13 Maio 2013

Coisas do Diabo



Obra de grande tomo, no sentido literal e figurado, com tanto que dizer a seu respeito, que a dificuldade está em decidir por onde começar. Li-o há bons vinte anos quando apareceu a edição portuguesa, a do Círculo de Leitores (minha avó integrava a seita assinante na altura). Não me deixou grande impressão; nada que se comparasse à Montanha Mágica ou aos Buddenbrooks, dois livros que muito me deram que pensar nos meus verdes anos. Só a recordação da morte do pequeno Nepomuk, de meningite, se manteve estes anos todos. Pelo contrário, lembro-me ainda, como se fosse hoje, da impressão que me fez a leitura dos Buddenbrooks, livro sobre a decadência e a desvitalização de uma família, tema que ao tempo me preocupava bastante.
Mas o Doutor Fausto reli-o agora, já com outra idade e (espero) maturidade, e outro conhecimento da música, principalmente da música de Arnold Schoenberg, o que há vinte anos me faltava. Na altura também Hugo Wolf me era ignoto, já não agora. Mas o meu conhecimento das fontes permanece incompleto: não conheço suficientemente as obras de Frederico Nietzsche, uma das personalidades que entraram na composição do super-artista alemão representado por Adrian Leverkuhn, o protagonista deste último romance de Thomas Mann.
Quando o escreveu, já Mann estava exilado nos EUA, onde se refugira em 1938, por causa da ascensão do nazismo na sua Alemanha natal. O romance foi publicado em 1947, pouco depois do fim da guerra, quando já se conhecia em todo o seu horror o que fora o regime nazi e toda a devastação que trouxera à Europa e à própria Alemanha.
Obra complexa, a exigir muito do leitor. Sabe-se como a filosofia alemã é puxada à substância, muitos dos seus representantes seguem um método expositivo tão directo como o de coçar a orelha esquerda com a mão direita por trás do pescoço, e o livro está recheado dela, mormente a primeira parte, que trata dos estudos do nosso Adriano e do seu amigo e biógrafo Serenus Zeitblom, o narrador do livro (alguém havia de ser sereno em tal história, nem que só de nome…). Toco de fugida neste particular porque sempre me fez espécie a importância que os Alemães dão à filosofia, sobretudo à filosofia idealista de Hegel, que sempre me pareceu oscilar entre o charlatanismo e o vácuo, – o que certamente permite variações e aproveitamentos infinitos, a começar pela da firma Marx & Engels. Eu bem avisei algures que sou antes homo quadratus. Já na música estarei mais à vontade: tenho ouvido não pouca...
Começa pois o livro por fazer uma reflexão sobre a natureza do mal e da sua inevitabilidade associada ao livre arbítrio e liberdade. No fundo, se bem percebi, o mal não pode estar ausente da tragédia humana (boa tirada, reconheço…). O mal mora no imo coração do homem, paredes meias com o bem: as nossas acções e os nossos instintos podem facilmente descambar para o mal.
A personagem tácita, mas sempre presente, é a própria Alemanha, que no auge do seu poder e vigor como nação deixou que o seu potencial fosse arrastado para o mal, já com a guerra, já com a queda no abismo inominável do nazismo. E Adriano Leverkuhn, por um lado personificação da cultura alemã no auge das suas capacidades e realizações, no começo do século XX, por outro é uma figura compósita: três artistas cimeiros da cultura alemã participam na sua composição, que também reflecte o declive, mais ou menos assolapado, do próprio autor para the love that dare not speak its name, como o baptizou Lorde Douglas, autoridade na matéria. Durante o último século, artista ou intelectual moderno que se prezasse reunia em si de ordinário um de três atributos pelo menos: judeu, comunista ou cultor do dito.   
No trio inspirador, desde logo Hugo Wolf, citado logo no princípio. Wolf foi essencialmente um compositor de lied, género alemão por excelência e por onde Leverkuhn começou. Além do que a história pessoal de Wolf e de Leverkuhn têm muitas semelhanças: a infecção de sífilis, a loucura progressiva, própria da doença, e a morte aos quarenta e poucos anos. Hugo serviu certamente de modelo a Adriano.
Outro fatal participante na composição da personagem é Nietzsche: a cena final do livro, em que Adriano, fulminado pela loucura e tornado à inconsciência original, é acolhido pela mãe como uma criança de colo, parece copiada a papel químico da vida do filósofo de estilo retumbante, ele próprio melómano e também compositor (a sua música está disponível em linha).
O terceiro foi Arnaldo Schoenberg, que não era alemão, mas austríaco e judeu, e foi o inventor do dodecafonismo, no romance a técnica criada por Adriano Leverkuhn. Curiosamente, porém, dos três vultos atrás enunciados, Schoenberg é o único citado pelo escritor em nota de fim do livro. Por coincidência irónica, ninguém mais diferente de Adriano que o velho Arnaldo, sujeito bem-disposto, ao que dizem. Ouvindo a música sombria e híper-wagneriana que ele compôs, custa a crer, mas assim reza a crónica. E se um tipo tem de acreditar em alguma coisa, seja nas crónicas coevas...
Conta-se que, por ocasião da Grande Guerra, ao ser incorporado no exército, lhe perguntaram se era ele Arnaldo Schoenberg. E ele: «Saiba o meu sargento que ninguém o queria ser, alguém tinha de o ser, de maneira que sou eu.» Resposta que denota a um tempo sentido de humor e destemor: na tropa um sargento é um sujeito poderoso e pode transformar a vida de um recruta num inferno ainda pior do que o escatológico ou a mesma guerra. E também consciência do agro dos novos caminhos que a sua batuta abria à música, sobretudo quando comparados aos percorridos até então.
Seja como for, dificilmente representaríamos o bom Arnaldo estabelecendo um pacto em amena cavaqueira com o Diabo, vezo entranhadamente alemão, excepto que o nosso homem era vienense e judeu. Mas a música de Leverkuhn bebe no estridente dodecafonismo, e Schoenberg teria de concorrer forçosamente para esta história.
Adiante. Obviamente central é também a importância do mito de Fausto na cultura alemã, eminentemente romântica. Não esquecer que o tema de Fausto foi tratado logo no início do romantismo por Goethe, o pai do romantismo alemão (e também o maior expoente do classicismo, diga-se de passagem; é a grandeza goethiana: reunir e conciliar os contrários). Sabe-se que o romantismo alemão foi fundamental para o movimento que conduziu à unificação alemã, mas que também desembocou na Primeira Grande Guerra, cujos tratados finais pariram a Segunda. Para um espírito como Mann, burguês, liberal e conservador, nascido na velha Alemanha guilhermina, a Segunda Grande Guerra deve ter sido uma espécie de apocalipse, o fim da Alemanha e da sua cultura, pelo menos como fora praticada no século XIX e princípio do século XX: um cataclismo de proporções cósmicas.
Mas a ambiguidade reina neste romance: o diálogo de Adriano com o Diabo pode muito bem interpretar-se como o resultado de um delírio sifilítico, sem ao mesmo tempo deixar de ser revelador da profunda corrupção moral de Adriano e de uma Alemanha grávida do nazismo, uma nação que cortou radicalmente com os valores cristãos da sua identidade para tornar às eras de um paganismo primordial e mítico, profundamente alemão, resquício dos antigos povos germânicos anteriores à integração no universo romano, isto é: também na Igreja, instituição que prolongou no tempo tudo o que representou de civilizacional e comum o Império Romano.
Outro tema magistralmente tocado no Doutor Fausto é o aparente beco sem saída a que chegou a arte musical no fim do século XIX, sobretudo depois de Ricardo Wagner, que, juram os moderninhos, exauriu a linguagem da música romântica: daí terá vindo a necessidade do dodecafonismo e, depois deste, do serialismo da escola de Darmstadt. A modernidade, como permanente revolução que é, vai devorando os seus filhos, e o mesmo dodecafonismo ainda em vida de Schoenberg foi declarado caduco e obsoleto. Não se aguentou por aí além na vanguarda: afinal de contas, a coisa ainda se parecia muito com a música. Pois o grande problema do modernismo cifra em que a novidade tem de ser constante, e a mudança imparável. Parafraseando Chateaubriand: tudo na modernidade se apresenta mudado, excepto as modas, que mudam sempre. Mas ouçamos o nosso Leverkuhn: «É bem verdade que eu tinha uma cabeça boa, bastante ágil, e dons que misericordiosamente me haviam sido conferidos de cima. Poderia tê-los utilizado com honestidade e modéstia. Mas sentia com demasiada clareza: esta é a época em que já não é possível realizar uma obra de modo piedoso, correcto, com recursos decentes. A Arte deixou de ser exequível sem a ajuda do Diabo e sem fogos infernais sob a panela... Sim, sim, meus caros companheiros, certamente cabe aos nossos tempos a culpa de que a Arte estagna, que se tornou demasiado difícil e zomba de si mesma, que tudo se tornou demasiado difícil e a pobre criatura de Deus já não vê nenhuma saída, na sua miséria. Mas quem convidar o Diabo para a sua casa, para superar o impasse e irromper para fora, comprometerá a sua alma e tomará a carga da culpa dos tempos sobre a própria cabeça, de modo que acabará condenado. Ora, está escrito: “sede sóbrios e velai!” Mas nem todos conseguem fazê-lo. Ao contrário, ao invés de cuidarem sabiamente de tudo quanto for necessário na terra, a fim de que nela as coisas melhorem, e de contribuírem sisudamente para que entre os homens nasça uma ordem susceptível de propiciar à bela obra novamente um solo onde possa florescer e ao qual queira adaptar-se, os indivíduos frequentemente preferem faltar às aulas e entregam-se à embriaguez infernal. Assim sacrificam então as suas almas e terminam no podredouro» (p. 677 da Dom Quixote, 2010).
Repare-se: «… a Arte estagna, que se tornou demasiado difícil e zomba de si mesma…» Ora bem: se isto não define completamente na sua vacuidade a arte pós-moderna do mijadouro daquele artista francês, Marcel Duchamp de sua graça (ou falta dela), que postulou ser arte tudo quanto o artista declare arte, mijadouro incluído. Enfim, a loucura rematada, magistralmente exposta por Mann neste seu canto de cisne. Em última análise, o nosso autor considera a arte moderna, e principalmente a música moderna, como a obra do Diabo, ou pelo menos concebida com o seu adjutório; – e, ouvindo a Antena 2 da rádio depois da meia-noite, a gente fica tentada a concordar com ele.
Enfim, este livro, passível de várias, múltiplas e complexas interpretações, apesar de publicado em meados do século XX, e indiscutivelmente moderno até pela reflexão sobre a arte contemporânea, estará talvez mais próximo dos grandes romances oitocentistas do que do seu século, de Joyce, Virgínia Woolf ou até Proust. Quando Tomás Mann o publicou, já estava tão «fora de moda» (para o gosto da modernidade mais frenética) como as Quatro Últimas Canções de Ricardo Strauss ou como os concertos para piano e orquestra de Rachmaninov, obras também serôdias e publicadas por essa mesma altura. E sente-se que o seu intento é nada menos que fechar o círculo da cultura alemã, terminar o grandioso edifício do romantismo alemão iniciado por Goethe: ao Fausto deste responde o Doutor Fausto daquele.

Eis aí um romance na esteira dos grandes e maiores romances de sempre, e também um manifesto político e programático, filosófico e estético. Nele se representa que na arte alemã se atingiu um limite – o fim de um ciclo e de uma era – com a tragédia desencadeada pelo pecado da Alemanha no seu pacto com o Diabo, leia-se: nazismo.


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11 Maio 2013

Minuto 66


Entra Roderick, sai Gaitan. Percebi nesse momento que a coisa iria dar para o torto. Ainda que tenha de ser realista, o meu Benfica não joga para empatar um jogo que pode ganhar. Fechei o computador, levantei-me e liguei a televisão para ver o programa Mayday - desastres aéreos, desta feita sobre a misteriosa queda do voo da Air France em pleno Atlântico (ironicamente, numa companhia aérea profissional, a falta de um comandante naquela cabine foi a causa directa do desastre). Soube o resultado, via telemóvel, pela minha desalentada descendente mais velha. Mais um quase. 


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07 Maio 2013

E o apitador é...

a) - o ex-superdragão?
b) - o cantor pimba nas horas vagas?
c) - o faltinhas/interrompe-carrossel benfiquista?

Alea jacta est e o mundo não é composto de mudança!

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06 Maio 2013

Inadmissível !!!



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04 Maio 2013

Tolices no ensino

Ao que parece, vai ser pedido aos alunos que irão realizar o "exame" do 4º ano que assinem uma declaração de compromisso de honra em como não utilizarão telemóvel durante a realização dos mesmos.
 
Não bastando já a ideia absurda de deixar as criancinhas levar telemóveis para dentro duma sala de aulas e, ainda por cima, ligados, vem o Ministério da Educação (cujo ministro prezo) dar cobertura a tal aberração e, pior, regular juridicamente tal facto, fazendo-o com incapazes (latu sensu, deixando de lado a questão da imputabilidade em função da idade).
 
Mas o absurdo continua nos "representantes" dos pais que, em vez de agirem pedagogicamente (no sentido clássico do termo) e proibirem os filhos de levarem os aparelhos para a escola, ainda suportam a ideia da possível batota, recusando aquela assinatura, apoiando-se na incompreensão dos petizes na distinção entre o Bem e o Mal, o Certo e o Errado.
 
 A dupla bizarria só poderia acontecer num sistema educacional onde os exames são a brincar (basta que o professor dê positiva ao aluno para que este transite, independentemente da nota do dito) e no qual todos parecem brincar às experiências curriculares e de avaliação, sem qualquer preocupação com o real futuro daqueles que, vindouramente, serão o escol da identidade da Nação.
 
A jusante, todos reclamam do estado do país; a montante, ninguém se preocupa com a sua causa.
 
Merecem-se!

  
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02 Maio 2013

29 Abril 2013

A SATA chama-lhe bilhete-prémio


A estes preços, ainda vale a pena ser passageiro frequente? A interrogação é meramente retórica.




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23 Abril 2013

Chamem o pirómano, diz ele



         Sim, amigos: por espantoso que possa parecer ao espectador desprevenido, as putativas cabecinhas pensadoras das coortes gárrulas do PS continuam a exercitar a tal lógica do absurdo (passe o oximoro), aqui mencionada ainda há pouco, a propósito do mítico, mas não menos real, eterno retorno, ultimamente confirmado pela história recente do Portugal contemporâneo (cf. 08.04.13).
         Desta feita encarregou-se do sofisticado (nos dois sentidos do termo) exercício Carlos César, ci-devant presidente dos Açores. Para este fino estratego do PS, a saída «disto» está em o PS formar governo de salvação nacional com partidos que assumam compromissos com a tróica (cf. i de ontem, 22.04.13).
         Ou seja: depois de um governo de perdição nacional conduzido pelo PS durante uma boa dúzia dos últimos anos, deve seguir-se um governo de salvação nacional conduzido pelo PS, decerto durante uma boa dúzia dos anos próximos.
         Da bondade do raciocínio, da justeza da conclusão, e das mais que prováveis consequências da sua aplicação, julgará facilmente quem ainda saiba fazer contas de somar, ou não precise que lhe digam de que lado se barra o pão.   
         Que farei quando tudo arde? – perguntava o bom Sá.
         Nada mais fácil de responder, segundo César: chama-se o pirómano.
         Mas ave, César, os que vão pagar saúdam-te!
        

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14 Abril 2013

Vítor Gaspar - Um Passado que Pesa


Eu tenho alguma experiência de negociações a nível comunitário. Muitas vezes sentei-me em mesas de negociação entre os Estados-membros e a Comissão Europeia, onde eu trabalhava. Debatiam-se e negociavam-se os mais variados assuntos e cada documento acordado entre as partes era alvo de horas de negociação até à mais pequena vírgula. No fundo, o que se passava era cada representante dos Estados-membros a tentar retirar o melhor para o seu país e a Comissão a tentar encontrar uma posição que servisse a todos e aos superiores interesses da União.

Isto passava-se na Comissão, ou melhor do outro lado da Rue de la Loix, no Justus Lipsius, mas estou certo que em todas as outras instituições europeias, passa-se o mesmo. 

E isto vem a propósito de Vítor Gaspar. Parece que Gaspar não está nas reuniões europeias a tentar retirar o máximo possível para o seu país. Parece que que está alinhado com os interesses das instituições e não com o interesse da população portuguesa. Gaspar, como sabemos, foi Director-Geral da área de investigação do Banco Central Europeu e foi membro do Gabinete de Consultores Políticos da Comissão. Portanto, ele sabe que o papel dos representantes dos Estados-membros, seja a que nível for, é serem chatos e reclamarem sempre mais e melhor para os seus países. Ele não quererá fazer esses papel? Porque, de facto, entre os tecnocratas que trabalham nas instituições, como já foi o seu caso no passado, o melhor cenário seria os Estados-membros aceitarem as regras que eles acham serem as melhores, porque acham que conseguem ver um plano mais amplo e não apenas a visão circunscrita às fronteiras de cada país, como é o caso dos representantes dos Estados-membros, que é o que ele é neste momento. Na verdade, é uma complicação gerir todos estes interesses, ainda para mais numa União com cada vez mais países. E por isso é que são necessárias soluções, não podemos continuar mais no meio desta ponte. O avança-seu para o Federalismo ou então tem que se recuar. Mas enquanto o cenário for este que temos, o papel de Gaspar, por mais que ele não goste, é de lutar pelos interesses de Portugal, apenas e só, em cada proposta, em cada ponto, em cada frase.

E outra circunstância muito relevante que pude constatar no tempo que passei em Bruxelas é que os tecnocratas que trabalham nas instituições, regra geral, consideram os representantes dos Estados-membros um empecilho à sua tal visão mais abrangente, mas no fim de contas todos são naturais de algum país membro e alguns, de certas nacionalidades, colocam o interesse do seu país à frente do tal interesse superior da União. Isto acontece abertamente nos corredores de Bruxelas. Há inclusivamente países que têm uma rede oficiosa de todos os trabalhadores que estão nas instituições, que coordenam para retirarem o melhor para o respectivo país. Portugal nunca fez isso. Nem os Açores, já agora. E podiam.

Portanto, Vítor Gaspar tem que despir o fato de tecnocrata das instituições europeias e vestir de vez o fato de representante de Portugal. Se perder a consideração de alguns ex-colegas pelo caminho, pois que seja, porque, de facto, isso significaria uma mudança de posição relativamente a quase todos os assuntos fundamentais e até uma mudança ideológica. Gaspar ou está com o seu Estado-membro, ou está do lado das instituições. Enquanto não houver avanços a nível dos Tratados, não há meios-termos.

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Um bom Ponto no i


 
     
       E com efeito a mim também já me tinha ocorrido.
       Explico-me: estampa-se na 1.ª página do i  de 13/14.04.2013, a vera (é um modo de falar) efígie do pai da pátria com uma sua observação verdadeiramente fina e pertinente sobre as possíveis consequências «disto»: «Por muito menos que isto foi morto o rei D. Carlos», parece que aludindo ao seu colega actualmente em Belém.
        Sim, também já me ocorrera, mas com referência aos reais e directos responsáveis «disto»;convém a saber: a quem desgovernou na última boa dúzia de anos antes da«catástrofe» declarada; ou seja: ao famigerado engenheiro, agora reforçado de philosophe de la rive gauche, e comandita.
         2 + 2 = 4. Por enquanto.
         Mas, antes que alguém se lembrasse de se sair com a verdade – com o óbvio ululante, como não se cansava de repetir o grande Nelson, – este pai da pátria no activo antecipou o exercício desviando a farpa dos autores directos e imediatos «disto», e engatilhando-a, quando muito, aos meros comparsas ou cúmplices mais ou menos remotos.
          – É de «animal político» – comento com minha avó Georgina. 
          – Sim – obtempera a velha Senhora, – mas em todo caso mais do primeiro que do segundo. Porque, vamos e venhamos: há limites para o falseamento e mistificação. Ou devia haver.
         – Deve ser da idade – explica a boa Ilda. – A outros dá-lhes para apalpar meninas. Ou meninos. Tem-se visto…
          – De todo modo – continua a velha Senhora, com uma ponta de exaspero na voz, – sempre é triste ver a gente um sujeito com uma vida política quase tão longa como a de Salazar, senador emérito, quase chegado ao momento de entrar na história, e sem uma frase original, um dito memorável, uma síntese feliz, para legar à posteridade. Até Sampaio, que passou dez anos a compor laboriosamente sibilinos discursos com o prestimoso adminículo do Grande Dicionário das Banalidades, Asneiras e Lugares Comuns, teve artes de se sair com a frase: «Há vida para além do défice», que nem o estar errada e espancar a língua portuguesa lhe tira algum mérito. Pensar que o velho Churchill enche livros com frases avulsas, e o nosso decano dos decanos o mais que consegue é apresentar uma frase requentada de Afonso Costa, esse tetraneto de Robespierre!… É triste. É lúgubre. É pobre e paupérrimo. Os amigos que se cotizem para lhe desencantar um dito, uma ideia. O ancião merece…

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13 Abril 2013

7º Aniversário da "Máquina de Lavar"


Faz hoje exactamente 7 anos que decidi iniciar este blogue. Ainda em fase de testes e à procura de um título, inspirei-me no disco dos Sonic Youth, Washing Machine (ainda hoje um dos preferidos de sempre).
Depois destes 7 anos o balanço só pode ser positivo. Muito já se escreveu e se debateu aqui. Um especial agradecimento aos antigos colaboradores, Sérgio Santos e Luís Almeida e aos actuais o José Gonçalves, o Pedro Lopes e agora o Luíz de Mont'André. E, claro, um agradecimento ainda mais especial àqueles que nos visitam todos dias e aos que contribuem com os seus comentários.
A sociedade mudou muito nestes últimos 7 anos, como aliás as postagens deste blogue confirmam. Piorou. Espero estar aqui daqui a 7 anos a celebrar o 14º aniversário e a dizer que a sociedade melhorou.

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10 Abril 2013

As Inconstitucionalidades do Costume - Just Say Sim

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A semana política foi particularmente activa em Portugal. Os acontecimentos sucederam-se e, de um momento para o outro, muito mudou, e ainda vai mudar.
Após três meses, o Constitucional lá se pronunciou e declarou como inconstitucionais algumas das normas do Orçamento do Estado, alterando totalmente os planos que o Governo de Passos Coelho tinha.

Entre as normas que foram declaradas inconstitucionais, destaque evidente para os subsídios de férias dos funcionários públicos e pensionistas. Como resultado, no total, estima-se que a despesa do Estado aumente em cerca de 1300 milhões de euros.

Ora, esta decisão do Constitucional suscitou um sequência de acontecimentos um pouco precipitada. Desde logo o Governo reuniu de emergência, onde, segundo se sabe, Vítor Gaspar ameaçou abandonar o cargo e logo depois o Governo reuniu, também de emergência com o Presidente da República.

Como resultado, e no entanto, Vítor Gaspar não abandonou o Governo, mas ontem mesmo assinou um Despachou que proíbe todos os serviços do Estado de assumirem compromissos sem a sua autorização, até sexta-feira. Um Despacho que já fez correr muita tinta. Na prática, significa que todos os serviços públicos não podem adquirir qualquer bem de necessidade ao seu bom funcionamento. Esta posição de Vítor Gaspar segue a mesma linha que a declaração que Passos Coelho já tivera feito ao país, no seguimento da decisão do Tribunal Constitucional. Isto é, uma posição quase revanchista, do género, “não querem aceitar as nossas regras, então vão ver que a alternativa vai ser bem pior.” 

Tudo isto é muito difícil de analisar, pois se é verdade que o papel do Tribunal Constitucional é fazer valer as normas constantes na Constituição e, por isso, fez apenas o seu dever ao declarar inconstitucionais as tais propostas do Governo, porque efectivamente o eram, também é verdade que o Tribunal Constitucional não vive fechado no seu Palácio e dentro das páginas da Constituição. Não, os juízes do Tribunal Constitucional vivem neste país e sabem que Portugal está sob as regras externas dos nossos credores. Ou seja, a pergunta é legítima, poderia o Tribunal Constitucional abrir uma excepção e deixar passar normas inconstitucionais, uma vez que vivemos numa altura também ela excepcional e até inconstitucional ao sermos governados por entidades externas? A resposta, parece-me, tem que ser sim. Isto é, o papel do Tribunal Constitucional não é puramente legalista, é também político e as decisões que toma têm um cariz político, que extravasa a simples interpretação da Lei primária portuguesa.

Dito isto, e no entanto, na minha opinião o Tribunal Constitucional esteve bem. Declarou inconstitucionais as normas que realmente eram injustas, como é o caso de serem apenas os funcionários públicos a pagarem sempre a factura. E também esteve bem ao deixar passar a norma que obriga uma contribuição extraordinária aos pensionistas que têm boas reformas. Porque isto de usar a palavra pensionista e meter tudo no mesmo saco dá muito jeito. Mas a verdade é que se há pensionistas que ganham muito pouco, há muitos outros que também auferem pensões muito elevadas e que poderiam contribuir com mais alguma coisa neste momento de crise.

Mas adiante. Perante este aumento da despesa 1300 milhões de euros, que caminho se coloca ao Governo? Primeiro, Vítor Gaspar e o Governo não se podem sentir surpreendidos, uma vez que já no ano passado o Tribunal tinha declarado inconstitucional as mesmas normas. Ou seja, o Governo tinha que ter um plano B bem delineado e não reagir a quente, como se viu com o Despacho de Gaspar. O Governo tem que compreender que a população não vai aceitar mais cortes cegos e quase revanchistas, como é o caso. Nós sabemos que o Governo está na difícil posição de estar pressionado por cima pela troyka e por baixo pela população, por isso é que há o real risco de cair. Mas o Governo não pode é decidir e ceder contra a população, mas sim contra a troyka. O Governo tem que se virar é para a troyka e exigir melhores condições com juros mais baixos. Como disse o prémio Nobel, Krugman, Portugal só tinha era que dizer não à troyka. Não pela Constituição, que está ultrapassada, mas pelo bom senso que diz que esta população não aguenta mais cortes.

No meio de toda esta tormenta política em que o país se encontra e toda a discussão que vai continuar, Miguel Relvas escolheu o melhor timing para se demitir. Ninguém sequer fala nele. Melhor saída ele não podia desejar. Até parece coincidência.

Ah, e falta referir o ridículo. O prémio vai para António José Seguro que apresenta um pacote de soluções para o país com números bem concretos para o aumento da despesa e com magia para o aumento da receita. Um PS a sério fazia falta neste momento que Portugal atravessa e não esta sucessão de figuras tristes de António José Seguro.

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08 Abril 2013

O eterno retorno



 com a ajuda dos Conselheiros Acácios


 – Então, Cohen, diga-nos você, conte-nos cá… O empréstimo faz-se ou não se faz?
E acirrou a curiosidade, dizendo para todos os lados que aquela questão do empréstimo era grave. Uma operação tremenda, um verdadeiro episódio histórico!...
O Cohen colocou uma pitada de sal à beira do prato, e respondeu, com autoridade, que o empréstimo tinha de se realizar «absolutamente». Os empréstimos em Portugal constituíam hoje uma das fontes de receita, tão regular, tão indispensável, tão sabida como o imposto. A única ocupação mesmo dos ministérios era esta – «cobrar o imposto» e «fazer o empréstimo». E assim se havia de continuar…
Carlos não entendia de finanças: mas parecia-lhe que, desse modo, o país ia alegremente e lindamente para a bancarrota.
– Num galopezinho muito seguro e muito a direto – disse o Cohen, sorrindo. – Ah, sobre isso, ninguém tem ilusões, meu caro senhor. Nem os próprios ministros da Fazenda!... A bancarrota é inevitável: é como quem faz uma soma…
*
Os Maias, claro, livro sempre e cada vez mais actual em mais lugares.
Publicado em 1888.
E o país foi, mas só em 1892.
Outros tempos, mais lentos, mais remansosos, menos eficazes.
Sabe-se como agora é tudo mais acelerado e certeiro. E os conselheiros Acácios velam por que não haja mais delongas do que as estritamente necessárias.
Tempo é dinheiro.


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03 Abril 2013

Da Responsabilidade do Presidente da Câmara Municipal de Ponta Delgada

Na semana em que Ponta Delgada comemora os seus 467 anos sobre elevação a cidade, duas intervenções do Presidente da Câmara Municipal de Ponta Delgada, José Manuel Bolieiro, dignas de registo.
Primeiro, informou-nos que, apesar dos tempos de crise em que vivemos, onde há menos dinheiro para as autarquias, a Câmara Municipal de Ponta Delgada conseguiu o feito de não estar a dever absolutamente nada aos seus fornecedores. Como se sabe, este é um dado que muito poucas autarquias do país  e mesmo os governos regionais e nacional se podem orgulhar. Além disso, a Câmara de Ponta Delgada duplicou as transferências para as Juntas de Freguesia. Ora, isto significa uma gestão muito rigorosa do erário público municipal. É a prova acabada que é possível fazer mais mesmo tendo menos. Bolieiro está a gerir a Câmara Municipal de Ponta Delgada como nenhum político até hoje, nos Açores, geriu o bem público, com seriedade, criteriosamente e a pensar, acima de tudo, no superior interesse da população que está a servir e não a pensar em jogadas palacianas de politiquice pequena, que têm sempre como objectivo o interesse de quem está a governar. Bolieiro já demonstrou que é diferente. Acima de tudo, é sério, coisa rara nos dias que correm.
A segunda nota de registo é ainda mais sintomática sobre a forma de estar na política do Presidente da Câmara de Ponta Delgada. Bolieiro abordou o tema do Hotel Casino da Calheta, qualificando-o de uma vergonha, reclamando, ao mesmo tempo, e com urgência uma solução para aquilo que devia ser o Centro Comercial ao lado, dizendo que é preciso demolir e reutilizar aquele espaço.

E isto não é algo de somenos. Até agora, o Hotel Casino era como um elefante que estava na sala política dos Açores e nenhum dos partidos tinha coragem em falar do assunto, pela razão óbvia, que todos têm uma quota parte de culpa na construção daquele mamarracho em cimento que está ali plantado, inacabado. Todos têm a sua quota parte, mas uns têm mais culpas no cartório que outros. Na verdade, a construção do Hotel Casino foi licenciada pela própria Câmara Municipal de Ponta Delgada. Mas todo o restante e ainda obscuro processo de concessão de licença de jogo e de adjudicação àquele consórcio, que, na prática, é que saiu a ganhar com isso tudo, foi responsabilidade do Governo Regional, do Partido Socialista.
É que o consórcio que o Governo Regional contratou para construir e depois por a funcionar o Hotel Casino, a ASTA, teve um bónus que foi a exploração das Termas da Furnas, onde está localizada a "maior hidrópole de águas termais da Europa". Só que a ASTA, que  recebeu muitos milhões de dinheiro público do Governo, como sabemos, não fez nada com a Termas das Furnas, deixando, inclusivamente, várias pessoas no desemprego e deixando aquele belo espaço ao abandono. E, como Bolieiro agora referiu, deixaram aquela vergonha que é o Hotel Casino numa das zonas que poderia ter sido uma das mais bonitas de Ponta Delgada. Tínhamos ali condições para manter aque simpático um porto e a uma baía natural, de onde se poderia ter tirado enormes proveitos turísticos e fazendo à mesma a continuação da avenida. Mas não, o importante foi dar dinheiro ao consórcio privado para fazerem a obra de cimento e betão. Típico.
A verdade é que aquele monstro está ali plantado e certamente que do lado do governo regional não há vontade de fazer nada, mas do lado da Câmara de Ponta Delgada, há. Desde já, este sinal importantíssimo, que é o reconhecimento da vergonha que aquilo representa e necessidade de se encontrarem soluções, por parte do Presidente da maior autarquia dos Açores, José Bolieiro.

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01 Abril 2013

O Minotauro no Labirinto dos Círculos



Circundando O Delfim, de José Cardoso Pires


A coisa começa mal, ou melhor, não é tanto o livro, mas o prefácio, da autoria do saudoso EPC, intelectual mais largo que comprido, com o sugestivo título de «O círculo dos círculos»: doze páginas de prosa etérea, de que li as primeiras duas, e passei pressurosamente adiante. Fiquei cinco minutos a matutar no significado do exercício, não lhe palpei nenhum; mas, por volta do minuto seis, comecei a vislumbrar um tal ou qual sentido, uma série de tretas ao estilo do nosso saudoso Eduardo e daquele argumento muito cerrado – e também circular – com que se debatia Alonso Quijano, el bueno: as razões da sem-razão que à minha razão se fazem, obscurecem de tal maneira a minha razão, que com razão me acho para, etc., por aí fora, mas sempre deste teor.

Uma pequena amostra? Seja: «Numa linguagem mais técnica, poderíamos dizer que aquilo que costumamos considerar como as funções narrativas (momentos privilegiados em que qualquer coisa se decide, e em que a decisão tomada faz que nada volte a ser como dantes) está praticamente ausente da criação romanesca de Cardoso Pires, e o que fica são indícios, proliferação de elementos e factores que se articulam com «sinais de um mundo» que é preciso decifrar. O universo do autor, no seu jeito assumido de tapeçaria medieval, é um universo que definitivamente é e interminavelmente está a deixar de ser. Praticamente, todo o fazer nos surge secundarizado. Ou é um fazer que se adia, deslizando para o lado do jogo, como nos anjos eternamente ancorados do livro que a uma tal imagem vai buscar o seu título. Ou é um fazer que se converte ele mesmo em indício, isto é, em modalidade do ser (do ser que é na iminência de deixar de ser, do ser que é um deve ser).»

Hem?

Era o que eu dizia. Intelectual puro-sangue.

O tema precípuo do livro é o coitado, não por acaso representado pelo dito delfim do título, engenheiro de profissão e, a meu ver, mui justamente «adornado». O homem não dava a prometida e devida assistência conjugal em casa, passava os tempos livres nos bares da moda, bêbado e enrabichado com dançarinas frandunas e exóticas. Isto segundo o nosso autor. Vistas bem as coisa, temos portanto romance moral.

O narrador é o intelectual amigo da casa, ou seja, presumivelmente o autor lui-même, vagamente enfadado por não ter sido o eleito para minotaurizar o amigo na vez do criado mulato e maneta; e, não fosse este um romance moral, talvez a escolha recaísse no amigo. Realmente, que diabo! qual a dama que vai recrutar um criado mulato e maneta para amante, podendo beneficiar de um varão escorreito, ainda que intelectual? (Esperem: intelectual? «Um tipo que julga que há no mundo algo mais importante que o sexo», na definição de Aldous Huxley. E, sim, leitor cordato, afinal, talvez a escolha nem seja assim tão absurda…) Mas, para o escarmento ser exemplar, tinha de ser assim. Não que o nosso narrador houvesse pensado em enganar o delfim: sempre há a amizade, o pudor; afinal estamos no Portugal dos Anos Sessenta, mandava quem podia. Nota-se porém uma certa mágoa expressa pelo narrador depois de conhecido o fim da aventura.

A acção desenrola-se no presente, já depois dos acontecimentos trágicos, mas com grandes mergulhos pelo passado em que se vai contando o enredo propriamente dito. Esta técnico-táctica é vagamente irritante porque requer atenção aturada por parte do leitor, facilmente distraído pelos apartes intelectuais do narrador. Se a gente se não precata, já não sabe em que tempo está, o que torna o entrecho sobremaneira confuso. Afora este modernismo, que deve ter encantado os moços e as moças dos Anos Sessenta, rapazio que fez a fama deste romance, aliás muito exagerada, se querem a minha opinião. Percebo que a malta de então estivesse farta do romance e da disciplina tradicionais, de Salazar e dos respectivos papás e mamãs. Além do que, dizia eu, este romance trazia novidade formal cabonde, o assunto era razoavelmente escabroso para a época; e, por outro lado, as descrições da mulher do engenheiro, Maria das Mercês de sua graça, prometedora graça, são sugestivas em grau sumo, sumosas até. (E vamos e venhamos, leitor experiente e de vistas largas: com dona de tantas e tamanhas prendas e partes, Palma Bravo, se fosse um pouco menos engenheiro e um pouco mais filósofo, bem podia dizer, como já o discreto Tomé Pinheiro da Veiga, posto que no carrancudo século XVII, perante outra dona muito menos apessoada e favorecida, mutatis mutandis: «Antes aceitara ser cornudo, uma hora por outra, que viver toda a vida com a senhora fulana, de que Deus me livre» – Fastigimia, 1987, p. 147.)    

Como não podia deixar de ser, nos Anos Sessenta toda a gente era do contra; e o romance de José Cardoso Pires ensaia um ataque ao sistema patriarcal em que o país vivia. Nota-se ainda, aqui e ali, a invejazita do intelectual narrador ao macho dominante que o delfim representa. Parece que o tema do homem senhor de si era uma preocupação da década: haja vista, além da Cartilha do Marialva, ensaio do mesmo autor, outro romance emblemático daqueles anos: Angústia para o Jantar, de Luís de Sttau Monteiro. Quem muito se exalta, será rebaixado; por isso mesmo o nosso delfim é tratado da pior maneira possível: cornudo e bêbado, e cornudo da pior maneira, enganado pelo criado mulato e maneta. Ainda se este fosse um sujeito pequeno-burguês, sadio e escorreito, o caso orçaria pelo trivial; mas, tratando-se do criado, maneta e mulato, um tipo que em si congregava nada mais que desvantagens, parece-me que Pires traz de olho algo que transcende a normal e consuetudinária cornificação. É uma punição cósmica. Assoma aqui uma metáfora evidente: o nosso engenheiro Palma Bravo (nome que está desafiando a Némesis…) representa a velha ordem tradicional (e o regime que a mantém), ou ainda os que se propõem continuá-la; e o romance desemboca no agouro metafórico da destruição desse statu quo.

Enfim, parece que o criado tombou galhardamente no campo da honra, como quem diz: no tálamo do engenheiro com a consorte deste, fulminado por uma síncope cardíaca durante o acto propriamente dito por excelência; e a dita consorte (ou antes sem ela), recambiada à sua derrelicção existencial e angústia de ser-aí – Dasein (espero que esta não escapasse ao refinado EPC), lá se foi finar na Lagoa, qual Ofélia. Suicídio ou mão vingadora do delfim metamorfoseado em minotauro? Não se sabe. O autor não prima excessivamente pela clareza neste lance.

Certo, nada disto faz muito sentido, excepto num romance metafórico e moral, como estou que foi essa a intenção do seu autor. Os jovens da época hão-de ter adorado fazer a «leitura» do romance, descascar-lhe as camadas de significações ocultas, e discutir o assunto com os amigos, pelos cafés. (Por exemplo na Mexicana… Nos meus tempos do Técnico avistei por lá o saudoso EPC umas quantas vezes.)

Outra questão que se me afigura curiosa: a semelhança formal entre este romance e A Balada da Praia dos Cães, vinda a lume no início da década de oitenta, 16 ou 17 anos depois deste Delfim. Também na Balada aparece um sujeito superior que acaba mal, a técnica narrativa é a mesma, a descrição da boazona do romance, idem. Contudo, se bem me lembro (eu li a balada há mais de vinte anos), a intenção metafórica transparece menos explícita; ou melhor, se está explícita, eu na altura pelo menos não dei tento. Isto para dizer que o nosso autor não era dotado de excessiva imaginação. Consta até que era muito «esforçadinho».

Cardoso Pires ainda ia sendo um dos raros para quem a língua existe, atento aos seus modismos, subtilezas, mistérios e maravilhas, como diria Vasco Botelho de Amaral: por ex., tencionava empregar em título o idiomatismo coisíssima nenhuma, seduzido pelo singular da sua formação (um substantivo superlativizado) e expressividade – coisíssima nenhuma que, reconheçamos aqui entre nós francamente e de uma vez por todas, vem na melhor tradição do modernismo, se é que se pode falar de tradição a propósito de modernismos, o que se me afigura altamente duvidoso. Mas a parca cortou-lhe o fio antes do tempo. E, conquanto esteja longe de entrar no meu panteão de escritores dilectos, devemos inscrever no seu activo o dom de plasmar a feição psicológico e moral do Portugal de Sessenta: o Portugal algo reles e pelintra da unha comprida e modos embezerrados que via com ressentimento os ricos a gozar a vida. Avulta a descrição das popozudas e outras lascas, sempre uma por romance, a longa prática do mironismo impotente, típico do caixeiro do comércio e do escriturário das repartições, todo um mundo bem flagrado por este autor, uma ambiência cinzenta e triste, pelo menos para quem vivesse na grande cidade e carecesse dinheiro ou relações.

         Havia decerto outro mundo: o das pessoas normais e assentes, como por exemplo os meus maiores, que se casaram na década de sessenta, época de prosperidade crescente, e que conheceram os seus dias bons e maus, tendo e criando filhos, arredondando a fazenda, conversando amizades e conservando relações, e recreando-se o seu tanto: enfim, vivendo a vida habitualmente. Mas este mundo interessa mediocremente a escritores. Não escreveu o maior deles todos que «As famílias felizes parecem-se todas; as infelizes são-no cada uma à sua maneira»?


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27 Março 2013

O Regresso de Sócrates - O Desprezo Final


A indignação tomou conta de todos. José Sócrates, o vilão que trouxe Portugal ao estado de bancarrota e de verdadeira crise em que vivemos, vai regressar do seu exílio dourado em Paris para, imagine-se, ser comentador político no seu canal de televisão, a RTP, o canal público, pago por todos nós e que está no meio de um processo de reestruturação que prevê rescisões na ordem dos 28% no pessoal. Ou seja, enquanto uns são obrigados a sair da RTP, no caso, profissionais das mais variadas áreas técnicas da televisão, José Sócrates entra e pela porta principal. Desconhece-se se Sócrates vai receber honorários por esta sua nova função, mas tendo em conta aquilo que se pratica em Portugal, temos que pensar que sim, que vai receber um valor bastante considerável para comentar o estado político do país. Se pensarmos, por exemplo, que a privada TVI paga cerca de 10.000 por mês a Marcelo Rebelo de Sousa, temos que acreditar que Sócrates irá receber valor idêntico.

Mas o que vai Sócrates comentar? Lá que ele tem conhecimento de causa da nossa realidade, isso ninguém lhe tira. Ele sabe muito mais o que se passa no país político do que qualquer desempregado, ou pessoa que se esteja a preparar para emigrar para procurar melhores condições de vida, ou do que qualquer reformado que tem que reaprender a viver com os enormes cortes na sua pensão, ou do que qualquer funcionário público que viu o seu ordenado cortado. Todos esses comuns mortais têm mais em que pensar do que comentar a situação política actual. Esses comuns mortais têm que saber como sobreviver amanhã e nos dias seguintes. Têm que pensar como vão pagar as contas e como vão por comida na mesa. Todos estes comuns mortais estão a pagar a factura que exactamente o seu novo comentador político lhes deixou.

Esta vinda de José Sócrates para comentador da RTP é um insulto a todos os portugueses. Ultrapassa todos os limites de tudo o que se possa suportar. É a vitória final de tudo o que é mau e obscuro sobre os valores que gostávamos que assentasse a nossa sociedade, como honestidade ou mérito. Sócrates jamais foi honesto. Enganou-nos em tudo e até ao último minuto. E quanto a mérito, o único que Sócrates tem, é esta capacidade de enriquecer às nossas custas, às claras e ainda ter o despudor de comentar as desonestidades que cometeu, como se não fosse nada com ele.

É com ele sim! Sócrates desbaratou a dívida pública nacional e quando lhe rebentou na cara, fugiu, deixou o país na bancarrota e foi viver para Paris como um pequeno príncipe, não se sabe como. É que é humanamente impossível Sócrates ter tido dinheiro para viver em Paris como viveu. É impossível mesmo que ele tenha poupado todo o dinheiro que recebeu em todas as actividades que sabemos que desempenhou. Ou seja, a vida que Sócrates levou em Paris é, em si própria, a prova que ele foi corrupto, que ganhou muito mais dinheiro do que aquele que se suponha nas funções que o seu Currículo oficial apresenta. No seu desplante habitual, quando lhe perguntaram como tinha dinheiro para fazer aquela vida em Paris, Sócrates disse que a Mãe ajudava. Ele goza com todos portugueses.

E o pior de tudo isto é que, novamente, estamos a falar aqui de jogadas palacianas de politiquice. Obviamente que Miguel Relvas deu o aval para Sócrates ir comentar para a RTP. Os benefícios para o seu partido são fáceis de identificar, pois, como agora eu fiz, todos nós nos vamos recordar de todo o mal que Sócrates e o Partido Socialista fizeram ao país. Por outro lado, uma vez que ninguém dentro do actual PS faz frente a António José Seguro, o regresso de Sócrates significa um refortalecimento de toda aquela tralha socrática que andava órfã e aos caídos no Parlamento português. É vê-los agora todos revigorados e a darem entrevistas em tudo que é lado e pressionarem Seguro. Relvas ganha duas vezes, recorda a população do escroque que foi Sócrates e divide o Partido Socialista, quando as eleições autárquicas estão aí ao virar da esquina.

Mas não vale tudo em política. As pessoas conseguem ver estas jogadas, apesar do aperto constante em que vivem. Compreende-se, assim, quem, dentro dos Partidos que estão na coligação, o PSD e o CDS, há quem exija uma remodelação no governo.

Discordo de todo da máxima que os políticos são todos iguais, corruptos que só pensam em si. Não são. Mas há uns, como Sócrates e Relvas que são. E esses são a face oculta que domina este país e que tem que ser afastada a todo o custo.

O regresso de Sócrates para comentar a vida política do país seria cómico, se não fosse verdade. Mas é verdade e é triste.

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Uma paciência portuguesa



Assim a adjectivou já Camilo Castelo Branco para significar uma paciência de muita pachorra, muito pachola, enfim mui muito paciente (cf. A Senhora Rattazzi, preâmbulo). Parece que cada nação acaba por baptizar a qualidade, boa ou má, que melhor lhe quadra, ou de que vai dando mais mostras: pontualidade britânica, disciplina alemã, vaidade francesa, etc. E paciência portuguesa, sempre renovada e nunca desmentida.
Por exemplo:
O famigerado engenheiro, com uma ajudinha dos amigos e de mais alguns, que ele nem precisava, afundou os portugueses e as portuguesas (para empregar a consabida fórmula) pelo menos durante o tempo que resta de vida útil a metade deles.
Os ditos portugueses e portuguesas pagam a RTP.
A RTP, decorrido breve período de dois escassos anos de nojo (em mais de um sentido) sobre «a catástrofe» (como no título de Eça), paga ao engenheiro, agora com a sobrecarga de philosophe de la rive gauche, para explicar por a + b, sempre aos portuguesas e às portuguesas, como se deve e como se não deve fazer para sair disto, e para deixarem de ser insolúveis.
Este encadeamento sucede-se com a lógica e o rigor, não da tragédia (já agora não só grega), mas do chamado teatro do absurdo que grassou no pós-guerra, e reveste a perfeição de um soneto (sem emenda).
Mais consequentes e necessários do que os diálogos deste novo Sócrates, talvez só o teorema do velho Pitágoras, para não sairmos das referências à cultura trágica.
Por isso observou um discreto na última ceia conversável no sítio do costume: – Não se percebe nada do mundo moderno enquanto se não perceber que para triunfar nele pode ser necessário isto e aquilo, mas principalmente é indispensável não ter pingo de vergonha na cara.
– Sim. E, parafraseando a cantiga, prova de paciência maior não há – tornou outro.
  – Mas o povo é sereno – obtemperou um terceiro, lembrando o célebre dito.
 – Sereníssimo – concluiu o quarto, enquanto abria mais uma de Encostas do Trogão.
         E, quais três mosqueteiros, terminaram a ceia brindando à saúde do paciente. Que bem precisa.

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