23 junho 2017

(futebol) Conto de fadas?



Portugal 23 de Junho de 2017

É cada vez mais difícil para mim, escrever o que quer que seja sobre o nosso Benfica. Estou do outro lado da verdade oficial que sustenta a actual liderança do Benfica clube e SAD, mas reconheço o direito às pessoas serem felizes, como neste momento devem estar, na sequência de um novo triplete de títulos, o segundo após 2014. E não me parece que eu deva continuar a ser uma espécie de “desmancha-prazeres” pondo o que penso à frente do que a esmagadora maioria de adeptos sente.
O triplete (Supertaça, Campeonato e Taça de Portugal) foi conseguido de forma tão categórica quanto difícil, com uns “pozinhos” de sorte aqui e ali, que não devemos ignorar porque para azar já bastou 2013.
Se a Supertaça está lá longe, vitória sobre o Braga por 3-0, o Campeonato é mais recente e por ser a prova mais importante a nível interno, merece um pouco mais de atenção. Foi um campeonato ganho com muito sacrifício, esforço e dedicação, nunca podendo ser desvalorizado o papel dos adeptos no apoio à equipa, em particular nos momentos em que as coisas não saíam bem.
Apesar do muito “ruído” e alguma “azia” que as vitórias do Benfica provocam nos “rivais”, a realidade é que a estatística dá-nos uma perspectiva mais correcta do que se passou. Assim, na famosa matéria das grandes penalidades, o Benfica acabou a época com um total de 6-1 a favor e contra, o SCP com 12-4 e o FCP com 8-3. Se fizermos as contas à 1ª volta, o Benfica tinha 2-0, o SCP 2-1 e o FCP 4-0. Ainda não percebi bem quais as vantagens que o Benfica teve nas grandes penalidades, sendo certo que ficaram algumas por assinalar a nosso favor (eles apenas vêm uma ou outra que ficou por assinalar contra).
Se analisarmos os minutos jogados em superioridade numérica/ inferioridade numérica, concluímos que o Benfica acabou a época jogando 54mn em inferioridade e 2mn em superioridade. O SCP jogou 35mn em inferioridade e 104mn em superioridade. O FCP por seu lado, jogou 41mn em inferioridade e 281mn em superioridade. Mas se considerarmos o número de jogos onde isso aconteceu vemos que o Benfica teve os seus jogadores expulsos em 2 jogos (Rio Ave e Arouca, ambos em casa), e jogadores adversários expulsos em 1 jogo (Tondela em casa). O SCP teve os seus jogadores expulsos em 3 jogos (Boavista, Feirense e Chaves, tudo na 1ª volta) e jogadores adversários expulsos em 2 jogos (Moreirense e Arouca, também na 1ª volta). O FCP por seu turno teve os seus jogadores expulsos em 3 jogos (Rio Ave, 1ª volta, Boavista e Chaves na 2ª volta) e jogadores adversários expulsos em 10 jogos (7 deles na 1ª volta).
Nesta matéria de expulsões, ainda podemos concluir que o factor casa, no Benfica rendeu duas expulsões contra e uma a favor, no caso do SCP rendeu uma expulsão contra e duas a favor, no caso do FCP rendeu zero expulsões contra e cinco a favor. Onde está o beneficio? Vejamos ao contrário. Fora de casa Benfica e SCP tiveram zero expulsões a favor, mas o FCP teve 5...
Por aqui não consigo perceber onde é que o Benfica foi beneficiado e se tomarmos como referência os anos do Apito Dourado, onde por cada época, o FCP beneficiava de mais minutos em superioridade numérica e menos minutos em inferioridade numérica, ao invés do Benfica, e beneficiava de mais penaltys a favor e menos contra, enfim, até acho algum paralelismo esta época que findou, mas com o FCP e não com o Benfica.
É certo que estes indicadores são o que são, e valem o que valem. Mas na época 2004/2005 ouvi Rui Santos dizer no seu programa de então na SIC, a propósito da derrota do Benfica em Leiria por 1-0, onde existiu um flagrante penalty por assinalar a favor do Benfica (sobre Sokota) que Rui Santos quis escamotear, que “no final do campeonato, os erros a favor e contra equilibram-se”. Então o que mudou em relação a esse ano? É fácil: o Benfica passou a ganhar mais! E agora vemos o próprio Rui Santos, qual investigador de arbitragem, formado na “Faculdade Himself”, repetir lances televisivos até à exaustão para provar que ficou por assinalar um penalty contra o Benfica. Se admitirmos que não ficou senil não sei explicar esta diferença de atitudes e de critérios.
O Benfica ganhou também a Taça de Portugal que estreou o famoso vídeo-árbitro. Vá lá saber-se porquê, e será apenas mais uma coincidência, dos dois lances para grande penalidade favoráveis ao Benfica nenhum foi considerado válido pelos dois árbitros que estavam a ver pela TV. Eram eles Jorge Sousa e Soares Dias, do CA Porto (outra coincidência). Soares Dias trazia consigo o curriculum de não conseguir marcar 1 único penalty a favor do Benfica em toda a época (só em Alvalade teve 2 boas hipóteses e uma menos boa hipótese). Jorge Sousa marcou um penalty contra o Benfica, e a favor do Aves, na longínqua época de 2006/07 por um lance semelhante ao que agora, vendo pela TV, considerou não ser (o jogador no relvado toca a bola com o braço).
Por estas razões a próxima época adivinha-se um “bocado” mais difícil, e perante estes cenários, em vez de ajudar, a política de gestão dos activos futebolísticos, ainda a irá tornar mais difícil...

08 junho 2017

THE BEAUTIFUL AND THE SAINTS


Se bem que as penas destas avezinhas sejam no geral (e no particular) o mais possível diferentes das minhas, contudo, de vez em quando depara-se-nos uma observação que encontra em nós o seu eco e anuência.
Tais coincidências, sempre raras, apesar da natural e cultivada indiferença da opinião do próximo que a cartilha do discreto manda exercitar, não deixam todavia de ser gratas e até tranquilizadoras, por isso que, nas palavras do cínico antigo, não convém uma pessoa permanecer muito tempo onde ninguém se parece com ela; e «un alma necesita respirar almas afines, y quien ama sobre todo la verdad necesita respirar aire de almas veraces» (Ortega y Gasset, El Espectador, I, «Verdad y perspectiva»).
Pois a última destas raridades deflagrou-a uma observação de Francisco José Viegas, por alguma coisa um liberal à moda antiga, amigo ou porta-voz de António Sousa Homem, por sua vez um antigo e um liberal; observação, ainda assim, prudentemente envolvida pelo bom Viegas entre parêntesis no meio do artigo do Correio da Manhã, de 3 de Maio, a saber: «(o betão de Fátima é a prova da imensa capacidade da igreja de hoje para ignorar a beleza)».
E tenho pensado nisso, tanto mais que, ultimamente, como preparação de próxima viagem a Itália, ando lendo sobre a arte italiana.
Desde os tempos do Renascimento, quando a Igreja patrocinava os grandes artistas, até aos tempos desta modernidade ou pós-modernidade, quando a Igreja encomenda à artista Joana Vasconcelos um terço gigântico à laia de obra de arte comemorativa do centenário das aparições (ou visões? Eis a magna questão do momento), a Igreja mudou, e não me parece que para melhor. Parece-me que faltam pecadores na Igreja, quer dizer, na hierarquia. Fazem falta príncipes da Igreja verdadeiramente dignos desse nome; os cardeais e papas de agora serão muito santos, mas bacoreja-me que sem a chama da volúpia do belo, «sempre rubra, ao alto, a arder», num Júlio II ou num Leão X. Os de agora afiguram-se-nos muito boas pessoas, santos decerto, mas apagados para a beleza. E toda a gente perde com isso, até a Igreja: «Não olheis aos vossos pecados, mas à fé da vossa Igreja», já dizia o seu mentor. E como pode haver fé sem a grande arte, deuses imortais! Música, pintura, arquitectura… Se não fosse a Igreja, onde estavam três quartos da Arte Ocidental?! Encomendam a Siza barracões industriais à laia de Igrejas, para não tornar à nutrida artista Joana Vasconcelos, que confunde o tamanho XXXL da sua roupa com o volume das suas putativas esculturas. Reserve-se urgentemente uma cota no colégio de cardeais a pecadores de boas famílias por amor da arte. – S. O. S., seja, mas também S. O. A.
O que é triste é que os experimentalistas, em vez dos artistas, tomaram conta dos departamentos culturais da única entidade que continua a gastar dinheiro com música e escultura, o Estado. Fazem falta os grandes mecenas privados. A Igreja, entregue a santos, desamparou a grande arte. Por desventura, os santos, ou são por via de regra, senão exigência de ofício, ignorantes, ou estão mais preocupados com a beatitude; e os outros, os aristocratas magnificentes, são uma espécie extinta. Os ricos actuais mostram-se ordinariamente incultos e até crassos, mingua-lhes a criação e o refinamento apurados por dez gerações ininterruptas de gente opulenta, entendida e requintada. É pena – porque para a arte é melhor ser belo do que santo, ainda que seja melhor ser santo do que feio.  
Hoje, porém, o pior de tudo ainda é a subserviência perante o «Artista» (com maiúscula). Hoje, qualquer enzona se encampa por obra de arte porque a mera experiência substituiu a obra.
Mas não faltam os Mozarts potenciais. O que falta é um arcebispo de Salzburgo que trate o artista como um criado; genial embora, mas criado.

Porque uma vez e sempre se confirma que a «arte nasce de constrangimento, vive de luta, morre de liberdade»: excelentemente André Gide. 

07 maio 2017

(futebol) Perto de quase tudo e do quase nada...


Portugal 7 de maio de 2017

Devido a uma conjugação de resultados e ordem dos jogos, o Benfica está numa situação que tanto nos pode aproximar definitivamente do “Céu” como nos pode manter perigosamente perto do “Inferno”…

O futebol tem destas coisas. Ganhando, o inédito tetra fica praticamente garantido. Perdendo ou empatando, a conquista do título continuará a depender de nós, mas já sem margem de erro. E os dois últimos jogos (Guimarães e Boavista) não são propriamente fáceis…

Tenho mais de meio século de idade. Nunca vi o Benfica ser tetra campeão. E quando mais jovem, não dava valor aos bi ou aos tri campeonatos, porque o Benfica era melhor e ponto. Por isso agora que podemos estra na antecâmara de um feito inédito, não sei que dizer. Ganhar? É a parte mais fácil, mas sabemos que as vitórias dependem de tantos fatores, não bastando a qualidade ou a entrega dos jogadores…

E se o árbitro erra ao favorecer um golo contra nós, golo esse que depois condiciona a confiança e movimentação dos nossos jogadores? Golo esse que empola a confiança do adversário que passam a ser mais eficazes? E passando a ser mais eficazes dão a sensação que são melhores do que na realidade são? E condicionando a confiança dos nossos jogadores pode dar a sensação que estão a jogar menos bem do que são capazes?

Nestas alturas de desespero emocional, é fácil dizer que se marcarmos mais um golo do que o adversário, ganhamos. Há muitas verdades “la palissianas” no futebol…


O Benfica está a um pequeno passo de fazer história. Que não falte a inspiração, dedicação, esforço, motivação… E que se faça história!

13 abril 2017

(futebol) Cair na real...



Portugal 13 de Abril de 2017

O cântico dos Super Dragões, uma claque legalizada, desejando a morte aos atletas do Benfica vem provar que o ódio cultivado nesse clube não se resolve com as posturas brandas e de conciliação como tem sido apanágio das sucessivas Direcções do Benfica, em particular deste “reinado” que dura há 15 anos. Nos últimos tempos assistimos a um bombardeamento de argumentos mentirosos, manipulados e interesseiros, do director de comunicação do FCP, aos quais o Benfica com a costumeira indolência não reage, levando a que essa mentira muitas vezes repetida se transforme em “verdade”, levando os adeptos desse clube a odiar ainda mais o Benfica porque a “justiça” contra nós (segundo eles) não funciona.
As posições conciliadoras do Benfica só servem os interesses mediáticos, com implicação positiva na imagem e influência, do Presidente Vieira, pessoa que continua a passar por entre os “pingos da chuva” na hora de assumir responsabilidades por vários fiascos. Como este, da falta de respeito mortal que alguns imbecis do FCP mostraram.
Os que antigamente diziam que o “mau trato” de que o Benfica era alvo por parte de SCP e FCP se devia à falta de credibilidade de Vale e Azevedo, têm de cair na real, porque isso nunca foi argumento. Esse argumento foi sim utilizado para minar a confiança dos sócios e adeptos na sua liderança, e criar condições objectivas que levaram à eleição dos dirigentes que aprovaram e têm gerido o actual projecto económico que, como sempre denunciei, só é favorável aos interesses dos minoritários. Andamos a pagar para outras empresas lucrarem, e muita gente do Benfica também, porque nestes negócios há sempre uma cadeia de cumplicidades e dependências.
Mas cair na real é o que também têm que fazer os que entusiasticamente apoiaram a saída de Jorge Jesus para a entrada de Rui Vitória, porque alegadamente 1) JJ se tinha oferecido ao SCP, 2) JJ não apostava na Formação. A renovação com Rui Vitória em Março derruba todos estes argumentos. Porque não houve igual critério em Março de há 2 anos, com o Benfica comodamente instalado na liderança do campeonato, finalista da Taça da Liga, embora eliminado da Taça de Portugal em casa pelo Braga e não tendo progredido na Champions League (adversários Mónaco, Bayer Leverkusen e Zenit)? Com um plantel de fraca qualidade, reforçado com o campeonato a decorrer com entrada de Samaris (jornada 5) e de Jonas (jornada 7) era possível pedir mais a JJ? Creio que não. Contudo não houve renovação nem conversas sobre isso, ao contrário do que agora existiu com Rui Vitória. Vieira não queria renovar com JJ. E porquê? Isso é outra história.
Sobre a aposta a Formação caiam na real! Com a entrada de Rui Vitória e porque interessava repisar que JJ não apostava na Formação, promoveram Nélson Semedo, Gonçalo Guedes e Victor Andrade. Com falta de opções a meio campo e menor rendimento de Guedes e Andrade, entrou Renato Sanches em Novembro. Com as lesões dos centrais entrou Lindeloff em Janeiro. Este ano não só Vieira despachou Victor Andrade e João Teixeira (duas das prometidas apostas), como vendeu Gonçalo Guedes e não promoveu ninguém! Porque a cassete era apenas para enganar os adeptos do Benfica. Afinal JJ, bicampeão, saiu porquê?
Quanto a futebol a goleada sofrida em Dortmund também serviu para cair na real. Equipa para disputar a Champions? Só se for no campeonato da divida financeira, porque desportivamente apenas vai dando para consumo interno e nem sempre. Fizemos um trabalho meritório na fase de grupos, com dois grupos acessíveis ao nível dos adversários do pote 3 e 4, e cumprimos. Mas parece-me pouco para quem deve 300 milhões à Banca e apenas se gastaram 100 milhões no estádio e no Centro de Estágio do Seixal.
O campeonato está na recta final. Faltam 6 jornadas. Espero não ter de cair na real...

06 abril 2017

(Des)venturas de viajante "azorairliano"

A coisa conta-se em poucas palavras e muita irritação.

Um cidadão residente nos Açores compra um bilhete à Azores Airlines, detida em 100% por capitais públicos - logo, paga (no seu crónico défice) pelos contribuintes -, e desembolsa mais de 600 euros para se deslocar entre Ponta Delgada e Lisboa.

Para os mesmos dias, com bagagem incluída, na mesma companhia, um bilhete de Ponta Delgada para Barcelona custa 403 euros, sendo mistério a razão da discrepância no preço (bla, bla, voo mais longo… custos menores…) e da existência de uma rota para aquela cidade.   

Alguns saberão, outros imaginarão ou conjecturarão a razão dos preços exorbitantes e das rotas que, de quando em vez, se vão engendrando, no denominado serviço público. Nisso, o cidadão é ígnaro.

Tal não obsta, porém, a que pareça, mais ou menos obviamente, que a política de preços da SATA, perdão, da Azores Airlines, esteja relacionada com o serviço público mas não seja serviço público, mesmo quando apresenta tarifas mais baixas, com uma lista impiedosa de restrições.

Já quanto às rotas, que vão mudando ao sabor dos tempos e vontades, nunca se ouviu uma explicação razoável, pelo que mais não se explicam do que pelos dinheiros que as sustentam serem os dos contribuintes.

Mas, não divaguemos, retomemos. Compra o cidadão o dito bilhete e verifica que é um voo partilhado com a TAP (“code-share”, como os doutos gostam de dizer). Tudo bem. Os 600 e picos euros desembolsados cobrem qualquer eventualidade, terá, ingenuamente, pensado. E faz o “check-in” (mais uma para doutos) e altera o lugar. Hélas! Pumba! Qual voo partilhado, qual quê. Mudar de lugar? Que topete! Os luxos, pagam-se. Dá cá 10 euros (irreversíveis) à TAP, porque sim (mesmo que a forma como a irreversibilidade é apresentada seja legalmente questionável).

Telefonema para o Satanico “call center” (doutos, doutos) e, como se esperava, vem o bíblico Pilatos. [Nada temos a ver com o que a outra companhia faz; até avisamos quanto à bagagem]. Mas e as mudanças de lugar? [Isso não, é com a outra companhia aérea]. Mas não acham que deveriam informar os vossos clientes? [Não, até avisamos quanto às bagagens e bla, bla, bla…] - atencioso, diga-se, perante a furiosa irritação -. Mas, os vossos clientes, que não têm culpa do “code-share” (douto), não deveriam ter exactamente os mesmos direitos que teriam se viajassem na Azores Airlines? [Hã?! Hum!…… nós até avisamos da bagagem….] E, já agora, cobram a alteração de lugar aos passageiros da outra companhia aérea quando viajam na Azores Airlines? [Não]. Não?! Não há algum acordo de reciprocidade que proteja os passageiros da Azores Airlines?! [Ah, bla, bla,.. até avisamos da bagagem…] Sugere-se que, além da bagagem, o departamento jurídico inclua os lugares. [aaa… nós aqui podemos fazer a sugestão]. Então, façam-na e acrescentem, também, que não é serviço público ir para Barcelona, sobretudo quando há que responder às necessidades primárias dos Açorianos.

Eis-nos, simples mortais, perante os meandros da gestão dos dinheiros dos contribuintes, da clareza informativa a estes conferida e do acautelamento dos fiéis clientes.

Pensar a(s) SATA(s) ou repensar o serviço público por ela(s) prestado?!  

Ao que nos é dado ver, aparentemente, para Santana tudo está bem. Afinal, o cidadão até é reembolsado…

Quanto aos 10 euros? 
Pagos. 
Sem reembolso, pois claro. 
O cidadão tem de viajar. 




Adenda: Além do supra e das ligações coloridas ali constantes, tanto se escreveu sobre a SATA neste blogue: um, dois, três e outros. Em certos aspectos, as questões permanecem actuais.    

09 março 2017

PASMA O REI E PASMA O POVO


A un Caballero que, estando
com una dama, no pudo cumplir
sus deseos

Com Marfisa en la estacada
entraste tan desguarnido
que su escudo, aunque hendido,
no pudo rajar tu espada.
!Qué mucho, si levantada
no se vio en trance tan crudo,
ni vuestra vergüenza pudo
cuatro lágrimas llorar,
siquiera para dejar
de orín tomado el escudo!
D. Luís de Góngora


Desedifica-me, para não dizer mais e pior, ver um roto encartado a zombar de um cavalheiro esforçado, suposto que menos feliz em trabalhos de amor baldados – sim, love’s labour’s lost, para o dizer com o bardo. Ora, reza a crónica bilhardeira daqueles tempos que D. Luís nem com três quilos de viagra no bucho faria melhor que o cavalheiro da décima, e no entanto zomba. Exemplo nada exemplar!
Serve o poema para introduzir um livrinho simpático, pequeno, com menos de 200 páginas, capa de fundo azul muito escuro, encimada pelo nome do seu autor, seguido, logo abaixo, do título: Crónica do Rei Pasmado. E a figura de uma mulher nova despida, deitada em uma cama pousada num chão de quadrados brancos e cor-de-rosa, com um anjinho deitado sobre uma nuvem à cabeceira, e a cauda do mafarrico aos pés do leito.
O seu autor, Gonzalo Torrente Ballester (1910-1999), foi professor, romancista, crítico literário e teatral, dramaturgo e jornalista espanhol, autor dos romances, entre muitos, La Princesa Durmiente va a la escuela, La muerte del decano, Crónica del Rey pasmado, de peças de teatro como El retorno de Ulises e Republica barataria, de ensaios como El Quijote como juego. Vencedor do Prémio Príncipe das Astúrias de Letras, do Prémio Nacional da Narrativa e do Prémio Cervantes, foi um dos mais importantes escritores espanhóis do século XX.
Passa-se o conto em Espanha, na Madrid do Siglo de Oro, por volta do ano de 1624, em Outubro, reinava então Filipe IV (III de Portugal), que representaria os seus 20 anos. Estranhos sucessos ocorrem, visões de bruxas e dragões sulfurosos, pressente-se algo anormal no ar. El-rei passou a noite com Marfisa, bela cortesã daquele século; acompanha-o o conde da Peña Andrada, corsário galego, recentemente chegado à corte, mas que ninguém conhece muito bem e que mais tarde se descobre ser o mafarrico em pessoa. El-rei, moço inexperiente e recém-casado, com pouco conhecimento do mundo e sem nunca ter enxergado ou surpreendido mulher nua, fica fascinado com a visão esplendorosa do corpo de Marfisa. Passou o resto do dia aluado e manifestou, na missa, o desejo de ver a rainha também nua.
Escândalo dos escândalos: nunca se vira tal na corte dos reis mui católicos. Padre Villaescusa, frade capuchinho, sujeito tenebroso que mistura o zelo beato com a ambição de ser o próximo Grande Inquisidor (sim, uma espécie de frei Anacleto Louçã dos nossos tempos), encabeça a reacção que vê no desejo do rei um grave pecado e um perigo para a estabilidade do Estado. Anuncia pois com grande espavento que os pecados dos reis, até os privados, recaem sobre os seus povos. El-rei, coitado, depois de ver Marfisa in naturalibus, ficou pasmado sem pensar noutra coisa durante… o resto do livro e, a fazer fé na História, até durante o resto da vida: 19 filhos entre legítimos e ilegítimos.
Reúnem-se conselhos de sábios reverendos dirigidos pelo Grande Inquisidor para determinar se é ou não lícito o desejo do rei, preocupa-se o valido, o conde-duque de Olivares com a alteração da ordem pública... A bem da verdade, além das preocupações públicas, o valido tinha a sua preocupação muito particular: posto que amantíssimo de sua esposa, não conseguia que o esforço frutificasse em descendência, o que assaz o desgostava, pois não queria deixar a fazenda a primos e parentes ou aderentes quando se fosse desta.
Marfisa, a bela odalisca, é perseguida pela Santa Inquisição, consegue fugir, avisada que foi a tempo pelo recado do Grande Inquisidor, homem cordato e nonchalant, com grande conhecimento do mundo, e que faz o menos possível em matéria da perseguição de hereges e afins. Refugia-se aquela beldade num convento de monjas, cuja superiora é da aquela do Grande Inquisidor. Complica-se o enredo, no conselho de sábios dividem-se as opiniões; o grupo que defende que os reis, como toda a gente, das suas portas adentro podem fazer o que quiserem em matéria de intimidades conjugais, é conduzido pelo padre Almeida, jesuíta português, em trânsito para Londres, onde se espera seja martirizado, e que (vem a saber-se ao diante) é um anjo, contraponto do mafarrico, conde de Peña Andrada.
A intriga adensa-se, as posições estremam-se, conspiram uns para proporcionar aos reis uma noite de amor sossegada, ou, senão sossegada, ao menos sem interferência de importunos e, no literal e metafórico, desmancha-prazeres; outros, com o padre Villaescusa à cabeça, querem a todo o custo impedir os reis de pecar…
Curiosamente, nesse mundo de fantasia, o anjo e o mafarrico concorrem no auxílio aos reis e seu gáudio!
É um livro amável, que trata de assuntos sérios de forma irónica, retrata um mundo em que anjos e demónios falam cordialmente e colaboram entre si para coadjuvar amantes contrariados; um livro que apela para a bondade e tolerância, e condena o zelo e o fanatismo. E, se de alguma coisa se dá pela falta hoje neste Portugal e PREC morno em que vivemos – com o politicamente correcto a grassar cada vez mais grosso e grosseiro neste mundo da bempensância modernaça, mais informatizado do que informado, e em versão cada vez menos soft das velhas e relhas censuras puras e duras – é de bondade e tolerância, e de um pouco de honestidade.
Mas desde muito que os empregos andam escassos, e a legião de controleiros de serviço carece de serventia para mais.

      Ficai-vos embora, e sem passar a vida a ressentir e cultivar a última palavra dos Lusíadas.  

26 fevereiro 2017

Há comunicação social em Portugal?

Jornalistas foram impedidos, em Portugal, de realizar o seu trabalho. Uma, num julgamento que tem como arguido o presidente de um clube de futebol, e outra ao questionar o primeiro-ministro. No primeiro caso, cidadãos alegadamente ligados a uma claque do clube, apropriaram-se indevidamente do equipamento profissional; no outro, um segurança do primeiro-ministro encarregou-se de impedir a aproximação para que que fossem feitas perguntas às quais este só responderia se quisesse.

Depois do que aconteceu e muita gente viu, incluindo os profissionais do mesmo ramo, a pergunta impõe-se: há comunicação social em Portugal?

Será caso para reflexão mais profunda, mas, encurtando e perante os factos, se houvesse, certamente teria mostrado as imagens que filmou, as fotografias que tirou e escrito sobre o que viu.

Como desconheço que o tenha feito, nem sequer sei o que isso é.

E ela (que acha que existe) percebeu muito bem que a intimidação individual, sempre mais fácil de realizar, era dirigida a ela no todo e, em vez de reagir, acatou o recado e omertà, quer sobre um grupo de cidadãos que se movimentam num Estado dentro do Estado, quer perante a atitude de um segurança do primeiro-ministro (ou a sobranceria deste, quando passou por ela – que acha que existe -. Lembram-se do tempo de um outro primeiro-ministro?!).

Perante a intimidação, aquela que acha que existe, é culpada na permissão e inacção e, a talhe de foice, deveria meditar sobre a entrevista realizada ao director de informação de um canal televisivo, naquilo que é realmente importante: independência e informação.

É que ser corajoso com os inofensivos, como a Igreja Católica, por exemplo, que ouve e perdoa, ou a novel grande causa comum (ideólogos amigos assim o suscitam), Trump (que não lhe liga), pode parecer informação, mas nada mais é do que simulacro, perante o absoluto silêncio sobre os demais pares dos exemplos, sobretudo quando são um perigo, tal e qual como a civilização europeia/democrática o configura.

Há anos que, pessoalmente, a deixei de ver, ouvir e ler (a portuguesa - obviamente abrindo excepções, quase sempre por razões profissionais) sob prisma sério. Busco, maioritariamente, em espaços alternativos de informação - como a blogosfera -, a essência e limpidez dos factos, das acções e das intenções, aí ajuizando, no cruzamento, criticamente. Do que vou conversando com vários amigos, que me vão dando conta do que nela se passa, parece-me que tenho perdido pouco ou nada, pelo que estarei na senda sensatamente correcta.

Reitero, aquilo que fizeram aos jornalistas (porque estes existem!), se fosse no estrangeiro, teria, imediatamente, motivado reacção global e concertada de repúdio e, na manutenção da inércia, quer do Estado quer do clube, acção comum de denúncia, boicote ou o que por bem achasse pertinente, mas jamais silêncio, cúmplice, pensarão muitos.


Na conclusão, é claro que serei o primeiro a redimir-me, quando ela me provar o erro. Até lá, “messieurs, honni soit qui mal y pense! Ceux qui rient en ce moment seront un jour très honorés […]”…  



Aditamento: porque pouco relevante, não teria de o publicitar, mas, portugueses, leio o jornal online Observador e os blogues Corta-Fitas, Blasfémias e Geração Benfica, diariamente, entre muitos outros, ainda que estes mais esporadicamente.

23 fevereiro 2017

QUINTAS-FEIRAS AZIAGAS


Comentando o que por aí reza a crónica desta admirável e nova idade mídia sobre as últimas façanhas literárias do Sr. Presidente, desabafava minha avó Georgina que em tempos mandava a cartilha cavalheiresca que não se batesse em quem estava caído; e por isso não lhe caía bem ver um homem atacar outro quando este se vê a contas com as justiças, e até já foi posto em sossego preventivo, de onde só saiu por exaustão do respectivo prazo. Faria o presidencial memorialista o mesmo se o visado ainda fosse primeiro-ministro? Eis a questão. Guardasse-se para mais tarde, quando o pó do tempo assentasse, e tudo estivesse esclarecido. O que só prova que a boa senhora nunca foi política nem simpatizante da dita. 
       E realmente as memórias de Cavaco dificilmente deixarão de parecer um ajuste de contas com Sócrates, e também uma justificação da sua incapacidade de intervir e travar a loucura chuchalista que levou à bancarrota, e possivelmente levará à catástrofe, sempre mais ou menos iminente no destino do Lusíada, coitado, desde o título de Eça, e até de antes. Afinal de contas, sempre mal feitas neste país de poetas líricos, a Cavaco, mais que a ninguém (por alguma coisa será professor de Economia), corria-lhe a obrigação de saber e antever os resultados da política socrática. Se a civilização se cifra em prever e prover (Bertrand Russel dixit), por estas bandas e plagas continuamos alegremente selvagens.
Pesar-lhe-á na consciência a sua tibieza, e tentará agora justificar-se. Sem convencer, porém. Tê-lo-á movido o mero cálculo e estrito interesse pessoal (a reeleição) e o medo (da reacção socialista). No lugar desta Excelência, um magistrado mais inteiro teria procedido de outro e eficaz modo. Mas ninguém pode saltar fora da sua sombra.
       Resumindo, Quintas-Feiras por Quintas-Feiras, antes no Homem Que Era Quinta-Feira. Fiquemo-nos com esta e com este.  


02 fevereiro 2017

(futebol) Perspectivas



Portugal 2 de Fevereiro de 2017

Há meses que não sinto “pica” para escrever, sendo dominado por um sentimento muito simples: o Benfica é dos sócios e dos adeptos, não é meu, nem o que eu penso é mais importante do que o que os outros pensam.
Ao longo dos últimos meses assisti à re-eleição, melhor, ao plebiscito que reconduziu Vieira a Presidente, no que considero ser um processo agónico resultante da falta de vitalidade associativa ou resultante do impacto da verdade da mentira em que se tornou a gestão do Benfica e da sua poderosa marca desportiva e comercial. Mas como o Benfica não é meu, apenas tenho de aceitar. O Benfica é o que é, é muito pouco afinal mas é o Benfica. Na vida não nos podemos iludir com o valor de pessoas ou instituições, porque um dia desiludem-nos.
Não entendo o quase unanimismo em torno de alguém que faz obra mas não a paga, que contrata e dispensa jogadores como vulgar mercadoria com dispendiosos encargos de intermediação, que contrata um motorista pessoal que depois é apanhado com 9 kg de cocaína que revendia, algumas vezes, no interior das instalações do estádio da Luz, que gostava tanto desse motorista que o promoveu a director para poder auferir um salário maior, alguém a quem o FCP em comunicado lembrou que “Coca-Cola não se escreve com 4 letras apenas”, que raramente assiste a um jogo das modalidades, mesmo em fases finais, que não consegue explicar quando se dará o “break event point” do projecto empresarial do Benfica aprovado em Assembleia Geral por larga maioria em 21 de Fevereiro de 2000, e muito menos explica como é que vendendo tantos jogadores e por tantas dezenas de milhões, hoje temos uma divida financeira superior à que tínhamos à 4 anos, enfim, alguém que vai navegando entre sucessos ou fracassos desportivos como uma enguia difícil de agarrar, entenda-se, difícil de responsabilizar. Mas como disse antes, não entendo, nem tenho de entender. O Benfica é isto, o Benfica não é meu.
Estarei a ver mal qualquer coisa ou esta minha forma de ver estará associada à minha natureza “desprezível”, o que é certo é que mais de 95% dos votantes expressaram o seu apoio à reeleição do Sr.º Vieira. O que significa que acham que 1) está tudo bem, ou 2) não há melhor. Muito mau em qualquer dos casos.
Posto isto que se pode dizer das últimas incidências futebolísticas, em particular, de alguns maus resultados onde existiram tantos erros grosseiros de arbitragem como nas duas últimas épocas juntas?
Pois nada também. Como nada ou nenhuma é a reacção oficial da Direcção do Benfica, o que aliás é o padrão dominante da gestão do Sr.º Vieira. Em 15 anos contam-se pelos dedos de uma mão (e sobram dedos) as vezes que a Benfica SAD se expressou formalmente contra os “abusos” das arbitragens.
Portanto se a Direcção nada reclama e se o Sr.º Vieira foi reeleito/ plebiscitado com mais de 95% de votos, que importa o que pensa de tudo isto, o comum do adepto/ sócio do Benfica que não entende o unanimismo em torno de Vieira? Nada... Cruzar os braços e assistir à destruição da equipa que até há bem pouco tempo batia recordes sobre recordes é a forma mais adequada de levar as coisas. E sempre evita algumas insónias.
Entretanto os moços de recados, entenda-se, a máquina da propaganda de Vieira, através do disponível CM (seguir-se-ão outros na órbita de Joaquim Oliveira e influências de Jorge Mendes) já fizeram circular que Vieira acompanha a crise do futebol, embora à distância. À distância, em Inglaterra, não se sabe a fazer o quê. Mas está a acompanhar (dizem). Também estava em Moçambique com seu amigo Salvador no dia em que o Benfica perdeu com o Braga na meia-final da Taça da Liga, e também estava no casamento do amigo Mendes no dia em que o Benfica jogou a Eusébio Cup no México, em Monterrey, onde perdemos 3-0. Mas que interessa? Ele está sempre a acompanhar a equipa, dizem os moços de recados.
O que é certo é que este tipo de tretas “cola” nos benfiquistas, sendo disso um sinal evidente, o unanimismo em torno dos méritos de Vieira e a falta de alternativas. O que também permite concluir que quem poderia ser alternativa concorda com este rumo, com esta estratégia, com esta personagem.
O Benfica é isto. Felizmente não é meu. Siga a marinha...