Algo frustrado por não ter conseguido adquirir um bilhete para assistir às Variações Goldeberg, no CCB, decidi deambular, ao acaso da saudade, pela cidade, acabando, especado e horrorizado, no meio da Avenida da Liberdade, perante o meu esquecimento e o que ali decorre anualmente no dia 25 de Abril.
Com efeito, lá estava a Avenida, urrando de dor por lhe estragarem o descanso semanal, tomada de assalto por uma turba que, aliada a mais uns quantos (desta vez ausentes), costuma intitular-se como sendo a legítima “defensora do espírito de Abril”.
Não querendo ser confundido, fui-me afastando tranquilamente em direcção ao Rossio, com o fim último de visitar as livrarias do Chiado, quando alguém me interpela e me fuzila com um olhar siberiano porque recusei, educadamente, um cravo do apartheid. Sorri para mim, perante a ironia de, naquele dia e numa avenida com aquele nome, os lídimos saudosistas de ideologias e práticas totalitárias se apropriarem e manifestarem em nome da Liberdade, bramando impropérios (certamente, em nome das liberdades) contra aqueles que não comungam das suas efabulações mitológicas.
Alexandre O´Neill disse, num desses dias do admirado PREC, que “ a revolução libertou-nos de uma mediocridade, o que não quer dizer que não estejamos a cair noutra ”, de certeza referindo-se àqueles que hoje julgam ser os donos de Abril e à sua tentativa de nos impor os amanhãs que cantam.
Esta gente nunca compreendeu, nem há-de compreender, que são a causa da indiferença a que actualmente a “ maioria silenciosa “ vota o 25 de Abril.
Esta gente ainda acalenta a esperança de um dia nos reduzir à Quinta da Igualdade.
Esta gente jamais aceitará que o 25 de Abril apenas se cumpriu em 25 de Novembro de 1975.
Certamente, para eles, eu deveria ser metido e fuzilado no Campo Pequeno, pelo crime de delito de opinião.
Obrigado, general Jaime Neves (entre outros), por ter contribuído para que eu possa escrever este artigo.