ele já escrevi aqui e aqui, por isso não vou desenvolver muito. Basicamente é um documentário em que McNamara percorre a sua vida. Foi uma vida cheia, rica, mas difícil. Foi responsável político no ramo militar no país mais poderoso do mundo durante as piores guerras do século XX. Fez parte do comando militar que praticamente destruiu o Japão por via aérea (antes de Hiroxima e Nagasaki) e foi Secretário da Defesa, sob Kennedy e Johnson, sendo responsável directo pelo envio de milhares de jovens para a guerra no Vietname. Mcnamara tem o sangue de centenas de milhar, talvez milhões de pessoas nas suas mãos: soldados seus, soldados adversários e civis. Ele tem essa noção. Ele diz-nos que, caso o seu país não tivesse ganho, por exemplo, a II Guerra Mundial, ele teria sido julgado e, provavelmente, executado como criminoso de guerra. É desconcertante, porque é um homem claramente numa vã mas consciente procura de redenção pessoal, ou de algum tipo de absolvição. No entanto, simultaneamente, é extremamente preciso nas suas memórias e quer deixar um legado de conselhos relacionados com a guerra e sobre o uso da força e do poder para as gerações futuras. Torna-se claro que é um homem que não tem paz e jamais a encontrará. O filme é, pois, angustiante, porque criamos empatia com McNamara, apesar de tudo. Ele fez o que teve de ser feito, talvez para evitar ainda mais mortes, poder-se-á dizer para o tentar justifica. (O filme está disponível na internet)

Depois, é um filme muito bem realizado por Errol Morris que também vai conduzindo a entrevista,  através dum mecanismo chamado interrotron que obriga o entrevistado a manter contacto visual com a máquina de filmar e com os espectadores, aumentando de forma magnífica o dramatismo e conta ainda com a música do Phillipe Glass que vai traduzindo exactamente tudo aquilo que vamos sentindo. O filme é de 2003 e McNamara morreu em 2009.

Adiante para 2013.

Errol Morris volta ao mesmo modelo, um documentário com outro homem de guerra, feito exactamente da mesma forma. O sujeito desta vez é Donald Rumsfeld, outro antigo Secretário da Defesa americano que trabalhou em tempo de guerra. A ideia é, novamente, revisitar uma vida de decisões que levaram à violência, ao conflito e à morte. Mas as diferenças são implacáveis, este homem não está à procura de nenhuma redenção ou perdão como estava McNamara nem, muito menos, está a pensar em deixar bons conselhos para as gerações vindouras. Rumsfeld viu o que Morris tinha feito com McNamara e os resultados que teve e quis o mesmo, quis ficar bem na História. E essa diferença na abordagem ao documentário acaba por revelar tudo. McNamara fica para a História como um homem de guerra, culpado de muitas coisas, certo, mas bom na sua essência. Donald Rumsfeld, pelo contrário, é um homem vil, um tipo que não tem qualquer respeito pela vida alheia e que, pelo contrario, pensa só em si e nos seus interesses. É imoral. Sem falar sequer na diferença na dimensão intelectual de cada um.  Tal como McNamara tinha feito, também Rumsfeld refugia-se em divagações filosóficas para encontrar justificações para os actos da sua vida. Mas se McNamara o faz com enorme distinção, Rumsfeld é patético. Aliás, os títulos dos filmes são duas dessas citações mais filosóficas e resumem bem o nível de intelectualidade de cada um: The fog of war - eleven lessons on the life of Robert McNamara que é impossível resumir aqui, dada a extensão e variedade questões que engloba e, no caso de Rumsfeld The unknown known, que basicamente quer dizer que existem coisas que desconhecemos.  

A técnica de Errol Morris despe totalmente o sujeito, deixa-o numa situação em que conseguimos ver através dele com facilidade. E, sendo um homem evidentemente inteligente e esperto, Rumsfeld saberia que ao fazer este filme e ao colocar-se nesta posição, iria revelar-se tal como é. Por isso a ultima pergunta de Morris a Rumsfeld é: porquê? Qual a razão de ele querer fazer este filme? A resposta: I'll be damned if I know e ri-se com aquele ar qu conhecemos. Eu arrisco-me a dizer que ele pensou que ia conseguir enganar e mentir e sair intacto. Afinal de contas, foi isso que fez a vida toda e em níveis muito mais importantes e com sucesso, por isso faz todo o sentido que acreditasse que seria possível. Mas não foi. Damned he will be,




São dois filmes praticamente idênticos e no entanto mostram dois lados completamente opostos da nossa Humanidade.

15 maio 2014

VERBA MANENT - XIX


   Direi até que quanto mais a administração se aperfeiçoa, mais hostil lhe sou. No fundo, não gosto do Estado senão abstracto, na teoria e na história. Gosto dele quando é justo e quando protege o indivíduo em vez se o esmagar. Receio os seus excessos e intromissões, de que o nosso século dá tantos exemplos. E detesto os seus formulários.
Jean d’Ormesson, Garçon de quoi écrire, Folio, VIII, 297
*
           E de que o NIF é um desses formulários, senão exemplos, como o BI fora outro. Nem há-de parar por aí…

(futebol) Maldição? Uma ova! (parte I)



Portugal 15 de Maio de 2014

Não é fácil assistir à 5ª derrota consecutiva de uma final europeia, das 8 que o Benfica leva de “enfiada”. Não é fácil de digerir este tipo de derrotas nas grandes penalidades, sabendo que é tão difícil chegar à final. Não é fácil perceber que dominamos a maior parte do jogo com uma equipa diminuída (por castigos e lesões) na sua valia global e não conseguimos marcar um único golo das várias oportunidades que se criaram. Não é fácil entender como foi possível existirem tantos erros de avaliação dos “não-sei-quantos-árbitros” e todos em desfavor do Benfica, algumas com possível implicação directa no resultado. Não é fácil...
Noite mal dormida mas ainda assim deu para por algumas ideias em ordem. E a primeira é que não existe qualquer maldição. A única maldição que me parece que não nos libertamos, é alguma arrogância e desconhecimento das leis do futebol. O resto é circunstancial e sem implicação nas 8 derrotas consecutivas.
Como já referi, vi 5 delas, ou melhor não vi a de ontem para não dar “azar” (gravei e vejo depois). E vi sempre asneiradas em quase todas essas finais, à excepção da derrota com o AC Milan por 1-0 (mesmo assim com um roubo de bola e um contra ataque rápido), uma das suas melhores equipas de sempre.
Nos jogos com o Anderlecht, fizemos uma exibição sóbria e inteligente na Bélgica mas o Diamantino falhou 1 golo de baliza aberta, dos que como se diz na gíria, “era impossível falhar”. No 2º jogo (a final da Taça UEFA era a duas mãos) jogamos à “Benfica”: empurramos os belgas para trás, estes agradeceram e marcaram um golo (por Lozano depois transferido para o Real Madrid) num contra ataque (o nosso meio campo era constituído por Shéu, Carlos Manuel, Stromberg, Chalana e Diamantino, dos quais só Shéu e Stromberg sabiam defender). Na final com o PSV perdida nas grandes penalidades por 6-5, os nossos jogadores Elzo e Pacheco andaram o jogo todo a perder as chuteiras porque se lembraram de estrear umas meias novas. Anedótico e embaraçoso. O PSV tinha eliminado o Real nas meias finais, era claramente favorito, e na final o Toni ensinou ao Mourinho com se deve defender, pois foi quase só isso que o Benfica fez, embora se aceite a opção dada a diferença de potencial das duas equipas. No ano passado com o Chelsea jogamos com dois avançados, Cardozo e Lima e não corrigimos o modelo quando conseguimos empatar 1-1. Este ano jogamos novamente com dois avançados desta vez Lima e Rodrigo, mesmo sabendo que a nossa equipa estava desfalcada. Os adversários jogam com um só e ganham-nos. Maldição? Uma ova...
Desde o episódio das chuteiras voadoras à ambição desmedida de ganhar por esmagamento dos adversários, o Benfica falha porque não tem organização (chuteiras voadoras) e porque sofre de arrogância crónica irresponsável (jogar com 2 avançados). Não há aqui qualquer maldição. Há sim falta de competência e respeito pelos adversários e pelo futebol!
É preciso contudo abrir um parêntesis para salientar que a presença em duas finais da Liga Europa consecutivas, é algo que nos deve deixar orgulhosos e com a certeza que contribuíram para afirmar o Benfica no panorama internacional. Mesmo não ganhando, o Benfica ganhou a estima e consideração de muitos clubes e agentes desportivos, quer no ano passado, quer este ano. E isso nunca poderá ser ignorado destes debates acerca dos pormenores que faltam para ganharmos as finais europeias! Porque se não o fizermos, pode dar-se o caso que para o ano em vez de estarmos a falar da Final, estejamos a falar da fase de grupos da Champions ou dos dezasseis avos de final da Liga Europa. Eu prefiro continuar a falar de finais perdidas do que falar das opções do treinador que nos deixou pelo caminho.
Não posso deixar de referir que, a somar às lacunas internas já mencionadas, é pouco inteligente não contextualizar a derrota com os 2 penaltys perdoados ao Sevilha, um no final da 1ª parte sobre Gaitan, com expulsão associada, e outro na 2ª parte, sobre Lima com 2º cartão amarelo e expulsão associada. Sugerir, como já ouvi, que esses erros não podem servir para desculpabilizar erros próprios, é uma forma ínvia de branquear o que se passou, pelos mesmos que não têm igual critério quando ouvem Mourinho ou Bruno de Carvalho escudarem-se nas arbitragens para esconderem os seus fracassos. Se para estes os erros podem ser utilizados na retórica pós jogo, para o Benfica têm de poder também!
Ora esta problemática da arbitragem enquadra noutro problema que já referi diversas vezes e que também pode ser associado ao número de derrotas nas finais europeias: o Benfica não tem, nem agora nem no passado, estratégia de comunicação social para condicionar “positivamente” os árbitros, cá e lá fora. Quando foi anunciado que tinha sido escolhido o tal árbitro que validou um golo fantasma no campeonato alemão, teria sido inteligente comentar a nomeação em tons suaves mas assertivos, “fazendo votos para que o árbitro não validasse nenhum golo que não entrasse na baliza”. Isto teria bastado para que o árbitro e sua equipa percebessem que estavam a ser fiscalizados. Seria suficiente para ele assinalar os dois penaltys referidos? Não sei, mas seria sem dúvida uma ajuda e posso comprovar com os resultados do campeonato português, que o discurso de Bruno de Carvalho surtiu efeitos no campo dos penaltys assinalados a favor do SCP.