11 setembro 2006

Ilhas em colisão

A convite do mentor deste Blog, o Rui, aceitei o desafio de publicar, aqui, alguns posts sobre assuntos sem temática pré definida. Podem ser temas do meu interesse ou algo que me inquiete, podem também ser dúvidas ou pontos de vista sobre determinado assunto. Enfim, escrever aqui, nesta "máquina", sem outra intensão que não por gozo pessoal e amizade ao seu criador.

Agora acerca do título, "Ilhas em colisão". Não se trata de nenhuma referência a uma pertensa rivalidade - ou o que lhe queiramos chamar- entre micaelenses e terceirenses, trata-se antes de uma alusão ao programa lançado pelo Governo Regional denominado "Ilhas da Coesão", que pretende criar incentivos ao investimento, e consequente desenvolvimento, de Ilhas consideradas, pelo Governo, como enfermas ou pouco atraticvas ao turismo que, como sabemos, é o actual motor da nossa economia e uma aposta clara, e a meu ver bem, deste Governo.

Não me quero centrar nos pormenores do Programa que visa a coesão, seguramente com S. Miguel e Terceira, das Ilhas que constam deste Programa, quero antes deixar aqui a minha opinião acerca do que gosto e de como gostava que os meus Açores se "vendessem" ao turismo, evitando, assim, a colisão de 7 das nossas Ilhas.

Não creio que algum possivel leitor deste post discorde quando eu afirmo que S. Miguel e Terceira são as únicas duas ilhas, das nove que constituem este nosso Arquipélago, que possuem uma oferta diversificada e acesso a todos os bens e serviços de uma sociedade moderna ocidental.

Antes de me referir às Ilhas em colisão, quero deixar aqui escrito o quão desiludido fiquei com Ricardo Rodrigues. Passo a explicar: Ricardo Rodrigues fazia parte de uma Associação chamada, salvo erro, "Amigos das Lagoas", cuja bandeira era salvar as Lagoas de S. Miguel da eutrifização que as ameaçava, e continua a ameaçar, de se transformarem em pântanos. Nessa altura foi criada a Secretaria Regional do Ambiente e foi-lhe oferecido o lugar de Secretário Regional do Ambiente. Se não pensaram todos, pensei eu; "o Governo assume o problema das Lagoas e a sua importância para os locais e para o turismo (cujo postal principal são as Lagoas das Sete cidades) e chamou uma pessoa empenhada e capaz para resolver este problema". Pois, passados estes anos, o problema presiste e a pessoa em quem eu confiava, e pelos vistos o Governo Regional também, para resolver o problema encontra-se agora na Assembleia da Républica, em Lisboa, a tratar de problemas da Républica (não questiono a real importância), depois de ter, ainda, passado por outra secretaria regional. Pois é, as Sete Cidades, o postal dos Açores, qualquer dia desilude quem nos visita impelido pela imagem da mágica natureza daquele verde vale.

Em tom de sarcásmo digo: ainda bem que CE nos impôs uma cota leiteira pois, caso contrário, continuariamos a ser uma Ilha Verde, mas sem árvores e com um milhão de vacas.

Em relação a Santa Maria, Graciosa, São Jorge, Pico, Faial, Flores e Corvo penso que têm todas encantos únicos, paisagem de sonho, uma naturaza rica e luxuriante, gentes prestáveis e de bem receber, em suma têm tudo para merecer uma visita, para proporcionar a quem procura paz, mar e o cheiro da paisagem uma experiênca relaxante e revigorante, por isso há lugar para elas nos programas turisticos. Temos é de vender aquilo que temos a quem procura, e claro que há mercado para a nossa oferta, temos de identificá-lo e promover-nos, convenientemente, juntos deles.
O Governo começa agora, na minha opinião tarde, a assumir a necessidade de criar incentivos ao investimento na oferta de estruturas e serviços na área da oferta aos potenciais turistas destas sete ilhas. Mas penso que esqueçe, de propósito, que o real problema da falta de visitantes a estas ilhas se prende com o exageradíssimo preço das passagens aéreas, quer inter ilhas quer com o continente. Para as agências de viagens, vender um programa para os Açores que inclua várias ilhas saí muito caro o que afasta os clientes e os remete para, por exemplo a Madeira ou Canárias. Não posso deixar de lamentar, que o desastre dos últimos anos das ligações maritimas de passageiros inter ilhas seja, também, responsável, por um déficite de visitantes a estas ilhas.

O que eu gosto nas nossas ilhas, e que já referi acima, é o que eu quero "vender" aos que nos visitam. O que eu sinto falta enquanto visito as minhas Ilhas, e creio sentirão falta quem as visita, é a falta de sinalização e indicação de pontos de interesse ou a merecer uma visita. Os caminhos também carecem de melhorias, quer a nível do pavimento quer a nível dos arranjos das bermas e canteiros. Informações sobre o local, sua história e manifestações da cultura local, são também falhas que encontro. Podiam ser criadas, por exemplo, núcleos etnográficos, e aí não esperem pelo Governo, que os desenvolvam as forças locais. Miradouros e parques naturais bem conservados e com estruturas e pontos de interesse também me parecem em falta. Os acessos a praias e zonas balneares também são descurados e deveriam ser criados mais espaços deste tipo. Temos o mar como companheiro eterno, desfrutemos dele e respeitemo-lo. Nas nossas costas ainda abunda o lixo, deitado pelos nossos concidadãos, são uma visão horrível para quem chega pelo mar. Também sinto falta de poder tomar um café ou beber uma cerveja num Bar aprazível, junto ao mar a observar um pôr do sol ou, até, a chuva a cair. Carecemos de alguma qualidade e civismo. Vamos promovê-lo para que nós, e quem nos visita, se sentiam num verdadeiro paraíso natural, em comunhão com a paisagem e os seus cheiros. Temos peixe fresco e uma óptima gastronomia, vamos dá-la a provar.

Quem procura a comunhão com a natureza, aquilo que temos de melhor para oferecer, exige qualidade nas infraestruturas, no serviço e na segurança e civismo. A paisagem não basta, temos de preservar as tradições e dar a conhecer a nossa cultura e riqueza marinha. Temos de receber bem e informar, temos de criar espaços para que os visitantes parem, olhem, escutem e respirem fundo, sentindo vontade de voltar para sentir essa paz. Há muitas coisas que podem, e devem, ser feitas pelas forças locais e pelo poder autárquico. O facto de sermos nove Ilhas faz com que quem nos visita tenha, provávelmente, de voltar, para nos conhecer a todas. Se gostar, volta.

Creio que temos condições para ter um turismo selectivo e que ofereça qualidade. Talvez assim possámos evitar a colisão das frágeis economias das nossas Ilhas.

P.S.- foi noticiado que há negociações para se desenvolver um projecto que visa a autosuficiência energética de uma das pequenas ilhas do arquipélago, ou Graciosa ou Flores, com energias alternativas. Aplaudo e defendo a promoção de tal projecto em outras ilhas, pelo ambiente e pela economia.

3 comentários:

PP disse...

Devo aqui esclarecer que as Ilhas do Faial e do Pico não integram o Programa "Ilhas da Coesão". Parece-me claro que o Faial tem alguma vantagem em relação às restantes cinco, muito por culpa de uma ligação directa com o continente, pela sua marina e por ter a sede da nossa Assembleia Legislativa,mas a não inclusão do Pico parece-me injusta. Será que o novo aerodromo é o suficiente?

Em relação ao meu post, "Ilhas em Colisão", gostaria de dizer que teve como base o meu (considero) profundo conhecimento dos Açores, das suas 9 Ilhas, e de uma noticia que ouvi na rádio, que apresentava estatísticas sobre as taxas de natalidade e mortalidade das nossas ilhas. Daí se concluía que a mortalidade foi, pelo menos em 2005, superior à natalidade, o que deixa adivinhar um progressivo envelhecimento da população e uma concentração de habitantes de outras ilhas em S. Miguel e Terceira.
Há que criar incentivos para fixar os jovens nas suas ilhas. Penso que o programa do Governo visa isso mesmo. Veremos se há bons executores para o porem em prática. Assim espero, pelo bem dos Açores.

Cumprimentos

Rui Gamboa disse...

Antes de mais: Bemvindo!

Quanto ao teu post, devo dizer que concordo com quase tudo, digo quase porque acho que o Pico está a desenvolver-se mais depressa que o Faial e qualquer dia ultrapassa-o, mesmo. Dizem-me, alguns jovens faialenses, que por lá os interesses estão instalados - veja-se o Peter - também devido à própria ALR.

Quanto ao resto, me caro, devo dizer que para 1º post não poderia ter sido mais relevante, isto porque - tal como disseste - o turismo tem que ser a 'cornerstone' da nossa economia.

Eu também fiquei algo desencantado com R.Rodrigues, penso que havia uma ambição política, que é normal, mas que estava dissimulada. E ele está na AR ao serviço não da Republica, mas sim dos açorianos que votaram nele, ele representa-nos na Republica, isso sim. (já agora não era o SOS Lagoas, ou isso era outra coisa?)

Como sabemos o facto de sermos 9 ilhas coloca-nos em desvanatagem em relação, por exemplo à Madeira, mas em vez de minimizarmos essa desvantagem, fazemos pior. Falas no preço das tarifas aéreas, eu falo-te na situação caricata do transporte marítimo inter-ilhas, que podia ser uma alternativa.

Mais, penso que a questão do preço das passagens aéreas é ideológica; senão vejamos o argumento de ter apenas uma tranportadora apioada pelo governo é que ela faz um serviço público, não permitindo, assim, que outras companhias possam entrar em competição, baixando os preços (lei da oferta e da procura).

Falaste, mais uma vez bem, no facto de nós próprios micaelenses, muitas vezes não sabermos encontrar as verdadeiras reliquias naturais. É um problema real, nós conhecemos as cascatas da ribeira que passa na Fazenda do Nordeste, mas será que a maioria dos micaelenses a conhece, e os turistas? E este é só UM exemplo.

A verdade, meu caro PP, é que temos uma qualidade acima da média, quem nos visita e conhece as Furnas ou as 7 Cidades em tours empacotados parando apenas 2 vezes antes de chegar ao destino, ainda assim fica deliciado, mesmo vendo as lagoas como estão. E aqui tenho que realçar esta tua expressão

"ainda bem que CE nos impôs uma cota leiteira pois, caso contrário, continuariamos a ser uma Ilha Verde, mas sem árvores e com um milhão de vacas." nem mais!

A falta de civismo da nossa população é também inquietante A forma como o lixo é atirado em qualquer lugar é confrangedor. Eu vivendo numa zona que de Verão está cheissíma, sinto-me na obrigação de sair ao fim da tarde e juntar o lixo que os nossos concidadãos deixam. O mar, e a natureza devolvem tudo.

Tenho também que referir que o facto do investimento estar a ser, na sua maioria, em camas é um problema. A ligação promíscua entre a construção cívil e as autiridades leva a isso. Há, também, que investir no turismo em tempo de Inverno.

Keep posting, man, and spead the word!

PP disse...

Pois é meu caro, cá estou!
Tens alguma razão quando afirmas, ainda mais ao abrigo de opiniões de Faialenses, que no Faial há interesses instalados. Seguramente estagnaram por se acomodarem e não darem espaço a grandes "mudanças". Talvez por isso não fosse má ideia dar um abanão no Faial, nem que seja a nível psicológico colocando-a no lote das Ilhas a necessitar de coesão. No Pico há mais iniciativa privada, sem dúvida.

Quanto a RR, sim, a associação denominava-se "S.O.S Lagoas"; não encontraria nome mais ajustado!!! E claro que RR foi eleito pelas listas regionais á assembleia da Républica, o que torna implicito que zele pelos interesses da Região, embora no texto do meu post a expressão "interesses da Répública" conduza a uma imagem de distânciamento em relação aos Açores.
Sabes Rui, vejo o facto de sermos 9 Ilhas como uma vantagem (no turismo), pois, como referi, quem gostar volta para conhecer outras. Temos nove pérolas, cada uma com a sua particularidade e encanto.

Quanto a transportes, estamos conversados, ou seja, mal servidos....infelizmente.

Assim como o exemplo que deste (das cascatas da fazenda) muitos outros sítios há que estão fora dos roteiros turisticos, e que possuem uma beleza ímpar. Os tours de autocarro já provoca "falta de ar" a muitos visitantes, mas quem se embrenha no nosso verde leva uma experiência muito mais rica, algo que as fotos não trasmitem.

Temos de valorizar mais o que temos...que mais não seja pela importância económica do turismo. Turismo não rima com lixo e com falta de cívismo.

Também concordo quando afirmas que o investimento em camas tem de parar. Pelo menos no que se refere a Hóteis. E quando falas em inverno, eu reforço, dizendo que nos Hóteis que temos, que posso designar como normais, não há nada para fazer em dias de chuva, pelo menos nada que não se faça em qualquer hotel em qualquer parte do mundo.
O nosso turismo, a meu ver, rima com ruralidade, com resorts inceridos em jardins ou com alguns animais. Alojamento com locais abrigados para se ler um livro ouvindo a chuva e olhando a paisagem. Tomar um chá, comer uma compota regional ou ver um artesão trabalhar em ambiente decorado com objectos da nossa cultura. Com tanto mar e tanta costa, já repararam na quantidade de novos hóteis que estão "trancados" no meio de Ponta Delgada, com o barulho e cheiros urbano. Não, não houve quem pensasse antecipadamente nestas questões. O Governo limitou-se a financiar todas as camas que apareceram em projecto. Enfim muito há a dizer...ou escrever!

Ciao