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07 março 2012

A Renegociação do Acordo Bilateral

A localização geográfica dos Açores, entre a Europa e o continente americano, confere-nos elevada importância no âmbito das relações geopolíticas. Com efeito, nas duas guerras mundiais que se disputaram no séc XX, os Açores assumiram um papel de relevo para o resultado final. Aliás, na segunda guerra mundial, tanto os alemães, por um lado, como ingleses e americanos, por outro, negociaram com Salazar a ocupação dos Açores, na certeza que para o desfecho muito dependeria a chamada “Batalha do Atlântico” e a preponderância sobre os Açores. Com a sua reconhecida sagacidade e enorme capacidade de negociação, Salazar soube, na devida altura, chegar a acordo com os Aliados. Assim, e apesar de ter sido oficialmente um país neutro na II guerra mundial, Portugal acabou por ser fundamental para os interesses dos Aliados, devido à cedência da base das Lajes. Com o fim da II Guerra Mundial, abriu-se a Guerra Fria entre o Ocidente e o bloco comunista. Não obstante Portugal ser à época um regime ditatorial e de não ter sido directamente atingido pela guerra, passou a fazer parte da Aliança Atlântica e beneficiou do plano de ajuda à Europa pós Guerra. A razão única por que Portugal entrou nesse lote de países, que beneficiaram de um enorme desenvolvimento, foi os Açores e a base das Lajes. Ou seja, os Açores, com a sua importância geoestratégica, contribuíram activamente para aquilo que acabou por ser a realidade política nacional do séc. XX e tiveram, igualmente, um efeito inquestionável na II Guerra Mundial e, consequentemente, sobre o quadro político internacional que se seguiu.

A guerra fria entre Estados Unidos e União Soviética colocou os Açores exactamente no meio do conflito. Por esta razão, a base das Lajes era considerada essencial para a política externa norte-americana assente na dissuasão, o que fez com que os Estados Unidos se empenhassem para a manter. O General Calvet de Magalhães afirma, num dos seus artigos de investigação sobre esta matéria, que o acordo de 1983, por exemplo, previa uma contribuição financeira de 400 milhões de dólares em dádiva e mais 255 milhões na forma de crédito a longo prazo, por parte dos EUA a Portugal. Assim se vê quantitativamente a importância que os Açores tinha à época para os norte-americanos.

No entanto, essa importância foi-se esvaindo. Assim, a última versão do acordo, que data de 1995, prevê apenas, no seu artº 6º, a necessidade de se criarem programas que visassem o desenvolvimento económico e social dos Açores. Mas, na verdade, a partir daquela data a única mais-valia que os Açores têm, pelo facto dos americanos estarem na base das Lajes, é o acordo laboral para os trabalhadores portugueses na base.

Actualmente estamos num momento de renegociação do Acordo, por iniciativa do lado americano, no âmbito dos cortes na despesa militar dos EUA, da administração Obama. E para nós, Açorianos, este é um momento que deve ser encarado com grande coragem na defesa dos nossos interesses. No fundo, estamos a falar da cedência do nosso território para que os Estados Unidos possam projectar o seu poderio militar no mundo, factor que lhes é essencial para o seu desenvolvimento económico. Apesar de ser um facto que o centro das relações geopolíticas se deslocou para Oriente, esvaziando, assim, alguma importância geoestratégica dos Açores, a verdade é que o arquipélago mantém ainda espaço na política externa dos EUA, como se vê. Mas temos que ser realistas e perceber que além do mundo ter mudado, em termos das relações internacionais, a própria tecnologia militar desenvolveu-se. Hoje em dia, é possível comandar aviões em combate no Afeganistão a partir dos EUA. Ou seja, é apenas natural que os EUA pretendam reduzir o contingente de pessoal efectivo fora dos EUA. É algo que decorre da própria evolução das coisas.

Os Açores não são um Estado soberano, portanto a nossa presença e a nossa capacidade de influenciar as negociações estão dependentes da posição do governo de Lisboa. Desta forma, é necessário, antes de mais, os Açores acertarem a posição com Lisboa. E é em ocasiões como esta que se afirma uma Autonomia adulta. O que desejam os Açores desta cedência da Base? Manter o actual quadro dos trabalhadores portugueses? Sim, claro. Estamos a falar dum enorme peso para a Economia terceirense. Mas, perante a intenção norte-americana de baixar o contingente militar, perante a certeza da perda de importância geopolítica dos Açores, será expectável alguma quebra no que respeita à força laboral associada aos norte-americanos na ilha Terceira, com tudo o que isso significa para a Economia local.

Por estas razões, e voltando ao prévio entendimento necessário com Lisboa, os Açores devem tentar reorientar as contrapartidas dadas pelos EUA, retirando do apoio militar a ceder a Portugal para dar ao real problema actual dos Açores: desenvolvimento económico e de desemprego. Por isso, devemos procurar que o próximo acordo salvaguarde a criação efectiva de programas que contribuam para o desenvolvimento económico da região. Podemos e devemos procurar outras formas de cooperação. Mas para isso, há que ter uma estratégia interna de combate ao desemprego e de criação de riqueza, que não há como se sabe e como se vê. Só com essa estratégia bem delineada é que poderíamos reclamar objectivos concretos. De resto, a tão badalada incapacidade diplomática portuguesa não passa de uma consequência de não haver estratégias internas. Salazar, apesar de tudo, tinha a sua estratégia, pelo que sabia o que pedir e exigir nas mesas das negociações, em prol dos seus interesses. Por isso a diplomacia portuguesa do Estado Novo tinha sucesso.

Existem outras formas de se beneficiar do acordo bilateral. Os Açores são a parte essencial deste acordo, pelo que não podemos ficar passivos nesta questão. A redução anunciada pelos EUA não é apenas ameaça para ganhar argumento na mesa das negociações. Vai certamente acontecer, piorando ainda mais a situação de desemprego nos Açores. Portanto, é com a prioridade de combater o desemprego e dinamizar a nossa Economia que devemos encarar esta renegociação. No fundo, estamos novamente a falar de mudança. Há que mudar a forma como olhamos até agora este Acordo e saber usar a nossa Autonomia para aquilo que ela efectivamente existe: defender os interesses dos Açorianos.

11 setembro 2009

Por Dentro do 9/11


“Atravessei a correr a Ala Oeste até ao gabinete do Vice-Presidente (…). Estivera a assistir a uma conferência no Edifício Ronald Reagan, situado a três quarteirões de distância, quando Lisa Gordon-Hagerty me telefonou a dizer que um avião tinha atingido o World Trade Center: «Dick, até sabermos o que isto realmente significa, devemos contar com o pior”
Richard A. Clarke, Contra Todos os Inimigos – Nos Bastidores da Casa Branca, pág. 19, Difel, 2004

É assim que começa o relato de Dick Clarke, pessoa intimamente ligada ao Departamento de Estado, que estava à frente do Grupo de Segurança Antiterrorista no dia 11 de Setembro de 2001 e que liderou a equipa de gestão de crise, criada após os ataques. O livro demonstra como a Al-Qaeda se formou, com a ajuda dos norte-americanos ao Afeganistão, no seguimento da invasão pela URSS e como foi crescendo, com a guerra entre o Irão e o Iraque, entrando nos anos 90 já como uma estrutura fortemente formada. Clarke mostra como a ameaça terrorista islâmica era bem real e que Clinton tentou lidar convenientemente com ela, não o conseguindo devido à obstrução interna e mostra como George W. Bush falhou ao não ter agido previamente contra a mesma ameaça.

Além disso, Clarke escreve que, no dia 12 de Setembro de 2001, G. W. Bush pediu-lhe para “tentar encontrar evidências de como Saddam Hussein estava ligado aos ataques terroristas”. Clarke escreveu um relatório em resposta, que foi assinado por todas as agências, incluindo o FBI e a CIA, afirmando que não existiam tais evidências. O documento foi rapidamente devolvido com uma nota dizendo “por favor actualizar e voltar a entregar”. Bush começou por negar que não tinha tido tal encontro com Clarke, mas a Casa Branca acabou por confirmar, depois de outras pessoas que estiveram presentes, terem confirmado a versão de Clarke.

Oito anos após os ataques, este é um livro que nos ajuda a compreender todo o processo que culminou naquela manhã. Um documento histórico escrito por quem esteve sempre por dentro e que deve merecer uma leitura.

07 março 2009

A Junta vista pelos Americanos

A propósito do lançamento do livro Carlucci vs. Kissinger e porque é um tema do nosso interesse, apresentamos um relato da autoria do Cônsul em Ponta Delgada para o Secretário de Estado norte-americano, datado de 25 de Novembro de 1975 sobre a Junta Regional dos Açores [que se perdoe a tradução feita em cima do joelho]. O documento original pode ser visto aqui.

“1. Sumário. A Junta Regional dos Açores foi criada em Agosto sem poderes definidos, desde essa altura desenvolveu-se num Governo Autónomo Popular. Fim de sumário.

2. A Junta foi criada após decreto em 21 Agosto com o fim de ser um governo de transição, encarregue ao mesmo tempo de escrever um Estatuto de Autonomia para os Açores, uma espécie de Constituição para um Governo Autonómico. O Decreto era vago, não concedia à Junta muitos poderes, ficando directamente dependente do Primeiro-Ministro. A Junta é composta por 7 pessoas, um Presidente, o Governador Militar dos Açores e seis membros, dois de cada um dos três distritos dos Açores. O General Magalhães, Governador Militar dos Açores, com base em recomendações feitas pelos Partidos políticos e outros, escolheu os seis membros, dando ao PPD quatro lugares e ao PS dois lugares, basicamente segundo os resultados das eleições. Há indicações que nem todas as primeiras escolhas aceitaram servir a Junta. Cada um dos seis membros está responsável por vários sectores de governo, de acordo com os seus interesses e experiência.

3. Membros
A. Presidente: Gen Altino Pinto de Magalhães é natural de Trás-os-Montes e chegou aos Açores ainda como um jovem oficial. Tornou-se Governador Militar em Janeiro de 75 e tem tido um papel político importante desde as manifestações de 6 de Junho. É fortemente anti-comunista e um moderado que simpatiza com as aspirações açorianas pela Autonomia, mas é contra a independência. O General orgulha-se das suas capacidades negociais e encanta [palavra é charms] a maioria das pessoas com quem fala, com a sua simplicidade e cordialidade. Embora nem todos concordem com as suas opiniões, é respeitado por todos pela sua integridade e capacidade de trabalho.
B. Dr. António de Albuquerque Jácome Correira, nomeado pelo PPD do distrito de Ponta Delgada, responsável pela Agricultura, Pescas e Indústria. Dr, Jácome Correia, que foi recentemente eleito vice-presidente da Junta, é Veterinário, com ligações à sociedade de São Miguel. É independente politicamente, com posições entre o CDS e o PPD. Nas outras ilhas criticam-no por pensar só em São Miguel.
C. Dr. Henrique de Aguiar Oliveira Rodrigues, membro do PPD, de Ponta Delgada, responsável pelos Assuntos Sociais, Saúde, Trabalho e Emprego e Emigração. O Dr. Aguiar é cardiologista nos seus trinta e muitos anos, que está a sacrificar a sua vida profissional para servir na Junta. Em contraste com o Dr. Jácome Correia, tem uma perspectiva geral dos problemas dos Açores.
D. Dr. José Adriano Borges de Carvalho, membro do PPD do distrito de Angra, responsável pelas Finanças e Coordenação Económica. José Adriano anunciou a sua retirada da Junta, um facto que a maioria atribui à sua imaturidade [tem 24 anos] e personalidade problemática. O PPD de Angra nomeará um substituto para o seu lugar.
E. Eng. Leonildo Garcia Vargas, membro do PS do distrito de Angra, responsável pela Administração Local, Pessoal e Ambiente. Vargas é Engenheiro Eléctrico e é considerado capaz e recatado que não impõe a posição socialista.
F. José Pacheco de Almeida, membro do PPD, do distrito da Horta, responsável pelo Turismo, Comércio, Transportes e Comunicações. Almeida, em muito um “selfmade”, tem a reputação na sua ilha de ser um lutador. Trabalhou no passado nas primeiras tentativas para criar um plano geral económico para o arquipélago.
G. José Martins Goulart, membro do PS, da Horta, responsável pela Educação, Investigação Científica, Cultura e Comunicação Social. Goulart tem 27 anos e passou sete anos em Universidades a estudar Engenharia Eléctrica. È o porta-voz dos socialistas na Junta. É controverso e admite ferver em pouca água [a palavra é “excitable”] e ser um mau político.

4. Como funciona?: O Decreto que estabeleceu a Junta diz que tem os poderes que o Governo da Republica delegar nela. Mas na verdade a Junta, desde o começo, assumiu cada vez mais responsabilidades para o governo dos Açores. Como disse um membro, a Junta consulta com o Governo quando este mostra-se cooperante, de outra forma a Junta decide e depois informa Lisboa. Os membros da Junta tomaram gradualmente a gerência de cada uma das áreas por que cada um é responsável, das Juntas Gerais de cada distrito que, antes, decidia directamente com Lisboa. A Junta tem várias reuniões por semana para discutir as políticas e os problemas que precisam da atenção geral. Porque a Junta tornou-se num Governo Regional, um problema sério surgiu: a Junta não tem nem pessoal, nem condições para operar convenientemente. Cada membro da Junta tem um assistente com quem partilha um escritório. Para além disso, há alguma assistência secretarial. Todos os membros afirmam não ter o tempo necessário para estudar os problemas que lhes são levantados, pelo que têm que tomar decisões rápidas. Estão tentando encontrar gente qualificada para servir como “secretários de Estado” para cada um dos sectores de Governo, de forma a permitir aos membros concentrarem-se nas políticas.

4. Recursos. O Governo Central deu à Junta quatro milhões de dólares, além do dinheiro já colocado à disposição dos Açores, que a Junta está a usar para uma série de projectos, sendo o mais espectacular a criação de uma Universidade dos Açores.

5. Autonomia: Está claro que a Junta acha-se um Governo Autónomo. Talvez a melhor forma de ilustração desse facto, será a forma como Goulart nos disse que quanto a Junta preparou a sua declaração de 15 de Novembro, rejeitou cuidadosamente qualquer linguagem que indicasse que a Junta estivesse sujeita ao Governo de Lisboa. Espera-se, nos próximos dias, que a Junta evolua para um Governo Autónomo, após deliberação ministerial.

6. Comentários: A Junta Regional dos Açores é o primeiro Governo Regional nos Açores. Está tentando traçar novas direcções para os Açores, enquanto está a tentar tratar dos problemas diários da governação. Após algum cepticismo inicial público, tem ganho apoio, particularmente depois devido à forte posição que tomou no 15 de Novembro.

PFEIFLE
CONFIDENCIAL”

27 fevereiro 2009

Nixon - Frost


A propósito do filme Frost/Nixon [ainda não vi], que esteve há poucos dias em competição nos Óscares, a SIC-Notícias apresenta a entrevista original que David Frost fez ao presidente Nixon três anos após este ter resignado ao cargo.

É surpreendente, por vezes, a forma como Nixon reage às perguntas que Frost apresenta, não fugindo às questões e sempre coerente com a sua linha ideológica política, apesar de em muitos casos admitir algum arrependimento em relação a decisões. É também surpreendente a forma como fala dos serviços de informação norte-americanos, nomeadamente a CIA, que, nas suas palavras, não teve a capacidade de antever a guerra do Yom Kippur, ou o golpe de Estado no Cambodja pelos Khmer Vermelhos. Falhas realmente graves, se levarmos em linha de conta o facto de ambos os casos estarem no centro da política externa norte-americana.

Em relação a Watergate, Nixon revelou-se evasivo, socorrendo-se invariavelmente da pouca memória que tinha dos acontecimentos que permitiram a criação dos Canalizadores e tudo o resto. Neste contexto, foi curiosa a sua afirmação que quando um acto ilícito é realizado por um Presidente, em defesa da segurança da nação, é legal. O caso em apreço era o assalto de instituições/organizações que, hipocritamente, eram contra a guerra do Vietname, usando meios violentos. Aliás, a tese de Nixon que a guerra do Vietname poderia ter acabado uns anos antes, não fossem os movimentos “pró-paz” poderá ter algum fundamento. Com efeito, o Vietname do Norte via na divisão interna dos EUA um trunfo a seu favor na mesa das negociações, deste modo deverá ser vista a outra luz todas as acções que a administração Nixon tomou contra aquelas instituições/organizações.

Aquilo que se vê é claramente um homem já sem a máscara que a vida pública o obrigou a usar toda a sua vida adulta. Assim, é indisfarçável o complexo anti Kennedys, complexo anti classe intelectual e outros complexos, mas comprova-se também que Nixon é coerente e, acima de tudo, patriota. No fim, Nixon é, nesta entrevista, um homem à procura de salvar o que for possível do que vier a ser escrito sobre a sua pessoa nos livros de História.

Altamente recomendado!

14 dezembro 2008

Emmanuel Todd. Mais um anti-americano ou não?


Lendo o artigo de Manuel Maria Carrilho, 'Questionando dogmas', no Açoriano Oriental, recordei a obra do sociólogo/demógrafo Emmanuel Todd. Tal como o filosofo português refere, Todd previu com alguma exactidão, nos anos 70, a decomposição da URSS, tendo por base o declínio da taxa de natalidade. Mais recentemente, em 2004, previu a actual crise financeira. Segundo Carrilho, no seu mais recente ensaio Todd defende “que hoje é o dispositivo do livre-câmbio que está à beira de estoirar, porque a livre circulação de bens reconduziu gradualmente o capitalismo à sua velha contradição entre a diminuição de salários e o aumento da produção”. A ter em conta e a ler…quando houver tradução para português, ou, pelo menos, inglês.

No entanto, quero abordar um outro ensaio de Todd que data de 2001, este sim traduzido para inglês com o título After the Empire, onde Todd prevê o colapso do Império norte-americano. Antes de mais, Todd indica que os EUA chegaram ao ponto de hyperpuissance por acidente e não resultado de qualquer estratégia. É, desde logo, uma afirmação audaz, que parece, porém, algo exagerada, porque se é verdade que a própria URSS poderá ser responsável por muitos do seu colapsos, com alguns erros, o certo é que os EUA, pelo menos, não caíram nalguns desses mesmos erros.

Todd defende que os verdadeiros EUA são demasiadamente fracos para enfrentar outros países que não “anões militares”, como Cuba, Coreia do Norte ou Iraque, sendo que as guerras que os EUA travam, não trazem riscos quase nenhuns, mas permitem que estejam presentes pelo mundo fora. Todd adianta também que o resto do mundo está a produzir para a América consumir e que a qualquer momento poderemos chegar à saturação onde a Europa, a Rússia, o Japão e partes do mundo islâmico decidirão unir esforços para acabar com esta situação. Nessa altura, segundo Todd, os EUA serão vítima dos seus próprios erros. Todd tenta cimentar ainda a sua tese fazendo uso da tendência para o abrandamento na natalidade e aumento da iliteracia nos EUA.

No fundo, Todd recorre a uma tese com mais de cem anos e que terá origem no geógrafo inglês Mackinder, tendo sido depois adoptada por Hausoffer e os Nazis. Esta tese tem por base o poder que uma Eurásia unida poderá deter no mundo. Uma tese geopolítica antiga, mas que terá ainda algum fundamento, apesar dos avanços tecnológicos. Por outro lado, Todd entra na velha questão das relações transatlânticas, uma vez que, mesmo perante os comportamentos unilaterais da administração Bush, a Europa nunca colocou em opção uma aliança com a Rússia, muito menos com países islâmicos.

As opiniões de Emmanuel Todd terão de ser sempre tidas em conta muito seriamente. Mesmo este ensaio poderá ainda vir a ser realidade, apesar de não parecer muito viável, ainda mais porque a eleição de Obama quererá dizer, ao que tudo indica, uma viragem na política externa norte-americana, mais baseada no poder do soft-power, em vez do militarismo exacerbado de Bush. No fundo, se não conhecêssemos a obra de Todd diríamos que é apenas mais um francês anti-americano, ainda mais enraivecido com a política Bush.

07 novembro 2008

Efeitos da vitória de Obama

Obama venceu, claro. Depois de oito anos de uma Presidência republicana inenarrável, com erros caricatos, perigosos e estúpidos, ao candidato democrata era exigido, acima de tudo, um discurso de mudança.

Mestre do ilusionismo retórico, Obama conseguiu agregar atrás de si eleitores dos mais diversos grupos que constituem a manta americana. Há que lhe dar todo o crédito, teve a capacidade de, em campanha, invocar as mais elementares qualidades humanistas que estão arredadas do léxico político americano (e não só) há muito tempo. Ele percebeu que o povo está farto da politiquice, do ataque baixo, das divisões com base na cor partidária. Por isso foi justamente eleito.

O mais difícil vem agora, não só para Obama e para os EUA, mas para quem, por todo o mundo, o apoiou. É que não basta, a estes, agora, esperar pelas inovações do Presidente eleito norte-americano. Não, quem o apoiou, tem também que fazer a diferença agora. Há que ter a capacidade de ignorar as cores políticas e ir buscar e premiar o mérito de quem tem opiniões diferentes, sem segundas intenções, na certeza que esses podem acrescentar algo àquilo que é o objectivo final de todos os que estão na vida pública: melhorar o bem comum.

Em 1942, o embaixador inglês em Lisboa escreve o seguinte: “os políticos portugueses, cuja preocupação absorvente é o ódio aos seus rivais (cada facção persegue baixamente a outra sempre que pode), têm o hábito inveterado de fortalecerem a sua posição ligando-se à Direita ou à Esquerda em outros países”. Espera-se, então, que desta vez seja para o bem.

17 fevereiro 2008

Onze Lições de McNamara


Não temos o hábito de fazer ligações a sítios deste género, mas neste caso abre-se uma excepção. Aqui há a possibilidade de descarregar o filme The Fog of War – Eleven Lessions on the Life of Robert S. McNamara (neste caso as legendas são em turco).

Já falei sobre este filme/documentário aqui, mas ao revê-lo sinto a necessidade de tecer mais algumas considerações. Interrotron foi o sistema utilizado pelo realizador, Errol Morris, que consiste num mecanismo que obriga o entrevistado a manter contacto visual com a máquina de filmar e com os espectadores. Este facto amplia infinitamente o impacto do filme.

Estamos a ouvir a história de vida de um homem que começa no final da I Guerra Mundial. Um homem nascido numa família com poucas posses, mas que devido à sua grande capacidade de trabalho e inteligência, levou-o a Harvard com uma bolsa de estudo. Um homem que foi o primeiro presidente da Ford, que não membros da família de Henry. Um homem que ao fim de cinco semanas nessa posição, demitiu-se e ocupou o cargo de Secretário de Defesa a convite do recém-empossado John Kennedy.

Depois de concluir os estudos em Harvard, os EUA entram na II Guerra Mundial e McNamara vai trabalhar para o Gabinete de Controlo Estatístico da Força Aérea, que aconselha o General LeMay a bombardear cidades japonesas que levou à morte de 1 milhão de civis, antes de Hiroxima e Nagasaky. É brutal o impacto das suas palavras, ao mesmo tempo que vê imagens do resultado desses bombardeamentos, McNamara acaba dizendo que ele e Lemay portaram-se como criminosos de guerra e que se os EUA tivessem perdido a guerra, teriam sido julgados como tal, rematando com a questão “Porque razão é imoral, se perdemos, e não, se ganhamos?”

O filme avança para os anos ’60. Entre 1960 e 1967, McNamara foi o Secretário de Defesa dos EUA. Assim, fornece-nos um relato inquietante relativo à Guerra Fria. Durante este tempo, McNamara viveu a Crise dos Mísseis de Cuba, o assassinato de Kennedy (de que não fala) e o escalar da Guerra do Vietname. Os registos telefónicos apresentados no filme mostram como era intenção de Kennedy e McNamara retirar do Vietname até 1965 e mostram como Johnson tinha uma visão diferente, que acabou por levar à saída de McNamara.

Apesar de (aparentemente) McNamara ser contra o aumento do número de soldados no Vietname, a verdade é que foi leal a Johnson enquanto foi Secretário de Defesa. Assim, foi ele quem ordenou o Agente Laranja e o progressivo aumento de soldados para o Vietname. Durante esse período, 25 mil americanos morreram no Sudeste asiático. As manifestações em Washington contra a guerra foram muitas, mas McNamara realça Norman Morrison que se encharcou com gasolina e, com a filha pequena ao colo, incendiou-se por baixo da sua janela no Pentágono, para protestar contra a Guerra.

Sinceramente, depois de ver este filme duas vezes, não sei que pensar deste homem com 85 anos. A pergunta que serviu de título ao post que escrevi da primeira vez que vi o filme mantém-se: McNamara: herói ou vilão. A verdade é que ele foi co-responsável pela morte de milhares, ou centenas de milhar, ou se contarmos com o Japão, com mais de um milhão de pessoas. Mas em nome de quê? De uma lealdade e patriotismo que já não conhecemos, que se esbateu depois do fim da Guerra Fria? As perguntas persistem…

03 fevereiro 2008

JFK, Conspiração ou Verdade?


O assassinato de John Kennedy continua a estar envolto num grande mistério. Ao fazer uma pesquisa na internet a um personagem deveras intrigante como é James Jesus Angleton, encontrei um site, que recomendo vivamente. O nome do site diz tudo: JFK Murder Solved.

Não há nenhuma prova cabal que corrobore a tese dos autores do site. Há muitas provas circunstanciais e vários testemunhos. E de entre esses testemunhos há um especialmente controverso, o de James Files, que afirma ser um dos atiradores e aquele que deu o tiro fatal. Files encontra-se preso, pois trata-se de um criminoso que trabalhou a vida toda para a Máfia e consequentemente para a CIA.

Um dos pontos que está bem provado é a parceria entre o crime organizado e a CIA. A América Latina e Cuba, em particular, são o elemento de ligação entre as duas organizações. Como se sabe, a Máfia tinha grandes interesses em Cuba, na forma de casinos, que foram nacionalizados por Castro e para a CIA, Castro era um obstáculo a eliminar. Sugiro uma leitura do relato de Chauncey Holt, um homem que trabalhou directamente com o mafioso Meyer Lansky e que afirma, também ele, ter estado presente em Dallas no dia 22 de Novembro de 1963. Aliás, Holt diz ser um dos três homens que foram detidos logo a seguir ao assassinato e que foram soltos sem que fossem tiradas a fotos e as impressões digitais, obrigatórias em qualquer detenção. Uma coisa é certa e reconhecida pela autoridades, três homens foram mesmo detidos e soltos, havendo fotografias para o comprovar, a questão reside em saber quem eram. Holt afirma ser um deles e diz que outro é o pai do actor Woody Harrelson.

Há imensos pontos que a Comissão Warren não conseguiu explicar convenientemente. A verdade é que a maioria dos membros dessa Comissão tinha razões para não gostar de Kennedy, desde logo Allen Dulles, ex-Director da CIA, que Kennedy tinha demitido depois do fracasso da Baía dos Porcos.

Todas as páginas deste site são deveras interessantes e a maioria dos argumentos está bem comprovado, mas quando é para fazer a ligação final, falta sempre algo, ou alguém que morreu misteriosamente, ou testemunhos de criminosos, que apesar de serem bastante credíveis, dado o nível de pormenor das suas descrições, são sempre facilmente descartados.

Quanto a Angleton, o chefe do departamento de operações encobertas da CIA entre ’54 e ’75 e que me fez chegar a este site, escreverei um post em breve, pois trata-se de um personagem interessante. Foi Angleton que serviu de base para o filme de Robert DeNiro, The Good Shepherd.

18 setembro 2007

O Bom Pastor - The Good Shepherd


O Bom Pastor é o segundo filme de Robert De Niro, enquanto realizador, depois de Um Bairro de Nova Iorque em 1993.

Com uma brilhante actuação de Matt Damon, este filme conta a história dos primeiros anos da CIA, culminando no fracasso que foi a tentativa de invasão a Cuba, na Baía dos Porcos, em 1961. Damon representa Edward Wilson que é parcialmente inspirado em James Jesus Angleton, um dos fundadores da CIA. Aliás, todo o filme é inspirado em acontecimentos e personagens reais.

Angleton ( Wilson no filme) frequentou Yale, onde fez parte da sociedade secreta Skulls and Bones (outros membros desta sociedade foram George Bush, George W. Bush, John Kerry, etc) e depois Harvard onde conhece e fica amigo do infame agente duplo Kim Philby (Arch Cummings no filme). Com a entrada dos EUA na II Guerra Mundial, Angleton é recrutado para trabalhar no OSS e é colocado na Inglaterra, onde trabalha e aprende com os serviços de informação ingleses, na luta contra os alemães.

Quando a guerra acaba, Angleton regressa para os EUA onde vai dirigir a secção de contra-inteligência da recém-criada CIA. Sob a supervisão, primeiro, de Allen Dulles (Phillip Allen, no filme) e depois de Richard Helms (Richard Hayes, no filme), Angleton dirige operações na América Central, como o golpe de Estado na Guatemala que depôs Jacobo Arbenz.

No filme, no entanto, é a operação da Baía dos Porcos que tem destaque principal. Wilson é destacado para coordenar a operação, que falha devido a uma fuga de informação. Torna-se depois a obsessão de Wilson descobrir quem foi o responsável pela fuga de informação.

O filme peca por ser longo, por ter demasiados flashbacks e por ter muitas frases em código, que obrigam o espectador a uma atenção redobrada, acabando por ser algo cansativo. A critica divide-se, uns acharam um excelente filme, outros nem por isso. Eu situo-me nos primeiros.

Além da grande interpretação de Matt Damon, este filme conta ainda com um excelente elenco, onde se destacam Angelina Jolie, William Hurt, Alec Baldwin, o próprio DeNiro e com uma breve passagem de Joe Pesci que interpreta um personagem muito aproximado de Sam Giancana.
É um filme de espionagem, mas com um realismo raro e acaba também por ser uma lição de História.

13 setembro 2007

Quem Puxa os Cordelinhos


O Project For a New American Century é um think-tank norte-americano de inspiração neo-conservadora, que tem como membros-fundadores pessoas como Dick Cheney, Jeb Bush, Lewis (Scooter) Libby, Paul Wolfowitz, Donald Rumsfelt ou Dan Quayle.

No ano 2000, o PNAC publicou o estudo “Rebuilding America’se Defense: Strategy, Forces and Resourses For The New Century”, que é um plano para “manter a proeminência dos EUA, impossibilitar o surgimento de novas potências rivais e alinhar a segurança internacional com os interesses e princípios dos EUA.” Este trabalho dá especial destaque ao Médio Oriente e ao papel que os EUA devem ter naquela região, especialmente relativamente ao Iraque.


Segundo esse estudo, se os EUA quisessem atingir esses objectivos teria de haver uma mudança na política de defesa e externa. Assim, o PNAC avisava o seguinte: “será um processo de transformação longo, se não houver um acontecimento catastrófico e catalisador – como um novo Pearl Harbour.” Um ano depois aconteceram os ataques ao WTC e Pentágono. Dias depois o PNAC enviou uma carta ao Presidente Bush encorajando depor Saddam Hussein, mesmo que nunca surgissem provas que o Presidente iraquiano estivesse, de alguma forma, ligado ao ataque

07 setembro 2007

"Missão Cumprida"

Num artigo na opendemocracy.net, o especialista em assuntos do Médio Oriente, Fred Halliday mostra os efeitos que a Guerra do Iraque poderá ter para a região.

Aqui ficam alguns:

"- A revitalização, em todo o Médio Oriente e, até mesmo, em todo o mundo muçulmano, do militarismo islâmico inspirado, se não mesmo organizado, pela Al-Qaida, que utilizou a Guerra do Iraque para se fortalecer. "

"- O desaparecimento do poder e da autoridade do Estado iraquiano e a sua fragmentação em zonas antagonistas étnica e religiosamente."

"- O eclodir, pela primeira vez na História Moderna, de uma guerra entre Sunitas e Xiitas no Iraque, mas que poderá passar para outros Estados com ambas as religiões."

"- O surgimento, se bem que de uma forma lenta, de uma rivalidade regional entre dois grupos: Irão e seus aliados (Síria, Hezbollah e Hamas) vs. Arábia Saudita, Egipto e Jordânia."

A invasão do Iraque foi mais que um erro, foi o cair numa armadilha bem montada por Bin Laden. É que, no final de 2002 o Afeganistão, que era dito como o quartel-general da Al-Qaida, estava dizimado e, como agora se sabe (e na altura também se sabia), não havia qualquer sinal da Al-Qaida no Iraque. Hoje, em Setembro de 2007, a Al-Qaida está no Iraque, está regressando ao Afeganistão e está por todo o globo, nomeadamente na Europa. Os serviços de informação norte-americanos sugerem que a Al-Qaida no Iraque constitui uma das maiores ameaças ao território americano. “Missão Cumprida” mesmo.

31 agosto 2007

Nação de Crianças = Pais Desnaturados

Felizmente este reality show não passou de um projecto, ou (como os seus produtores afirmaram), de uma chamada de atenção para um problema grave.
No entanto, há um novo reality show, a ser emitido nos EUA, pela cadeia CBS, que também toca os limites da ética. Chama-se Kid Nation, e desenrola-se numa cidade-fantasma no deserto, onde só entram crianças (e os adultos membros da produção) que têm a tarefa de criar uma sociedade.
A questão centra-se nos pais destas crianças, que assinam um contrato, onde permitem que os seus filhos tenham que obedecer a tudo que lhes é dito. Além disso, o contrato diz que, os pais assumem a responsabilidade por quaisquer danos ocorridos durante as gravações, desde ferimentos a acidentes devidos a más condições de alojamento, parca assistência médica, até à morte. Os pais e menores assumem, ainda, total responsabilidade por quaisquer doenças psicológicas ou físicas contraídas durante o programa, especificando mesmo que tal abrange "doenças sexualmente transmissíveis, HIV e gravidez".

25 agosto 2007

Notícias da América

A discussão, por estes dias, nos EUA centra-se nos imigrantes ilegais que entram no país, pela fronteira com o México. A questão agudiza-se devido aos recentes crimes em Newark, onde, aparentemente, três imigrantes ilegais entraram numa escola e assassinaram quatro jovens.

Os conservadores aproveitam para intensificar a sua agenda contra os imigrantes ilegais, com a construção do famoso muro na fronteira e com deportações. Os liberais respondem, acusando os conservadores de racismo.

12 agosto 2007

Faça o teste

Descobri este teste no Arrastão, que serve para saber com qual dos candidatos à presidência dos EUA nos identificamos de forma mais próxima. Comigo, tal como com o bloquista Daniel Oliveira, deu Denis Kucinich, que é reconhecidamente o candidato mais à esquerda de todos. É um exercício engraçado, mas apenas isso.

01 agosto 2007

Fred Thompson, o novo Reagan?

Ronald Reagan deixou grandes saudades entre os norte-americanos, não apenas do lado republicano, mas na maioria da população. Para tal terá contribuído a sua capacidade de comunicação, que lhe valeu inclusivamente o título de ‘O Grande Comunicador’. Aliás, Reagan era um comunicador tão assertivo que, numa ocasião, deixou o então Primeiro Ministro israelita Yitzhak Shamir com uma lágrima no olho, ao contar como a sua experiência no fim da II Guerra Mundial, quando libertou um campo de concentração. Veio a saber-se que Reagan passou todo o tempo da Grande Guerra em Hollywood...

Desde que Reagan deixou a presidência que os americanos – principalmente os republicanos - procuram um candidato que se assemelhe ao homem que tornou os EUA na única super-potência do mundo. E desta vez não é diferente, de entre os candidatos há um, que por já ter sido um actor de algum relevo em Hollywood, assume o papel do novo Reagan, seu nome é Fred Thompson. Mas receio que as semelhanças com o Reagan se fiquem pela representação, é que pelo que vi de Thompson, parece ter algumas incoerências no discurso, no entanto, e como a história recente comprova, isso não tem muita importância. Nas mais recentes sondagens Thompson surge com 27% das preferências entre os candidatos republicanos, atrás apenas de Giuliani com 28%.

Já agora, se pelo nome não vão lá, talvez este vídeo ajude.