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18 abril 2010

A SATA é do PS

A SATA é, de facto, um caso curiosíssimo de incoerências. Admito que ultimamente a empresa pública de transporte aéreo tem sido alvo de muitas críticas injustificadas. Admito, inclusivamente, que parece-me que está “na moda” falar da SATA. Mas, convenhamos que é fácil a nós, açorianos, queixarmo-nos da aviadora regional, desde logo porque sentimo-nos legitimados para tal, por via de sermos contribuintes e porque sentimo-nos justificadamente maltratados.

Comecemos pelo anúncio feito pelo secretário-geral do PS-Açores, no fim do Congresso da aclamação e do yes sir. Diz-nos o secretário-geral do PS-Açores que promete que vai baixar os preços das passagens aéreas entre os Açores e continente. Dois comentários merecem-me esta anormal situação. Primeiro, é o reconhecimento público, por parte do secretário-geral do PS-Açores, que andamos a pagar muito caro e que sempre houve espaço para baixar os preços. Porque, se, como se sabe, os preços do petróleo estão a subir, a tendência nunca seria baixar preços, mas sim aumentar. Isto significa apenas que os açorianos andaram estes anos todos a pagar muito mais do que o necessário. Ora, numa lógica de serviço público, onde já contribuímos, sobremaneira, para a sobrevivência desta empresa pública e todos os empregos a ela inerentes, andar a pagar preços abusivamente caros, é, no mínimo, insultuoso! Vem agora o secretário-geral do PS-Açores emendar a mão e dizer que afinal há espaço para baixar preços, num acto que se compreende apenas porque o PS-Açores sente-se nervoso com a perspectiva de perda de poder e está a usar todos os trunfos. Ou seja, como sempre, é uma promessa eleitoralista. Só que desta vez, os açorianos percebem a milhas que se trata de “publicidade enganosa”. E isto leva-me à segunda consideração sobre este caso, que é bem curta: espero que o Presidente do Conselho de Administração da SATA tenha estado atento ao Congresso.

Agora uma questão mais terrena. Como nós, residentes, sabemos, temos direito a uma tarifa que ronda os 150€ para ida e volta ao continente. Essa tarifa está, no entanto, condicionada a alguns factores, como a antecedência na marcação e a impossibilidade de alterar as datas. A SATA socorre-se que esta é a forma como as low-cost operam e se nós tanto reclamamos por essas empresas de baixo custo, não podemos depois nos queixar. Nada mais falacioso e injusto. É que quando esta situação se coloca nas low-cost estamos a falar de tarifas que rondam os 20€ ou 50€ e não 150€. Faz toda a diferença …. bem, pelo menos, para o comum dos mortais. E depois, há sempre a questão da SATA ser uma empresa pública, para a qual nós contribuímos. Portanto, meus caros senhores que ocupam as chefias, mas que, como se viu anteriormente, não decidem patavina, não nos tratem como crianças, para isso já basta o senhor secretário-geral do PS-Açores.

26 novembro 2009

Nem tudo o que Luz é Ouro

“(...)o actual modelo de obrigações de serviço público, da rede regular doméstica entre os Açores e o Continente e a Madeira não é perfeito. Tem vantagens, por exemplo, ao oferecer tarifas mais baratas em relação a outras rotas, aparentemente semelhantes, como Lisboa/Londres ou Lisboa/Funchal, ao nível da tarifa base para residente (…).
Francisco César in Açoriano Oriental de 26/11/2009.

Ou seja, quer isto dizer que as tarifas para o continente, para residentes nos Açores, são mais baratas que tarifas entre Lisboa e Londres ou Lisboa e Funchal? Ora, fazendo uma pequena pesquisa nos sites da TAP e da SATA (este só quando funciona) e partindo do princípio que se consegue lugar para uma tarifa de residente, uma ida e volta a PDL-Lisboa, custa 146.50€. Já uma ida e volta Funchal-Lis custa 112,902€ e uma ida e volta Lis-Lon custa 89,21€.

Mas o que interessa mesmo neste artigo é o reconhecimento de que algo está mal na política de transportes aéreos nos Açores e que é necessária uma mudança. Parece cada vez mais evidente que o caminho será a liberalização do espaço aéreo e o PS, mesmo indo contra os seus princípios ideológicos (grande novidade), deverá usar esta promessa como uma bandeira para 2012, na certeza que será necessário puxar de todos os trunfos.

14 abril 2009

Navios, Aviões e a (Ir)Responsabilidade

Já não valerá a pena dizer que Berta Cabral defendeu, no fim do congresso do PSD em Janeiro deste ano, a rescisão dos contratos com os Estaleiros Navais de Viana do Castelo [ENVC]. Nem valerá a pena especular sobre o efeito que essas declarações poderão ter tido nas hostes socialistas. Nem muito menos valerá a pena procurar saber se a ida de Vasco Cordeiro para a Secretaria da Economia foi para salvar o caso “Altântida”, ou afastar o próprio da corrida à liderança do PS, ou nenhuma das duas. Porque neste momento há questões mais importantes para tratar, questões de fundo.

O AO noticia hoje [convenientemente] que os novos aviões da SATA, os Bombardier, começarão a voar já em Junho. Ao todo serão quatro Q400 de 80 lugares e dois Q200 de 37 lugares. Ou seja, e segundo os números da própria notícia, passaremos dos actuais 318 lugares, que toda a actual frota disponibiliza, para 394 lugares com os Bombardier. Se, por outro lado, levarmos em linha de conta que, segundo a auditoria do Tribunal de Contas, os dois navios encomendados aos ENVC teriam uma capacidade máxima de 750 passageiros e 140 viaturas [no caso do navio C258, mais conhecido por 'Atlântida'] mais 400 passageiros e 34 viaturas [do navio C259], ficaríamos com um total de 1544 lugares todo o ano para o transporte de passageiros inter-ilhas marítimo e aéreo, mais 174 viaturas. E a questão que se levanta é: sendo a SATA e a Altanticoline empresas públicas, ou seja com o mesmo dono, terá havido uma articulação entre ambas de forma a não haver uma oferta sobre-dimensionada? Será que, na fase de decisão política sobre que tipo de aviões e navios a adquirir, se pensou em estudar os possíveis passageiros que uma e outra poderiam ter, de forma a optimizar a utilização dos equipamentos a comprar?

Esta e outras questões leva-nos necessariamente ao eterno debate do público/privado. Se o dono daquelas duas empresas fosse um privado e se tivesse a investir capital seu e não público, teria outro cuidado, ou não? Porque, no caso do dono ser um político no serviço público, como se vê, se der para o torto, no máximo perde a eleição, mas no caso do dono ser um privado …. bem, no fundo cada um de nós é um gestor privado à sua medida e sabemos bem o que nos acontece caso façamos más opções com o nosso dinheiro.

19 março 2009

Quero Acreditar que Somos Governados por Gente Competente...

Confesso que desconheço as razões por que se recorreu a um gabinete russo para projectar o ferry Atlântida, mas quero acreditar que houve estudos e que certos critérios nortearam esse processo de escolha. Quero acreditar que se tentou ouvir a opinião daqueles [privados] que andam nesta coisa do transporte marítimo nos Açores há muito tempo. Quero acreditar que se seguiu à risca um plano de acção [que deverá existir], de forma a dar o melhor uso aos dinheiros públicos. Quero acreditar que os fiascos passados nesta matéria tenham servido para por de sobreaviso as autoridades açorianas, de forma a reconfirmarem, duas ou três vezes, cada decisão que tomaram neste processo.

Deste modo, quero acreditar que a escolha do gabinete russo para projectar o navio, foi o resultado de uma pesquisa intensiva e de um processo de selecção criterioso. Quero acreditar que não havia mais nenhum gabinete melhor habilitado para fazer o projecto. Quero acreditar que o gabinete russo criou o projecto tendo por base estudos profundos sobre as condições dos mares e portos açorianos. Quero acreditar que foram feitos estudos económicos sobre os números de passageiros e de carga que se esperava carregar, de forma a não projectar um barco sobre-dimensionado ou sub-dimensionado. Quero acreditar, enfim, que o projecto criado pelo gabinete russo era perfeito para aquilo que os Açores necessitam.

Por outro lado, acredito que os Estaleiros de Viana do Castelo são reconhecidos como terem competência na área de construção de navios. Acredito que, se o Instituto Portuário de Transportes Marítimos aponta mais de 100 reservas e observações ao Atlântida, é porque elas existem, de facto.

Então porque razão o Atlântida é adjectivado como uma sucata sem valor trasaccionável? Porque razão há já uma derrapagem de €10 milhões? Porque razão tantas alterações já foram feitas ao projecto inicial? Se o projecto inicial seguiu o processo que queremos acreditar que seguiu, então o GRA tem todas as condições para por os Estaleiros em tribunal. Porque não o faz?