03 maio 2008

Drama Global?

Tem sido amplamente noticiada, a crise dos cereais, e os aumentos brutais dos seus preços, que afectam directamente grande parte dos bens tidos como de subsistência, aqueles que são, afinal, a base da alimentação dos mais desfavorecidos.

Iniciamos o ano em Portugal com uma anunciada subida de 10% no preço do pão, devido, claro está, ao aumento do preço da sua matéria-prima........mas não parou por aqui.!

È sabido que Portugal importa 85% dos cereais que consome. A maior cifra não se destina directamente aos bens que consumimos, pois grande parte desses cereais tem como destino o fabrico de rações que alimentam os animais. Animais esses que, por exemplo, nos presenteiam com o seu leite e carne.

Talvez por isso, o Ministro da Agricultura, Jaime Silva, já tenha calmamente admitido que, em face de no ano anterior o aumento do preço da carne ter sido de apenas 2%, é natural que este ano seja de 5 a 7%.
Enfim, nada mais natural, não fosse a inflação já andar nos 3%, e os aumentos dos salários se terem quedado nos 2,1%.

Bem, os cereais, esses, já aumentaram cerca de 30% desde o início do ano!!!!! O arroz, ao que parece, já vai nos 40%.............será, também, natural?!?

Não me parece. Nesta questão, os culpados estão indentificados. Quem? Os grandes especuladores, que brincam com o mercado, ganhando fortunas com manobras especulativas, que desregulam os preços, impedindo uma livre e normal concorrência de mercado.

Se, a par dos aumentos brutais das matérias-primas dos bens de primeira necessidade (e dos consequentes aumentos dos respectivos bens ao consumidor final), somarmos os não menos escandalosos aumentos do preço do barril de petróleo – que já dizem alguns especialistas, poderá chegar aos 200 US Dls –, poderemos facilmente ficar apreensivos, pois com um Mundo tão Global, tudo se passa, agora, a uma escala planetária.

E o Bio combustível, que papel tem aqui?
Alguns defendem que os solos estão a ser ocupados por plantações que se destinam a alimentar a indústria do Bio combustível, retirando solos aráveis para o cultivo de cereais que se destinem á industria alimentar.

Será verdade, ou serão os especuladores e as suas manobras?

Uma coisa é certa, a fome, e o desespero e dramas a ela associados, começam já a varrer vários países. E, com os inevitáveis tumultos e revoltas a ela associados, não se augura um futuro fácil, pois nesta guerra, a luta é pela vida.

4 comentários:

Melo disse...

Boa refelexão, principalmente num fim de semana em que se faz o pedidório para o Banco Alimentar.
São 230 mil pessoas apoiadas por esta instituição, em Portugal.
Não faz sentido, de facto, e numa aldeia cada vez mais global, haver, como dizia Nelson Mandela, ilhas de riqueza num mar de pobreza, ou seja numa polarização da riqueza e generalização da pobreza. Esta crise dos cereais só pode agravar estas assimetrias.
Abraços.
Tiago Melo

pedro lopes disse...

Sem dúvida, caro Tiago.

Ainda hoje ouvi António Guterres, Alto Comissário da ONU para os Refugiados, alertar para o grave problema que o Mundo atravessa, e da natural e inevitável consequência para os mais pobres, que são, diziia ele, "quem sempre sente as crises" com mais intensida.
E Guterres já aludiu aos conflitos que eu refiro, uns já em curso e outros ainda latentes.
Ele, á minha semelhança, também se mostra altamente preocupado com o rumo desta crise global.

Como sempre, os Portugueses foram generosos na sua contribuição para o Banco Alimentar, que em pleno sec. XXI continua a contribuir para a subsistÊncia de muitos, o que vem demonstrar (infelizmente) que a Fome ainda é um combate perdido.

Tudo sobe menos os salários, resultadondo numa perda generalizada do nível de vida.

Um grande abraço.

Rui Gamboa disse...

Este problema tem sido uma verdadeira dor de cabeça. Já tínhamos tudo mais ou menos orientado para a Cimeira de Lima, mas tivemos que trabalhar horas extra para dar respostas a este problema.

Nada que se compare, como é evidente, áqueles que sentem na pele essa subida de preços. Na zona do globo com que trabalho diariamente, o Haiti, Honduras e Nicarágua são os países que mais estão a sofrer. Lá está, são sempre os mais pobres que sentem com mais intesidade e primeiro.

Penso que tocas na razão principal no final do post, os biocombistíveis. O Lula disse há bem pouco tempo que não tinha problema nenhum em sacrificar terrenos de cultivo de cereais para os biocombustíveis. Agora, como em tudo no nosso mundo globalizado, a culpa não é só de uma parte e nós (UE) devemos fazer o que estiver ao nosso alcançe para minimizar este problema e isso passa por, a longo prazo, apoio ao desenvolvimento de energias renováveis e, a curto prazo, está já preparada uma coordenação regional para prevenção da crise. A VEnezuela está a ter um papel preponderante, com um finaciamento de 100 milhões USD para um plano de urgência, que está a ser preparado pela Nicarágua (Ortega e Chavez são aliados no âmbito ALBA), que passa pela compra de fertilizantes, uma política de constituição de reservas estratégicas regionais e, provavelmente, a redução dos direitos aduaneiros sobre os cereais.

Uma coisa posso garantir: estamos a trabalhar no assunto e é um assunto de grande importancia para nós.

O Pinoka disse...

"... não se augura um futuro fácil, pois nesta guerra, a luta é pela vida."
A haver uma guerra justificada, será esta de certeza.
Dou todo o meu apoio a quem luta pelo pão. Seja lá com "armas" for.
Um abraço