07 maio 2009

O Poder do 4º Poder

Baseado em factos verídicos:

Numa pequena altercação num estabelecimento público, entre um funcionário e um utente, o funcionário portava-se de forma um pouco rude e até a roçar a falta de educação. A dada altura, o utente perde a paciência e ameaça chamar a … televisão. Logo tudo muda e num piscar de olhos, o funcionário desfaz-se em desculpas.

7 comentários:

Luís Almeida disse...

Vamos lá dramatizar ainda mais a situação, que acho excelente enquanto paradigma.

Imagina que o utente é o nosso 1º Ministro, e a televisão é a TVI... Xiii! E a repórter de serviço é a Manuela M Guedes... Xiii!

Grande peixeirada.

Voto Branco disse...

Caro Rui,
O 4.º poder não deveria servir para estes efeitos. Mas, eu sei, que por vezes é a única forma de contornar o poder da estupidez!
Eu discordo que façam esse tipo de "chantagem", pois existem outras formas de reclamar e exigir os seus direitos.
Infelizmente, já observei "in loco" a utilização desse expediente como uma forma de coacção sob o funcionário!
Saudações

Rui Rebelo Gamboa disse...

Concordo plenamente, caro Voto Branco.

Não haja dúvida que há certos funcionários que agem como se fossem os donos da bola (escusado será relambrar o que faz o puto dono da bola quando está a perder). No entanto, as coisas não se processam assim. Há instituições que existem exactamente para dirimir esse tipo de "altercação".

Mas, como diz o Luís Almeida, é um excelente paradigma da sociedade actual. O imediatismo da tv, em contraste com a (por vezes) revoltante velocidade que as ditas instituições funcionam, tornam a escolha, por vezes, óbvia.

Remete-me, a situação, para a natureza da comunicação social. Poderá ser conciliável o empresariado privado, orientado puramente para o lucro e, logo, imediato, com o dever de informação isenta, que exige tempo e investigação?

Por outro lado e à medida açoriana, como será possível a comunicação social ser independente quando depende de forma fatal do poder público? Estarão os jornalistas açorinos condionados por essa situação? Ou estarão simplesmente acomodados?

Questões que pairam há muito por aí.

Rui Rebelo Gamboa disse...

E entretanto, para quem gosta, o disco das Amps foi actualizado quase para a sua totalidade, na barra lateral.

Das novas, aconselho "Dedicated".

José Gonçalves disse...

Já fui confrontado, bastantes vezes, no exercício da minha actividade profissional, com a ameaça da amiga do senhor Robespierre, hoje, devidamente encarnada, no espírito popular, no 4º poder. Invariavelmente respondo que cada um é livre de fazer o que lhe aprouver, devendo, obviamente arcar com as responsabilidades decorrentes das opções efectuadas e dos actos praticados. Depois disso, continuo a aguardar tranquilamente a chegada de tais pessoas, devidamente acompanhadas pelos representantes do 4º poder, até ao presente.
Obviamente que o dito poder do 4º poder não existe para os efeitos que a singularidade e a eventual ingenuidade dos intervenientes na estória parecem crer. Naturalmente, presumo, os intervenientes, acabaram por se entender, através de um mediador ausente.

Correndo o risco do fuzilamento verborreico, aqui vai:
O 4º poder, no seu lado lúgubre e obscuro, é mais refinado nos usos e costumes.
No seu lado manipulador, apura factos temporariamente intransmissiveis, mas de cuja existência faz subtilmente alarde, com o fim último de amestrar. Aqueles que, fruto do medo, da cobardia ou da consciência pesada se deixam domar, conseguem entrar no circuito do esquecimento temporário, em troca da submissão. Aqueles que o remetem para o devido lugar, são e serão para sempre demonizados. Em Portugal, poder-se-à dar como exemplo a relação de ódio que estabeleceu com Alberto João Jardim, homem que percebeu perfeitamente as suas intenções e não só não se submeteu como, cereja no topo, conseguiu ser ele mesmo a manipular. E se há coisa que a arrogância intelectual do 4º poder não tolera é ser feita de parva (provavelmente a única coisa).

Por outro lado, na sua faceta manipulável, o 4º poder gosta de estabelecer relações promíscuas com os outros poderes, sempre em busca de algo que lhe permita entrar dentro desses mesmos poderes. É a atracção fatal pelas luzes da ribalta. Decoro, independência, Estatuto, tudo vai rapidamente para trás das costas, sobretudo se conseguir aliar-se à moda do momento no poder penetrado.
Por norma, os representantes destas faces do 4º poder (felizmente uma minoria) são facilmente identificáveis e são desenraízados face à nobre função que os deveria nortear nas suas acções. Mesmo assim, tornam-se perigosos porque o exercíco da sua função lhes permite funcionar como censores ou promotores de factos, ideias ou pessoas. Para eles há um deve e haver e tudo se resume a essa equação. Por exemplo, qual é a génese da popularização de determinados partidos políticos e Portugal ou de algumas figuras públicas, sejam políticos ou ligadas ao desporto? Basta recuar 20 anos e verificar os respectivos passos de crescimento.

Depois, há os restantes (a maioria), aqueles que acreditam no exercício sério e honesto da profissão e que a encaram como uma verdadeira paixão e vocação. Por norma passam despercebidos durante toda a sua carreira profissional e aqueles que conseguem escapar ao anonimato, rapidamente são ostracizados e vilipendiados publicamente pelos desenraízados profissionais.

Mas ao dizer estas coisas, sou apenas eu que sou estupidamente um pessimista social, um "vencido da vida".

loirices disse...

Nem sempre os fins justificam os meios.
Partindo deste princípio e existindo expedientes legais que obviassem a esta situação (e no caso refiro-me ao denominado livro amarelo/livro de reclamações), só em último caso o utente deveria "ameaçar" com a televisão. Apenas demonstra falta de paciência e pouca maturidade.
Em todos os casos convém dar o benefício da dúvida, não há desculpas para rudeza ou falta de educação.. mas várias são as vezes que as pessoas ouvem o que querem e não propriamente o que foi dito. Um pouco de bom senso é sempre aconselhável.

Pedro Lopes disse...

Bem, pouco há a acrescentar ao brilhante comentário do amigo José, e ao lúcido comentário da "Loirices".

O problema é que tal ameaça é cada vez mais recorrente, e por vezes a simples ameaça de chamar o 4º poder - que não deve servir para estas situações, pelo menos sem antes fazer um aturado trabalho de investigação sobre o caso -, faz encurtar muito caminho a quem a profere.
"Tudo isto é triste, tudo isto é fado."