17 abril 2008

Internacionalização da Amazónia

A questão da internaiconalização da Amazónia é deveras pertinente. Se o Brasil não pode ou não consegue evitar que se continue a destruir aquela floresta, como é que a comunidade internacional pode intervir, uma vez que a Amazónia é património de toda humanidade e a sua destruição tem impacto directo sobre toda comunidade internacional? Evidentemente, este é assunto tabú para o Governo brasileiro, em qualquer tipo de fórum internacional, por isso mesmo o seguinte discurso do ex-Ministro da Educação brasileiro Cristovam Buarque foi censurado.
Buarque participava num Congresso numa Universidade norte-americana, quando um jovem fez-lhe a pergunta, especificando que queria a resposta do humanista e não do brasileiro.

"'De facto, como brasileiro eu simplesmente falaria contra a internacionalização da Amazónia. Por mais que nossos governos não tenham o devido cuidado com esse património, ele é nosso.
Como humanista, sentindo o risco da degradação ambiental que sofre a Amazónia, posso imaginar a sua internacionalização, como também a de tudo o mais que tem importância para a humanidade.
Se a Amazónia, sob uma ética humanista, deve ser internacionalizada, internacionalizemos também as reservas de petróleo do mundo inteiro... O petróleo é tão importante para o bem-estar da humanidade quanto a Amazónia para o nosso futuro. Apesar disso, os donos das reservas sentem-se no direito de aumentar ou diminuir a extracção de petróleo e subir ou não seu preço.
Da mesma forma, o capital financeiro dos países ricos deveria ser internacionalizado. Se a Amazónia é uma reserva para todos os seres humanos, ela não pode ser queimada pela vontade de um dono ou de um país.
Queimar a Amazónia é tão grave quanto o desemprego provocado pelas decisões arbitrárias dos especuladores globais. Não podemos deixar que as reservas financeiras sirvam para queimar países inteiros na volúpia da especulação.
Antes mesmo da Amazónia, eu gostaria de ver a internacionalização de todos os grandes museus do mundo. O Louvre não deve pertencer apenas à França. Cada museu do mundo é guardião das mais belas peças produzidas pelo génio humano. Não se pode deixar esse património cultural, como o património natural Amazónico, seja manipulado e destruído pelo gosto de um proprietário ou de um país.
Não faz muito tempo, um milionário japonês, decidiu enterrar com ele, um quadro de um grande mestre. Antes disso, aquele quadro deveria ter sido internacionalizado.
Durante este encontro, as Nações Unidas estão realizando o Fórum do Milénio, mas alguns presidentes de países tiveram dificuldades em comparecer por constrangimentos na fronteira dos EUA. Por isso, eu acho que Nova York, como sede das Nações Unidas, deve ser internacionalizada. Pelo menos Manhattan deveria pertencer a toda a humanidade. Assim como Paris, Veneza, Roma, Londres, Rio de Janeiro, Brasília, Recife, cada cidade, com sua beleza específica, sua história do Mundo, deveria pertencer ao mundo inteiro.
Se os EUA querem internacionalizar a Amazónia, pelo risco de deixá-la nas mãos de brasileiros, internacionalizemos também todos os arsenais nucleares dos EUA. Até porque eles já demonstraram que são capazes de usar essas armas, provocando uma destruição milhares de vezes maior do que as lamentáveis queimadas feitas nas florestas do Brasil.
Nos seus debates, os actuais candidatos à presidência dos EUA têm defendido a ideia de internacionalizar as reservas florestais do mundo em troca da dívida. Comecemos usando essa dívida para garantir que cada criança do Mundo tenha possibilidade de comer e de ir à escola.
Internacionalizemos as crianças tratando-as, todas elas, não importando o país onde nasceram, como património que merece cuidados do mundo inteiro. Ainda mais do que merece a Amazónia. Quando os dirigentes tratarem as crianças pobres do mundo como um património da Humanidade, eles não deixarão que elas trabalhem quando deveriam estudar, que morram quando deveriam viver.
Como humanista, aceito defender a internacionalização do mundo. Mas, enquanto o mundo me tratar como brasileiro, lutarei para que a Amazónia seja nossa. Só nossa!"
(não tenho informação da data exacta deste discurso, mas pela referência ao Fórum do Milénio, diria que é de 2000)

6 comentários:

pedro lopes disse...

Grande resposta, esta do humanista Cristovam Buarque.

....mesmo assim, esta resposta também é válida enquanto defesa da posição do Brasil neste processo, pois a abertura deste precedente, pode arrastar tantos outros (como demonstra a resposta), igualmente justificáveis.

Mas a Amazónia continua sendo destruída, e isto é que é verdadeiramente dramático.

A Estrada do Pacifico, que atravessa a Amazónia em direcção ao Perú e ao Ocenao Pacifico, vai decerto acelerar este processo.

Com melhores vias de comunicação, aquela área passará a ser mais povoada, e estes processos só servirão para justificar o continuo abate de árvores, e facilitar o acesso a zonas anteriormente inacessíveis. Será mais dificil travar esta destruição, por muito que nos custe.

Se a Internacionalização da Amazónia resolveria esta dramática situação? Ajudaria, certamente.

Será justo pedir isto ao Brasil?
Sim, se outras situações forem contempladas, num esforço global de combate às alterações climatéricas,e prevendo as devidas compemsações por esta(s) perda(s).

A solução no que toca à diminuição do abate descontrolado de Àrvores no Mundo, terá de passar pela substituição da madeira em utilizações tais como, na construção de casas e de móveis. Se não houver mercado, os madeireiros deixam as Àrvores crescer em paz.........ou seja, acabamos todos por dar um pequeno contributo.

Como em quase todos os males, o Capital tem aqui um papel preponderante.

Rui Gamboa disse...

Internacionalizar tudo (que diz respeito à humanidade em geral) é um projecto antigo, já Kant o idealizou na Paz Perpétua e antes dele outro autores.

Em relação à Amazónia, se tivesse num país débil em termos internacionais, seria menos complicado. Mas, como tentei demonstrar no post anterior, o Brasil é cada vez um actor com grande peso na cena interacional (mais dia, menos dia, têm lugar no Conselho de Segurança da ONU).

Agora, tu tocas num ponto essencial; de facto, cada um pode fazer um pouco em relação ao problema. O uso de madeiras exóticas em mobilário (principalmente) e em tudo o resto e o uso de madeiras simplesmente é por conta do "Ocidente", principalmente (a China e India começam tb a ter um peso cada vez maior), por isso se a procura baixar, a oferta ressente-se.

Só um parentesis em relação ao Conselho de Segurança da ONU; não faz qualquer sentido que a EUropa esteja representada dividida (França, Inglaterra): No entanto, aquele Conselho não reflecte o actual quadro de forças das relações internacionais.

O Capital? Andas a ler Marx?? Vê lá, tem cuidado que aquilo é perigoso. ;)

pedro lopes disse...

Não, não, meu amigo, nunca me deixei seduzir por esse comunista. Li-o, e conheço o seu Livro "o Capital", por ser obrigatória em cadeiras de economia. Já Kant, encanta-me um pouco mais, pela sua "moralidade" e "representações sociais".

embora eu saiba que só procuraste a provocação, eu referi-me ao "capital" numa óptica de oferta vs procura. No facto do aumento da procura de madeira, suscitar um aumente dos abates e, com a crescente escassez de algumas espécies, subirem os seus preços, o que provoca um aumenta do interesse dos madeireiros em procurar essas matérias primas que mais lhes rendem..........neste caso, dizimando em poucos minutos, árvores que demoraram décadas, qd não mesmo centenas de anos, a crescer.

Podemos apostar em materiais sintéticos em lugar de materiais naturais, cuja regeneração ou crescimento, não se faça ao mesmo ritmo da procura.
Já há materiais para revestimento de chão que são fabricados e que imitam, de maneira já bastante realista (sem ser "ao toque"), a madeira, por exemplo.

No caso do Brasil, com esta decoberta do que já se pensa ser o 5º maior campo petrolifero alguma vez descoberto no Mundo, transforma-se no 8º produtor mundial o que ainda fortalece mais a sua posição na cena internacional.

Não se avizinha tarefa fácil, esta de travar a desflorestação do "pulmão do mundo"...............e, não esquecer o cancro que é, a tal "Estrada do Pacifico" ou "carretera transoceânica" na versão peruana.

Rui Gamboa disse...

A principal razão para o abatimento de árvores da Amazónia é, no entantp, para abrir caminho para as plantações de soja e para o gado. A par, evidentemente, da industria madeireira toda.

Fragmentadora de Papel disse...

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naldo disse...

Excelente resposta a todos aqueles que querem a nossa Amazônia. Os EUA financiaram boa parte do seu desenvolvimento destruindo sua floresta, por que querem agora interferir no que é nosso por direito? Os EUA não assinaram o protocolo de Kioto. Por que não? O Brasil não vai servir de trouxa para outro país. É claro que devemos cuidar da Amazônia, evitar a biopirataria, sim, porque muitos estão ali por esse motivo, explorá-la conscientemente também. Mais não devemos deixar ninguém interferir naquilo que é nosso. Nenhum brasileiro vai deixar que ninguém tire o que é dele. Se realmente querem isso, vamos fazer como o Cristóvam Buarque falou, todo mundo dar uma parte para fazer o mundo melhor.