05 setembro 2009

BlogConf do Partido Socialista

Aparte a consideração pessoal que tenho pelo deputado Ricardo Rodrigues, aparte considerar que este tipo de iniciativas são de louvar e deveriam existir regularmente, o que tornei público no acto e referi pessoalmente ao Alexandre Pascoal, que foi um bom anfitrião, aparte a atitude simpática e educada da maioria dos presentes, perante a necessidade de preenchimento de uma agenda política concreta, não deixa de ficar a reserva de que poderá ter existido a tentação ou, pior, a obrigação de tentar fazer passar uma imagem de modernidade, de proximidade e de abertura à liberdade de expressão junto de uma comunidade que, ainda não há muito tempo, foi publicamente vilipendiada por políticos com responsabilidades concretas.

Daí eu ter qualificado, ironicamente, os membros da blogosfera como "ratos", uma vez que, não sendo habitualmente vistos por ninguém, mas lidos por todos, desta vez houve a necessidade de os tirar do porão em feliz coincidência com o silenciamento de vozes incómodas nos meios de comunicação tradicionais.

Sem qualquer ofensa e sem dupla interpretação, cada um de nós percebeu o respectivo papel e foi livre de o representar.

Para o bem e para o mal, foram duas horas que corresponderam exactamente àquilo que esperava de um evento organizado em função de eleições próximas e condicionado pelas mesmas, não obstante Ricardo Rodrigues ter tido uma postura informal e frontal quanto baste para transmitir ideias pessoais, que ultrapassaram as amarras do discurso partidário, ainda que tenha resvalado várias vezes para chavões-tipo referentes aos adversários directos mais próprios do discurso-comício do que de um encontro desta natureza. Agruras de iniciação em novas realidades, perante um público-alvo diferente, cuja sensibilidade política está para além da política dos slogans.

Independentemente disso, o que é relevante é que a mesma permitiu que daí eu retirasse as ideias-chave, nas áreas concretas em que o questionei, que ele e o partido que representa defendem para o exercício da governação, caso vençam as eleições legislativas.

Dentro das regras mais ou menos flexíveis coloquei as seguintes questões (oralmente poderão ter sido outras as palavras):

1 - Caso o PS ganhe as eleições, num cenário de maioria relativa, como antevê a formação do Executivo? Um governo minoritário com acordos pontuais com cada uma das diferentes forças parlamentares ou existe uma preferência por um governo de coligação, até dada a amplitude de propostas suficientemente abstractas para poderem ser revistas e negociadas no âmbito do mesmo?

2.1 - Como articula a celeridade da Justiça, que presume o encurtamento de prazos processuais, com o reforço da eficácia na prevenção, investigação e punição do crime e, como é óbvio, como se sustentam estes aspectos na investigação de crimes mais complexos, designadamente com uma bandeira eleitoral como o combate à corrupção?

2.2 - Estão a ser consideradas como elementos-chave destes pressupostos alterações profundas no códigos processuais, designadamente, a diminuição dos articulados, fato essencial para que uma sentença possa ser o mais simples, sucinta e de "dimensão razoável"?

2.3 - A eventual modificação do princípio do juiz natural vai ou não acarretar a alteração da competência territorial?

2.4 - Qual é a proposta concreta para a protecção das vítimas de crimes?

2.5 - Há ou não um excesso de garantias dos arguidos face às vítimas de crimes?

2.6 - Face ao descontentamento generalizado com o Código de Processo Penal que tipo de alterações estão a ser ponderadas ?

2.7 - O "famigerado" artigo 30º do Código Penal vai ser alterado?


As respostas, algumas surpreendentemente interessantes, constam de um vídeo da conferência que aguardo seja disponibilizado para publicação aqui no blogue, como foi prometido.


P.S. - Não tem qualquer importância mas, para que fique esclarecido, fui eu que premonizei que Ricardo Rodrigues poderia ser o próximo ministro da Justiça, caso o PS vença as eleições, e não o Paulo Mendes (uma simpatia!) que, tendo brincado com o assunto na sequência da minha intervenção, foi metido inocentemente ao barulho.

9 comentários:

Rui disse...

A 'Máquina de Lavar' esteve muito bem representada na conferência que, diga-se, teve o problema de não ter uma participação mais representativa do espectro político regional.

Não é fácil, diga-se, quando a maioria dos bloggers dos Açores estão na "clandestinidade", no entanto também não me pareceu muito correcto ter tido lugar na sede de campanha do PS, por dois motivos:

- porque este tipo de encontro não deve servir para campanha e;

- para o próprio PS foi contraproducente, pois, como se sabe, os bloggers e quem frequenta os blogues são pessoas acima da média em termos de capacidade de filtrar e interpretar informação.

Esta Conferência chegou a poucas pessoas (aos bloggers açorianos) e aos que chegou, a conclusão que se tirou foi a mesma que eu: uso de uma acção que se quer construtiva e unificadora para campanha.

Quanto ao meu colega José Gonçalves, nem era preciso ler este post, nem tampouco ver o video, para saber que fez perguntas concretas, directas e sérias, reflexo da sua própria maneira de ser. Tenho a certeza que levantou as questões relativas àquilo que o importuna neste nosso país, tendo em conta os seus próprios valores e ideologia. No entanto, estou muito curioso para ver o vídeo e as respostas do Ricardo Rodrigues.

P.S.: quando li que o Paulo Mendes falou no "próximo Ministro da Justiça", vi logo que tinhas sido tu.

Pedro Lopes disse...

Caro José,

aqui a nossa "máquina" foi claramente bem representada com a tua presença nesta iniciativa. As tuas perguntas demonstram-no.

Iniciativas destas são de louvar, pois aproximam os cidadãos daqueles que potencialmente os vão representar , dando, assim, oportunidade aos eleitores de dissecarem os programas eleitorais dos partidos a votos, procurando esclarecer o que não está explicito, bem como aferir da sensibilidade dos futuros eleitos em relação às mais diferentes matérias.
Mas também partilho das tuas reticências no que toca à oportunidade desta iniciativa - só desfeitas se se repetirem de quando em vez, com vários intervenientes, e de diferentes sensibilidades -, pois só terão fundamento se houver oportunidade de confrontação regular entre os compromissos assumidos e os efectivamente realizados.

Aliás, esta confrontação directa aos candidatos, teria mais lógica e seria mais proveitosa, se se verificasse com os candidatos autárquicos (quer às Juntas de Freguesia, quer às Câmaras Municipais), tendo em conta que estes poderão assumir, de forma mais autónoma, compromissos e propostas perante os seus eleitores, e porque os cidadãos poderiam expressar directamente as suas preocupações e expectativas em relação ás suas localidades.

Mas, adiante. O Rui diz - e com razão -, que abrir estas conferências a mais autores de Blogs não será tarefa fácil por cá, pois muitos deles mantêm os seus espaços ao coberto do anonimato (o qual eu não condeno, desde que utilizado de forma séria e responsável), embora a vinda do Tibério Dinis pudesse ter aberto espaço a outros autores de Blogs de outras ilhas, e que se encontram perfeitamente identificados e contactáveis. (porém, desconheço se foram endereçados convites a outros bloguers de outras ilhas)

Parece-me que para ter mais impacto, esta BlogConf deveria ter sido transmitida em directo, evitando assim a filtragem que possa ocorrer (ou não?) antes da sua divulgação.

Eu não me considero um Bloguer - até porque as minhas prioridades e o tempo de que disponho não me permitem ser mais assíduo no que toca à escrita nesta “máquina”, nem tão-pouco o papel de “rato” é aquele que eu melhor desempenho. ;)
Considero-me, antes, um cidadão que aproveita as ferramentas que tem á sua disposição, para expressar as suas opiniões e devaneios, sem censuras e espartilhos. O que aqui escrevemos só nos implica a nós - autores dos posts -, e estes espaços permitem uma interacção com os outros, feita através dos comentários que nos deixam e que trocamos entre nós. Por isso, também considero esta uma forma de actuação cívica (não tanto de intervenção), se bem que com um impacto muito diminuto.

Pelas razões que os meus colegas de blog conhecem, não pude acompanhar de perto esta BlogConf, por isso aguardo a disponibilização do vídeo da mesma. O José já nos passou - através deste post -, a sua opinião da mesma, e eu tive um vislumbre do espaço e seus participantes através da peça do telejornal de hoje. Mas falta o conteúdo. E este, só mesmo lendo ou ouvindo o que foi perguntado pelos restantes convidados, e quais as respostas do candidato Ricardo Rodrigues.

Rui disse...

Bem, devo admitir que afinal esta iniciativa vai chegar a mais gente que apenas os bloggers, uma vez que a RTP foi chamada. I should have known better.

No entanto, devo dizer que estranhei a presença do Tibério Dinis. Pela simples razão que a informação que tinha, por via das conversas que aconteceram por ocasião do convite ao blog, diziam que esta conferência era apenas para micaelenses, ou bloggers sediados em S. Miguel.

Mas, a partir do momento que se abriu o precedente, convidando um blogger de outra ilha, porque não convidar os autores dos belíssimos blogues do Pico, ou de outras ilhas?

Também devo dizer que, dadas as perguntas que tenho visto que foram feitas, a reportagem do Telejornal poderia ter feito uma melhor escolha para aquilo que passou. Sendo uma tv pública, não deveria ir em busca do "sangue".

No mais, as minhas considerações do comentário anterior, mantêm-se. Pelo menos, até ver os resaultados oficiais e ver escritos mais completos, que não as mini-frases do Twitter, que, sinceramente, raramente consulto, porque simplesmente não tem qualquer interesse.

João Cunha disse...

Apesar de conhecer alguns dos participantes, e desejar sucesso em futuros eventos, este em particular foi de certo modo inoportuno.

Já tentei organizar um evento similar, o qual foi acusado de ter tido uma tendência uni-partidarizaria na representação dos blogs e convidados. Tal falta de consideração da organização só levou a que a mensagem que se pretendia transmitir se perdesse no meio da pequena política de mesquinhez que pontua a blogosfera.

Penso que o mesmo se passou com a blogconf, por muito que se tentasse transmitir uma mensagem positiva de participação cívica, o evento só deixou transparecer o elitismo e o oportunismo político que se "introduziram" na génese do evento.

José Gonçalves disse...

Caro "João Cunha"

Se acompanha este blogue, saberá que não costumo responder a comentários, muito menos de não identificáves. No entanto, caso não tenho percebido o meu texto, certamente por defeito meu na transmissão das ideias, lembro-lhe que ali ficou explícita a ideia de que cada participante sabia (ou deveria saber e, eu sabia-o)o que estava a fazer. Vale o que vale.
Creio que a conferência foi profícua, falando por mim.
A ideia, mais ou menos "popularucha", de que só ali participam intelectuais é uma falsa questão. No meu caso, a participação deu-se porque me interesso por estas questões mas se fosse futebol (que também me interessa)iria com o mesmo espírito.
Se considerar elitismo fazer perguntas a um candidato a deputado de um partido que é o respectivo porta-voz e especialista para a área em que foi questionado, pergunto-lhe o que é que deveria fazer ou o que é que eu iria ali fazer? Eu não estava ali para saber se ele gostava mais de gambas ou de peixe espada. Se assim fosse, isso sim, seria fazer um frete.

Agora uma coisa é certa, estou à espera, ao fim de 5 dias, que o Partido Socialista disponibilize o vídeo da conferência. Como diria o outro já lá vão 5 dias e 5 noites...

João Cunha disse...

Elitismo na selecção dos blogs participantes.

Ao criar um evento como a blogconf, recorrendo à presença física dos participantes, levou a uma certa alienação dos público alvo, ou seja acabou por ser uma conferência somente para os participantes.

O aspecto interactivo online foi secundário. Se realmente o objectivo passou por uma secção de esclarecimento entre um grupo selecto de bloggers e alguns representantes socialistas, então o objectivo foi cumprido... mais do que isso a blogconf não foi.

J.P
http://ouvidizer.net/

José Gonçalves disse...

Caro João Cunha

Desconheço os critérios utilizados para os convites e respectiva selecção. Nesse aspecto deverá questionar quem organizou o encontro. De igual modo, não sei qual seria o melhor modo de realizar a blogconf, uma vez que se está a dar os primeiros passos neste campo. No entanto,entendo a razão do seu desabafo, sobretudo depois de o ler no seu blogue.

Citando-o: " O foco é cada vez mais a televisão, o marketing, o spin que se pode imprimir a cada acção política. Politicas democráticas que põem cada vez mais ênfase nos media como instrumento de fomento da “opinião pública”."

Se tiver paciência de santo e ler os meus escritos, perceberá aquilo que não sou.

Disponha sempre

João Cunha disse...

Longe da minha intenção criticar pessoalmente os bloggers que foram à conferência, penso que tentaram cumprir os seus objectivos pessoais independentemente das limitações impostas pela organização.

Já agora, "seccção" de esclarecimento... eu devia estar xom os copos quando escrevi isso :)

Anónimo disse...

A "branca de neve" é o Ricardo Rodrigues, é isso que se deve depreender disso?!?