04 abril 2008

Consensos

A vida é, como se costuma dizer, um processo constante de aprendizagem. No entanto, os primeiros tempos de trabalho na Comissão Europeia são, não só um processo de aprendizagem, mas um curso intensivo sobre todos os assuntos possíveis e imaginários: questões macroeconómicas, ambiente, políticas de inclusão social, de migração, enfim, um sem-número de questões gerais, que depois de dividem em dezenas de sub-temas.

No meu caso em particular, faço parte de uma equipe que tem como principal objectivo (nesta e na próxima semana) encontrar um consenso entre a EU e os países da América Latina e Caribe para a Declaração de Lima, que será apresentada pelos Chefes de Estado, na Cimeira vindoura. Trata-se de um processo extremamente difícil, pois os países LAC são muito heterogéneos, o que torna complicado o alinhar de interesses, entre eles. Evidentemente, depois deles chegarem a uma espécie consenso, é preciso que a Europa concorde e dentro da Europa também há diferentes sensibilidades em relação à América Latina. No fundo o que interessa é encontrar um mínimo denominador comum.

A U.E. tem um papel fundamental em todo este processo e a Comissão ainda mais. Temos frequentes reuniões no edifício do Conselho (onde quase diariamente há manifestações à porta pelo Tibete), sob a presidência eslovena, com ambas as partes: Estados-Membros e países LAC. Se na reuniões com os LAC, não há muito a dizer, a não ser o facto de se tratar de negociação pura e dura e que no fim os mais resistentes é que ficam a ganhar, pois as horas são tão longas, que há a tendência de ceder só para poder ir para casa, já no caso das reuniões com os Estados-Membros, não posso deixar de registar a apatia dos portugueses. Estamos a falar de uma região que diz alguma coisa aos lusitanos, por isso estranho que não tenham nada a acrescentar ou, pelo menos, dúvidas que queiram ver esclarecidas.

Uma vez que os Açores não são (ainda) independentes, acho que posso acrescentar um parágrafo, à socapa.

3 comentários:

Pedro Lopes disse...

Pois é caro amigo, como nos vamos comunicando por outras vias, estou a par desta tua azáfama diária.

...é por isso que estás a gostar tanto. ;)

Quanto às relações UE vs países LAC, penso que estas assumem cada vez mais predominância na política externa da UE, com as naturais adversidades que advêm da tal "heterogeneidade".

O Encontro de 2006 designado, Cúpula de Viena, na Áustria, foi talvez o assumir definitivo desse novo empenhamento entre ambas as partes, em especial por parte da Europa. Este processo teve inicio em 1999, no Rio de Janeiro com a Primeira Cúpula, seguindo-se outras duas, Madrid 2002, e Guadalajara em 2004.

Estes países começaram (em Viena 2006) a ser encarados como parceiros comerciais, mas também como aliados na definição de prioridades na política externa internacional, tentando assim quebrar a hegemonia dos EUA (e da crescente China, como segundo grande potencia Mundial).

Não esquecer que até aos anos 80, a Europa estava de costas viradas para a América Latina, pois consideravam, digo sabiam, que esta era dominada pelos EUA e pelos “jogos de poder” da sua CIA.

Só com a crise do petróleo nos anos 70, a Europa se começou a virar mais para o exterior. Agora, surge um novo patamar de relacionamento entre estas duas Comunidades de Estados (cada uma com a sua forma distinta), pois começou reinar alguma estabilidade naquela zona do globo. Sente-se que a Europa começa a dar mais primazia aos LAC do que aos países Africanos, que durante as últimas décadas do século XX dominaram a atenção dos ex-colonizadores.
Estás, portanto, numa área de grande expansão, e de crescente importância na definição de estratégias futuras por parte da UE.....e a preparar a Quinta Cúpula ;)


O último parágrafo, vai ficar em aberto?

Rui Gamboa disse...

Se os Açores fossem independentes, (e fossem aceites como membro da UE) teriam lugar na mesa das negociações. Como não são (ainda) independentes, estou lá eu, que no fim de tudo, quando todos tiverem a celebrar o consenso, posso ir acrescentar um parágrafo que nos seja positivo.

Agora a sério, as pessoas que trabalham na Comissão têm as suas nacionailidades e nota-se que querem sempre puxar um pouco para o seu país, o que é normal. Em muitos casos, porém, os próprios países estão em contacto com os funcionários da Comissão, coisa que Portugal agora é que começa a tentar fazer.

Rui Gamboa disse...

É aquilo que se chama "lobbying avec visage decouvert", porque não há nada a esconder, as pessoas que trabalham no redigir destas Declarações e consequentes Agendas (que no fundo é o mais importante de uma Declaração) são antes de mais profissionais que obedecem às directrizes da UE em cada área, mas depois procuram dar primazia a um ou outro assunto, muitas vezes isso faz-se no local onde certo assunto é colocado, se no começo em lugar de destaque, ou no meio misturado com outra coisa qualquer.