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27 setembro 2007

Investir na Defesa da Europa

Robert Cooper, que era o principal conselheiro de Tony Blair para a Política Externa, desenhou um quadro, em 2002, das Relações entre a Europa e o resto do Mundo, muito sugestivo.

Cooper afirma que, fora da Europa, há dois tipos de Estado: os pré-modernos, que são geralmente ex-colónias, e que vivem num mundo hobbesiano, de todos contra todos, como por exemplo a Somália. Depois, há os Estados modernos, como a Índia, China ou o Paquistão, que se comportam da forma como os Estados sempre se comportaram, ou seja tendo por base o interesse, o poder e a raison d’etat.

A Europa, para Cooper, vive num sistema pós-moderno, o tal paraíso que Kagan fala. Mas Cooper adverte que o mundo pós-moderno tem que começar a habituar-se à ideia de “critério duplo”. Entre nós, europeus, operamos com base nas leis e na “segurança cooperativa aberta”. Mas quando tratamos com o mundo fora da Europa, precisamos de retroceder aos métodos mais duros de uma era anterior: “força, ataque cautelar, engano, tudo o que for necessário”. E a proposta de Cooper é a seguinte: “entre nós, obedecemos à lei, mas quando estamos a operar na selva, temos também de usar as leis da selva”. Cooper acha que o longo período de paz que a Europa vive, contribui para negligenciar as suas defesas, físicas e psicológicas.

Parece evidente que Cooper defende um maior investimento europeu em políticas de Defesa.

13 setembro 2007

Quem Puxa os Cordelinhos


O Project For a New American Century é um think-tank norte-americano de inspiração neo-conservadora, que tem como membros-fundadores pessoas como Dick Cheney, Jeb Bush, Lewis (Scooter) Libby, Paul Wolfowitz, Donald Rumsfelt ou Dan Quayle.

No ano 2000, o PNAC publicou o estudo “Rebuilding America’se Defense: Strategy, Forces and Resourses For The New Century”, que é um plano para “manter a proeminência dos EUA, impossibilitar o surgimento de novas potências rivais e alinhar a segurança internacional com os interesses e princípios dos EUA.” Este trabalho dá especial destaque ao Médio Oriente e ao papel que os EUA devem ter naquela região, especialmente relativamente ao Iraque.


Segundo esse estudo, se os EUA quisessem atingir esses objectivos teria de haver uma mudança na política de defesa e externa. Assim, o PNAC avisava o seguinte: “será um processo de transformação longo, se não houver um acontecimento catastrófico e catalisador – como um novo Pearl Harbour.” Um ano depois aconteceram os ataques ao WTC e Pentágono. Dias depois o PNAC enviou uma carta ao Presidente Bush encorajando depor Saddam Hussein, mesmo que nunca surgissem provas que o Presidente iraquiano estivesse, de alguma forma, ligado ao ataque

07 setembro 2007

"Missão Cumprida"

Num artigo na opendemocracy.net, o especialista em assuntos do Médio Oriente, Fred Halliday mostra os efeitos que a Guerra do Iraque poderá ter para a região.

Aqui ficam alguns:

"- A revitalização, em todo o Médio Oriente e, até mesmo, em todo o mundo muçulmano, do militarismo islâmico inspirado, se não mesmo organizado, pela Al-Qaida, que utilizou a Guerra do Iraque para se fortalecer. "

"- O desaparecimento do poder e da autoridade do Estado iraquiano e a sua fragmentação em zonas antagonistas étnica e religiosamente."

"- O eclodir, pela primeira vez na História Moderna, de uma guerra entre Sunitas e Xiitas no Iraque, mas que poderá passar para outros Estados com ambas as religiões."

"- O surgimento, se bem que de uma forma lenta, de uma rivalidade regional entre dois grupos: Irão e seus aliados (Síria, Hezbollah e Hamas) vs. Arábia Saudita, Egipto e Jordânia."

A invasão do Iraque foi mais que um erro, foi o cair numa armadilha bem montada por Bin Laden. É que, no final de 2002 o Afeganistão, que era dito como o quartel-general da Al-Qaida, estava dizimado e, como agora se sabe (e na altura também se sabia), não havia qualquer sinal da Al-Qaida no Iraque. Hoje, em Setembro de 2007, a Al-Qaida está no Iraque, está regressando ao Afeganistão e está por todo o globo, nomeadamente na Europa. Os serviços de informação norte-americanos sugerem que a Al-Qaida no Iraque constitui uma das maiores ameaças ao território americano. “Missão Cumprida” mesmo.

14 agosto 2007

A visão de Robert Kagan


"O Paraíso e o Poder; A América e a Europa na Nova Ordem Mundial" é um pequeno livro, com 110 páginas, de Robert Kagan. No começo do livro, Kagan afirma que está na altura de se parar de fazer de conta que americanos e europeus partilham uma mesma visão do mundo, prosseguindo para uma frase que já tem o seu lugar de destaque entre os estudos das relações transatlânticas: “os americanos são de Marte e os europeus são de Vénus”. No fundo, Kagan acredita que há grandes diferenças entre americanos e europeus, desde logo em termos de poder e ideologia. Para o autor, o avanço abissal que os EUA têm em termos militares e tecnológicos leva, através da “psicologia de poder e fraqueza”, a que os americanos sejam mais propensos a usar a força para atingir os seus objectivos, do que os europeus. Em termos ideológicos, a diferença reside no facto dos europeus terem desenvolvido um conjunto de ideais e princípios relativos à utilidade e moralidade do poder, diferentes daqueles dos americanos; os europeus rejeitaram conscientemente a machtpolitik do seu passado e, bem assim, a fórmula maquiavélica.

A metáfora que Kagan utiliza é a do mundo anárquico hobbesiano dos americanos da power politics e o mundo de paraíso pós-histórico kantiano em que os europeus estão entrando. Kagan acaba por concluir que, apesar das diferenças entre europeus e americanos, ainda existe um “Ocidente” que partilha uma visão da humanidade. Para além disso, Kagan concorda com a premissa principal da teoria do “Fim da História” de Francis Fukuyama, que diz que a velha questão sobre qual a melhor forma da humanidade se governar, está resolvida a favor do ideal liberal Ocidental. O livro acaba com Kagan a recomendar aos europeus que aceitem e apoiem, de bom-grado, a posição de líder dos EUA no mundo, como um preço pequeno a pagar pelo manutenção do seu pequeno e pacífico paraíso. Mas também diz que os americanos devem mostrar mais “generosidade de espirito” e “mais compreensão pelas sensibilidades dos outros”. Desta forma, a política externa norte-americana poderá respeitar o multilateralismo e o Direito. Estes pequenos passos não irão, segundo Kagan, acabar com a divisão entre os EUA e a Europa, mas podem a minimizar.

Será sempre muito difícil para qualquer não-americano concordar com as posições de Robert Kagan, no entanto há que reconhecer que os seus argumentos são sempre muito bem sustentados.

04 abril 2007

Europa-América II

Parece ser evidente que a UE, precisa de se dotar de uma Política Externa e de Segurança Comum. Os EUA manifestam-se, frequentemente, no sentido da UE investir mais na sua segurança. No entanto, a posição dos EUA, nesta matéria, revela-se algo ambígua, uma vez que receiam que tal investimento se traduza no abandono, por parte da Europa, da Aliança Atlântica.

E as tensões entre a UE e os EUA não se ficam por aqui. Uma vez que os EUA têm uma perspectiva mundial de segurança, enquanto a UE tem uma perspectiva regional. Ou seja, a política de defesa e segurança norte-americana é global, ao contrário, daquilo que parece ser a tendência da Europa, que pretende focar-se apenas no seu próprio espaço. Ilustrativo foi a invasão do Iraque: a perspectiva mundial traduziu-se na coligação liderada pelos EUA e Reino Unido, enquanto posição contrária tiveram França e Alemanha. Existem, além desta questão, outras, relativas à segurança, onde EUA e UE diferem de forma substancial. Em relação à NATO, alguns autores, como Christopher Layne, afirmam que, actualmente, é um instrumento através do qual os EUA perpetuam o seu papel hegemónico na Europa. Não podemos, entretanto, nos esquecer que a NATO teve um papel fundamental na crise nos Balcãs, na década de 90, demostrando a superioridade do poder norte-americano, em relação ao europeu.

Pode-se afirmar, portanto, que o relacionamento entre os países das duas margens do Atlântico norte, não é o melhor. No entanto, tudo indica que a segurança norte-americana e europeia vão estar, nos próximos tempos, interligadas. Apesar da UE ter demostrado, ao longo destes 50 anos, um desenvolvimento económico digno de registo, a verdade é que, em relação a questões de defesa e segurança, continua a depender dos norte-americanos.

07 março 2007

Açores no xadrez mundial

Vários documentos foram, recentemente, desclassificados pelos EUA, que dizem respeito aos Açores, no período entre 1974 e 1975. Realce para os seguintes:

1- "O 222327Z AUG 74
FM SECSTATE WASHDC
TO AMEMBASSY LISBON IMMEDIATE

S E C R E T STATE 185206



WILL YOU APPROACH GOP AT WHATEVER LEVEL YOU CONSIDER
APPROPRIATE AND ASK THEM WHETHER, IN FACT, THERE HAS BEEN
AN ARAB OFFER TO THE GOP OF DOLS 400 MILLION AND AN END TO
THE OIL EMBARGO IN RETURN FOR NON-RENEWAL OF AZORES BASE
RIGHTS. IF GOP CONFIRMS OFFER, DEPARTMENT WOULD APPRECIATE
YOUR FINDING OUT AS MUCH AS YOU CAN ABOUT IT. KISSINGER"


2 - "R 060852Z JUN 74

FM AMEMBASSY LISBON
TO SECSTATE WASHDC 9761

INFO AMCONSUL PONTA DELGADA UNN

C O N F I D E N T I A L LISBON 2300

SUBJ: AZORES INDEPENDENCE MOVEMENT

REF: (A) PONTA DELGADA 90; (B) STATE 116770


IN RECENT CONVERSATION WITH EMBOFFS, FORMER NATIONAL
ASSEMBLY DEPUTY FROM SAO MIGUEL, MOTA AMARAL, SAID
HE HAD BEEN APPROACHED BY ONE VITOR CRUZ AND GIVEN
COPY OF MANIFESTO OF "AZORES INDEPENDENCE MOVEMENT"
(AIM). JOKING, HE SAID THAT IF SAO TOME AND
PRINCIPE ARE TO BECOME INDEPENDENT, WHY NOT AZORES.
HE THEN ADDED THAT WHILE AT SOME TIME IN THE FUTURE,
DEPENDING ON WHAT HAPPENS IN PORTUGAL, IT MIGHT BE
WORTH THINKING ABOUT INDEPENDENCE FOR THE AZORES,
HE ADVISED THAT AIM SHOULD NOT BE TAKEN SERIOUSLY
AT PRESENT. HE NOTED ALSO THAT, IN CONTRAST TO
PORTUGUESE FARICAN TERRITORIES, THE INHABITANTS
OF THE AZORES ARE, AFTER ALL, PORTUGUESE. HE
WAS MUCH MORE INTERESTED IN THE PROSPECTS OF THE
CENTRIST POPULAR DEMOCRATIC PARTY, OF WHICH HE
ALONG WITH BALSEMAO AND SA CARNEIRO IS ONE OF THE
LEADERS, AND THE PARTY'S NEED TO STEP UP ITS
ORGANIZING ACTIVITIES IF IT IS TO COMPETE SUCCESSFULLY
WITH THE LEFT AND WIN ELECTIONS IN PORTUGAL

CONFIDENTIAL"