15 abril 2007

As Sacas da Vergonha

Hoje, aproveitando o sol que as nuvens deixavam passar, rumei, na companhia de alguns amigos, às Sete Cidades para uma tarde aprazível à beira das Lagoas.

Tudo correu de feição, até que, quando regressávamos a Ponta Delgada pela estrada que conduz à Covoada (mais dada a zonas de pastagens), começamos a reparar na quantidade de sacas de adubo e ração que povoavam a paisagem e, até, invadiam as estradas, contratando, tristemente, com os verdes da paisagem e com a bucólica imagem das vacas (elas não têm culpa) em pastoreio.

Logo me assaltou a pergunta: Nem com subsídios para recolha dos SEUS lixos, alguns lavradores cumprem a sua parte; a de evitar estes tristes cenários? É de uma boçalidade gritante.

Eu discordo, em absoluto, de subsídios deste cariz, pois parece-me que o lixo por nós produzido deve por nós ser recolhido e colocado em local próprio. É um dever cívico, e mostra civismo por parte de quem o faz.

Talvez a Secretaria do Ambiente, conhecedora da tacanhez de alguns criadores de gado, tenha visto nos subsídios, a única forma de combater estes atentados ambientais (com culpados conhecidos). A aposta na sensibilização e educação ambiental, tem de ser incutida desde tenra idade, pois parece que alguns não estão para aí virados, nem que para isso sejam pagos!!!

Se eu, que devia estar acostumado a este contraste paisagem/saca – pois nasci e vivo cá – continuo a não conseguir sentir-me indiferente ao facto, imagino que quem olha a paisagem com mais atenção, normalmente turistas, sinta que este desrespeito pela natureza seja obra de gente incivilizada e que não dá o devido valor à sua terra e natureza.

7 comentários:

Rui Gamboa disse...

Lembras-te, Lopes, que falamos aqui dessa medida e logo vimos que não era muito boa. É claro, que pontualmente poderá fazer com que reslute, mas estou certo que está revestida de burocracia, pelo que demove qualquer intenção. O melhor, como vimos, será combater de outra forma. Multas pesadas? Numa primeira fase, talvez. Mas a longo prazo, só pela educação. Mas a medida mais efectiva será o desprendimento da subserviência à classe dos lavradores, doa o que doer.

Para quê, então investir numa novela (onde não se fala micaelense e onde os açorianos são retratados como malcriados e "rurais" foi esse o termo lá usado) se depois há esses atentados?

Pedro Lopes disse...

Caro Rui,

é verdade que, desde a célebre revolta dos lavradores, existe um certo receio em afrontar esta classe.
Também me insurjo contra isso.

Vi, no nosso telejornal, o director regional do ambiente, alertar - e bem - para o facto de já haver legislação que pune, com coimas, quem deposita lixos em locais que não os indicados para o efeito.
Mas a lavoura tem direito a subsídio!?

Voltamos á tal questão que já mereceu um post teu, e que levanta a questão: pagar(para não deixar lixo) ou punir(quem deixa lixo espalhado)?

Para mim é claro: punir.....se não for lá com educação e sensibilização.

Rui Gamboa disse...

Educação, meu caro, é a solução, a longo prazo. Enqunto houver pessoas (e de um certo nível social) que dizem que não faz mal usar adubos, que estraguem as lagoas, porque podem desaparecer, que não faz mal, então não algo está mal. E o pior é que essas pessoas são novas...

Para estes multas pesadonas, para os seus descendentes, multas pesadonas, mas com educação a acopmanhar, para não terem essas "opiniões".

Pedro Lopes disse...

Meu caro amigo,

a questão da "novela dos Amores", não pode ser encarada como o "descobrimento" dos Açores.

Ou seja, o que quero dizer, é que os telespectadores de novelas - embora, muitos, de baixa cultura e escolarização - , sabem que estas têm um enredo, e que aquelas personagens são ficção. Como tal, não me parece que possam extrair desta ficção a essência do povo Açoreano, ou que as personagens espelhem os seus habitantes.

Também já se escreveu, por cá, que em termos turisticos - afinal o principal objectivo do tão falado subsidio governamental -, a publicidade se resume a uma residêncial barata, com problemas na camalização e com empregados muito mal preparados (para não os adjectivar de outra forma).

Mais, a ausência de actores de cá, e da nossa pronúncia, talvez ajude a não haver confusão entre a novela (e suas personagens) e as gentes de cá.

Quanto à ruralidade, ainda abunda por cá (maioritariamente), embora os últimos anos tenham trazido um toque cosmopolita. :)

Rui Gamboa disse...

Sou-te muito franco. Sinto-me atingido, quando vejo essa telenovela.

Eu não concordo contigo quando dizes que os espectadores desta novel não extraem a verdadeira essencia dos açoreanos. Penso que, pelo contrário, faz-se uma ligação imediata, ainda que incosciente. Eu próprio, quando vejo uma novela brasileira, reconheço uma identidade brasileira, da mesma forma quando vejo uma série de humor inglês, ou filme passado no Texas.

Penso que esta telonovela e todas as formas de ficção audiovisual, retratam, ou tentam retratar o lugar onde têm lugar, as pessoas que vivem nesse lugar. E, sinceramente, penso que os autores desta novela estão a tentar fazer isso mesmo, mas têm infelizmente, uma imagem errada, do que é ser-se açoreano. Veêm-nos como pessoas mal formadas e mal educadas, capazes de chamar assassino a um tipo que está a ser enterrado, em pleno cemitério, capazes de atirar ovos podres a um tipo na rua, por razão alguma, numa terra onde há assaltos à faca na rua à tarde.
Reconheces essa gente? Eu não, não são as pessoas com quem eu convivo, dia após dia.

Quanto à ruralidade. O problema foi a forma como foi usada a palavra, aliás essa palavra está conotada com má educação, com atraso, inclusivamente, com pessoas iletradas. Penso que, neste caso, foi dita para justificar porque uma certa personagem não servia, para namorar com outra ( só podia numa novela da TVI), foi algo como " Não deves andar com ela, porque ela é uma rural". A oposição entre "continetais" e "nativos da ilhas" é clara, quem disse isso é do continente e a pessoa de quem falavam era de São Miguel. Eu tiro essa conclusão...mas posso estar errado.

Isso chateia-me, pois como te digo, os autores estão a tentar retratar esta terra e este povo. A terra até estão a fazer um bom trabalho, mas os açorenos saem muito mal vistos...

Pedro Lopes disse...

Meu amigo, não és o único.

Já tenho ouvido vários comentários, de nossos concidadãos, que se mostram, à tua semelhança, bastante incomodados com a forma rude e grosseira como, dizem eles, se está a retratar os Açoreanos.

Eu, que pouco tenho visto, ainda não vi ou ouvi nada que me incomodasse particularmente. Mas vou ficar atento.....

Anónimo disse...

venho por este meio dizer que concordo pleinamente consigo, sou da ilha terceira e estou a completar o 3º. ano do curso técnico de gesão Atárquica, na minha ilha vê-se o mesmo os lavradores não têm respeitos pelos outros cidadãos da ilha pois deixam as suas sacas de ração/adubos por todo o lalo( nas bermas das estradas, ribeiras e caminhos agricolas) o que dá uma péssima imagem aos açores principalmente agora que vai entrar a epoca alta com a chegada de muitos turistas. E ao pesquisar para o meu projecto final de curso " Para a Natureza Protejer, Algo Vamos Fazer" que é um projecto que inside sobre a má gestão dos resíduos agricolas produzidos pelos agricultores.Encontrei a sua noticia e só tenho uma coisa a dizer-lhe são pessoas como nós que podem fazer algo para mudar as mentalidades

Tânia Rocha