A visita da Chanceler alemã, Angela Merkel, a Portugal no
começo da semana deve ser motivo de uma grande reflexão. Acho que estamos a
seguir por um caminho que poderá acabar em grandes e profundas divisões dentro
da Europa, que, eventualmente, poderão fazer renascer fantasmas belicosos
antigos.
A visita de Merkel é apenas um sinal, mais um, do total
despudor que impera actualmente na Europa. A senhora Merkel é que manda
efectivamente em nós. Ela deixou isso bem claro. Disse-nos, literalmente, que
temos nos vindo a portar muito bem, ou seja temos andado a executar as suas
ordens sem grandes desvios, pelo que vamos receber mais uma tranche do empréstimo
acordado com a troyka.
Da nossa parte, fizemos tudo para agradar a senhora Merkel,
não vá ela se zangar connosco e cortar-nos no empréstimo, que pagamos com
valentes juros. Foi recebida com toda a pompa e circunstância pelo Primeiro
Ministro e pelo Presidente da República. Ambos fizeram lembrar aqueles antigos
colegas de escola que se acotovelavam para darem graxa aos professores. Cavaco Silva
chegou ao cúmulo de fazer piadinhas, dizendo a Merkel que nunca tinha visto
tantos repórteres de imagem juntos, para demonstrar como estava impressionado
com a importância da senhora. Ainda mais grave era o ar de indiferença ou até
mesmo de frete com que Merkel lhes respondeu. Dom Afonso Henriques e todos os
seus digníssimos descendentes devem ter dado voltas no túmulo.
Mas se até se pode dar um desconto aos nossos governantes por
esta atitude subserviente, porque, a verdade é que Portugal precisa mesmo do
dinheiro da Sra. Merkel, pois o Eng. Sócrates, que vive à grande não se sabe
bem como em Paris, deixou o país em bancarrota, já atitude de alguma sociedade
civil foi deveras incompreensível. O Professor Marcelo lembrou-se de patrocinar
um vídeo para mostrar as nossas qualidades aos alemães. A ideia não é nova,
pois há uns meses fez-se um excelente vídeo para explicar aos finlandeses
alguma da nossa História. Só que o vídeo de Marcelo para os alemães foi
simplesmente um fiasco. Desde a produção ao nível de um projecto de uma turma
do ensino secundário, à mensagem que misturava a subserviência com alguma
chantagem emocional com os alemães (só faltou mesmo uma referência a Hilter). Foi mau, mau demais. E o responsável pela
produção, um spin doctor dado a derrotas valentes, ainda veio a público mentir
ao dizer que o vídeo não tinha sido aceite pela Alemanha. A Alemanha não
aceitou ou deixou de aceitar o vídeo. O vídeo era simplesmente mau e os canais
alemães não viram interesse na sua divulgação. Tão somente isso.
E são estas atitudes, subservientes e humilhantes por parte
da sociedade dirigente portuguesa, misturadas com a arrogância e desdém com que
Merkel nos tratou, que vai fazendo crescer um sentimento nacionalista não só
nos portugueses, mas em todos os países da periferia europeia, que estão sob o
jugo da austeridade alemã. É que a Alemanha é que está lucrando com os nossos
esforços. E é Goldman Sachs que está por trás de todo este processo de
empobrecimento de muitos para enriquecimento de muitos.
Agora, se a Europa de Merkel não recuar e se os nossos
dirigentes políticos mantiverem esta atitude subserviente e provinciana,
receio que o sentimento nacionalista comece a ganhar muita força dentro de
alguns países europeus. Se isso acontecer, acabar-se-ão os acordos e as
negociações e a primeira vítima será a própria União Europeia, seguindo-se um
cenário difícil de imaginar. Uma coisa é certa, este caminho da austeridade
alemã não vai acabar bem. Ou muda por si e a bem, ou vai ser mudado e a mal.