18 agosto 2009

Afinal quem tritura o quê?

Confesso que já estava com saudades deste futebolzinho da treta em que apenas uma equipa entra em campo para vencer e a outra vai ali para fazer umas pantomimas circenses que nada têm a ver com aquilo que os espectadores pretendem ver e para o qual pagaram o respectivo bilhete.

Confesso que estava com saudades deste futebolzinho da treta onde o treinador de uma equipa chama "pressão baixa" (neologismo táctico) ao estacionamento de um Airbus A380 em frente da respectiva baliza, alegando que, assim, iria conseguir levar o adversário a cometer erros atacantes, facilmente aproveitáveis pela sua equipa.

Confesso que estava com saudades deste futebolzinho da treta onde, com apenas 18 (!) segundos de jogo, o guarda-redes da equipa teoricamente mais fraca começa a perder tempo na reposição da bola em jogo, com a complacência do apitador.

Confesso que estava com saudades deste futebolzinho da treta onde o apitador de serviço colabora do primeiro ao último minuto com uma das equipas na prática de anti-jogo, aceitando com desvelo simulação de lesões em catadupa, simulação de faltas, pontapés na bola com o jogo parado, demora na reposição da bola em jogo, sem perceber que estão a fazer dele a maior atracção do circo mediático.

Confesso que estava com saudades deste futebolzinho da treta onde o apitador influencia directa e decisivamente o resultado de um jogo, com a habitual desfaçatez que a ninguém incomoda, muito menos ao Secretário de Estado do Desporto (irónico cargo), descrito, no final da semana passada, num jornal cujo nome olvidei, como um homem corajoso por ter "perseguido" Nuno Assis, num caso de alegado doping, ficando mudo e quedo no caso Apito Dourado, "por ser da competência das associações", segundo o próprio.

Confesso que estava com saudades deste futebolzinho da treta em que o Presidente da Liga é candidato à presidência de uma Câmara Municipal e acha normal que não exista incompatibilidade.

Confesso que estava com saudades deste futebolzinho da treta onde jogadores são barbaramente agredidos porque dão uma entrevista a um jornal.

Confesso que estava com saudades deste futebolzinho da treta caminhando alegremente para a sua morte medicamente assistida.

Confesso que estava com saudades deste futebolzinho da treta!

3 comentários:

Bota Sentido disse...

Confesso que li até ao fim sempre a sorrir. Mas com aquele sorriso dicótomo, em que o divertido sarcasmo vai lado a lado com a triste realidade.

Anónimo disse...

Sr. José Gonçalves, sou seu fã icodicional, esvreve biem, argumenta melhor, vou ler você sempre.

Jordão disse...

Caro José, ontem, em Alvalade, tivemos mais uma prova de que a arbitragem do futebol português afinal não é assim tão mal.

Quanto aos 380 em frente às balizas, é assim a vida o FCP quantas vezes é que já apanhou na Champions (que é aquela competição onde jogam só os melhores – só para recordá-lo) equipas que jogam assim no Dragão e antigamente nas Antas e que depois num contra-ataque marcam! E isso é na Champions, porque razão é que as equipas com orçamentos mais baixos do campeonato português não podem fazer? Afinal sempre conseguem alguns resultados. E vai-me dizer que não se emocionou com aquelas defesas e falhanços, mesmo à boda da baliza?! O futebol é assim mesmo.


Mas numa coisa estamos plenamente de acordo – o anti-jogo praticado em Portugal e não só é mesmo do piorio. Assim não dá vontade nenhuma de ver futebol


Um abraço e chute textos desses sempre que desejar, dá gosto ler e mais gosto em contra-argumentar. Foi uma excelente contratação do Máquina pelo olheiro Rui.