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09 janeiro 2010

Que liberdade, Tiago R.?!

A liberdade assusta, hein?” foi a pergunta-comentário deixada por Tiago R. na caixa de comentários deste post.

Tanto quanto sei, e corrijam-me se estiver enganado, o Tiago R. é comunista.

Para mim, bastaria essa associação para terminar a conversa sobre liberdade, por incompatibilidade absoluta entre a dita e o comunismo, largamente evidenciada historicamente.

No entanto, também a história ensinou que o comunismo é inimigo dos homossexuais (a URSS criminalizou, em 1934, as relações sexuais entre homens), o que eu não sou.

Com aquela pergunta, o Tiago confunde casamento homossexual com orientação sexual. Eu não.

Aliás, o que é que a orientação sexual tem a ver com a liberdade, em Portugal?

Que me lembre, assim de repente, nada. Ou melhor, até tem, JÚLIO FOGAÇA.

Para quem não saiba, Júlio Fogaça foi expulso do PCP, em 1961, sob pretexto de ser homossexual e por se afastar internamente das teses de Estaline, sendo secretário-geral do PCP, Álvaro Cunhal, que classificou como "desvio de direita" a aproximação daquele a Nikita Khrushchev.

Em conclusão, o Partido Comunista Português fez uma purga interna e um homossexual, alto dirigente do partido, foi perseguido e afastado.

Assim sendo, presumo que a pergunta era meramente retórica, certo, Tiago R.?

06 dezembro 2009

Coup d'Etat

O Canal 1 da RTP apresentou um documentário sobre a morte de Francisco Sá Carneiro e Adelino Amaro da Costa que revelou a todos os portugueses aquilo que a VIII Comissão Parlamentar de Investigação sobre este assunto, liderada por Nuno Melo (CDS-PP), já tinha concluído: um engenho explosivo de baixa capacidade esteve na base da queda do avião em Camarate.

Segundo essas mesmas conclusões, Sá Carneiro foi apenas um dano colateral, pois o atentado era dirigido a Amaro da Costa. Sobre toda a conspiração, que envolve tráfico internacional de armas, um suicídio (quiçá provocado) dum jornalista da TVI já em 2000 e muitas outras peripécias, é bom consultar este site.

Apesar do caso estar arquivado, apesar de não parecer, pois ninguém fala no assunto, a verdade é que tudo indica que o Primeiro Ministro de Portugal foi assassinado no ano de 1980. Tal como Kennedy nos EUA, pode-se apenas especular sobre como seria Portugal hoje caso Sá Carneiro não tivesse morrido.

05 outubro 2009

O 5 de Outubro


No dia 5 de Outubro de 1143 foi assinado o Tratado de Zamora por Afonso VII de Leão e Castela e Afonso Henriques, concedendo a independência a Portugal.

31 agosto 2009

Ribentropp-Molotov, 70º Aniversário


Por ter estado ausente nos últimos tempos, não assinalei os 70 anos do pacto Ribentropp-Molotov, que foi assinado a 23 de Agosto de 1939, pelos Ministros dos Negócios Estrangeiros da Alemanha e da URSS.

Este pacto é um case-study perfeito da implementação da Geopolítica. Foi o inglês Halford Mackinder, no começo do século XX, quem realçou a importância geoestratégica da Eurásia, na sua famosa Teoria do Heartland “Quem governar a Europa Oriental, domina a heartland; Quem governar a heartland, domina a “Ilha-Mundo”;Quem governar a “Ilha-Mundo, domina o Mundo”. Na época, e dentro da escola imperialista, a inacessibilidade daquela zona, aliada aos imensos recursos naturais, eram os condimentos essenciais ao domínio mundial.

Curiosamente, porém, foi Karl Hauhoffer quem se inspirou na teoria de Mackinder para a tornar realidade. Haushoffer era professor na Universidade de Munique, centro estratégico do comando Nazi e foi mentor de muitos oficiais do exército alemão, inclusivamente de Rudolph Hess e do próprio Hitler. Embora não existam provas concretas, acredita-se que tenha sido Haushoffer quem influenciou Hitler a virar-se a Leste, pela via diplomática. A História diz-nos que Hitler, a dada altura e sem explicação aparente, decidiu romper o pacto Ribentropp-Molotov e invadiu a URSS. A História também nos diz que foi uma decisão errada e a inacessibilidade do Heartland fez outra vítima. Caso o pacto Ribetropp-Molotov não tivesse sido desfeito a Alemanha não ficaria a lutar em duas frentes e a II Guerra Mundial poderia ter tido outro desfecho (inclusivamente, Portugal poderia ter sido arrastado para o conflito e os Açores também). Uma explicação para a decisão de Hitler de invadir a URSS poderá ser o facto da facilidade com que invadiu praticamente toda a Europa, que lhe poderá ter toldado a visão, pois, na verdade, a maioria dos seus conselheiros e generais eram contra tal invasão.

A verdade é que o conceito de Geopolítica ficou arredado da vida pública internacional, após a II Guerra Mundial, pois ficou ligado à Alemanha Nazi e sua necessidade de encontrar um Lebensraum para o seu povo.

Haushoffer teve um final triste, pois o seu filho, que era oficial do exército alemão, esteve envolvido na famosa Operação Valquíria, tendo sido executado. As suspeitas que acabaram por recair em Karl Haushoffer, que foi enviado para Dachau. Haushoffer e a esposa acabaram por cometer suicídio em conjunto em 1946, já depois do fim da guerra.

27 julho 2009

Cold War Series


Verdadeiramente indispensável, a série documental Cold War está na sua totalidade na internet. Produzida em 1998 por Jeremy Isaacs, narrada por Kenneth Branagh e com o patrocínio de Ted Turner, a série começa nas origens da Guerra Fria, passando pela II Guerra Mundial e acabando na queda do muro de Berlim.

Estes 24 episódios resultam num documento histórico de grande valor, com relatos na primeira pessoa dos próprios intervenientes.


São cerca de 50 minutos a multiplicar por 24, por isso o melhor é ir vendo aos poucos, mas cada episódio tem a sua própria história e encaixa-se perfeitamente no quadro geral que acabamos por ter.

1. Comrades (1917–1945)
2. Iron Curtain (1945–1947)
3. Marshall Plan (1947–1952)
4. Berlin (1948–1949)
5. Korea (1949–1953)
6. Reds (1948–1953)
7. After Stalin (1953–1956)
8. Sputnik (1949–1961)
9. The Wall (1958–1963)
10. Cuba (1959–1962)
11. Vietnam (1954–1968)
12. MAD (1960–1972)
13. Make Love Not War (The 60s)
14. Red Spring (The 60s)
15. China (1949–1972)
16. Détente (1969–1975)
17. Good Guys, Bad Guys (1967–1978)
18. Backyard (1954–1990)
19. Freeze (1977–1981)
20. Soldiers of God (1975–1988)
21. Spies (1944–1994)
22. Star Wars (1981–1988)
23. The Wall Comes Down (1989)
24. Conclusions (1989–1991)

06 julho 2009

McNamara


A morte de Robert McNamara serve para recordar o magnífico documentário The Fog of War – Eleven Lessions on the Life of Robert S. McNamara .

De facto, neste filme McNamara revê toda sua vida pública, onde esteve envolvido desde os bombardeamentos às cidades japonesas no final da II Guerra Mundial, até ao escalar do guerra no Vietname, passando, claro, pela Crise dos Mísseis de Cuba. Pode ler-se aqui informações mais detalhadas sobre o filme.

Mais do que um documento histórico de grande interesse, este filme mostra um homem em final de vida a tentar lidar com o seu passado e com as centenas de milhar de vidas que se perderam em consequência directa das suas decisões.

A torrentizar.

06 junho 2009

06061975


*Informação dada pelo Consulado dos EUA em Ponta Delgada para a Secretaria de Estado, no dia 6 de Junho de 1975.
** Foto: contracapa da separata da Revista Atlântida, vol. XLVI (2001) "Caminhos Cruzados - O Processo Democrático e a Deriva Independentista dos Açores", de Saes Furtado.

23 abril 2009

De Luto


Hoje devemos sentir vergonha se sermos portugueses. Otelo Saraiva de Carvalho, provado em tribunal como líder da organização terrorista FP-25, que assassinou 17 pessoas, vai ser promovido a Coronel das forças armadas, com todas as regalias que isso acarreta.

É triste.

27 fevereiro 2009

Nixon - Frost


A propósito do filme Frost/Nixon [ainda não vi], que esteve há poucos dias em competição nos Óscares, a SIC-Notícias apresenta a entrevista original que David Frost fez ao presidente Nixon três anos após este ter resignado ao cargo.

É surpreendente, por vezes, a forma como Nixon reage às perguntas que Frost apresenta, não fugindo às questões e sempre coerente com a sua linha ideológica política, apesar de em muitos casos admitir algum arrependimento em relação a decisões. É também surpreendente a forma como fala dos serviços de informação norte-americanos, nomeadamente a CIA, que, nas suas palavras, não teve a capacidade de antever a guerra do Yom Kippur, ou o golpe de Estado no Cambodja pelos Khmer Vermelhos. Falhas realmente graves, se levarmos em linha de conta o facto de ambos os casos estarem no centro da política externa norte-americana.

Em relação a Watergate, Nixon revelou-se evasivo, socorrendo-se invariavelmente da pouca memória que tinha dos acontecimentos que permitiram a criação dos Canalizadores e tudo o resto. Neste contexto, foi curiosa a sua afirmação que quando um acto ilícito é realizado por um Presidente, em defesa da segurança da nação, é legal. O caso em apreço era o assalto de instituições/organizações que, hipocritamente, eram contra a guerra do Vietname, usando meios violentos. Aliás, a tese de Nixon que a guerra do Vietname poderia ter acabado uns anos antes, não fossem os movimentos “pró-paz” poderá ter algum fundamento. Com efeito, o Vietname do Norte via na divisão interna dos EUA um trunfo a seu favor na mesa das negociações, deste modo deverá ser vista a outra luz todas as acções que a administração Nixon tomou contra aquelas instituições/organizações.

Aquilo que se vê é claramente um homem já sem a máscara que a vida pública o obrigou a usar toda a sua vida adulta. Assim, é indisfarçável o complexo anti Kennedys, complexo anti classe intelectual e outros complexos, mas comprova-se também que Nixon é coerente e, acima de tudo, patriota. No fim, Nixon é, nesta entrevista, um homem à procura de salvar o que for possível do que vier a ser escrito sobre a sua pessoa nos livros de História.

Altamente recomendado!

09 fevereiro 2009

A Vida Pública de Salazar

Da série A Vida Privada de Salazar, retenho a seguinte ideia: durante a guerra, Salazar raramente saiu do seu gabinete, tentando fazer tudo para manter Portugal fora do conflito. Achará, para sempre, que o seu esforço não foi reconhecido.

Ora, das modestas investigações que tenho realizado, a conclusão que chego é que Salazar foi um autêntico monstro diplomático, fazendo as grandes nações beligerantes respeitarem verdadeiramente Portugal e para este facto muito contribuiu a posição geoestratégica dos Açores, na luta contra os submarinos alemães (apesar de alguns historiadores, como António José Telo, não o reconhecerem). Foi o responsável da neutralidade do país, através de uma enorme perspicácia, capacidade de antecipação, um bom serviço diplomático e alguma sorte. A História far-lhe-á justiça neste aspecto.

08 fevereiro 2009

Causas da Decadência

Um excerto do discurso Causas da Decadência dos Povos Penínsulares nos Últimos Três Séculos, que Antero de Quental proferiu na noite de 27 de Maio de 1871, na abertura das Conferências do Casino.

«Éramos mandados, somos agora governados: os dois termos quase que se equivalem. Se a velha monarquia desapareceu, conservou-se o velho espírito monárquico: é quanto basta para não estarmos muito melhores que os nossos avós. Finalmente, do espírito guerreiro da nação conquistadora herdámos um invencível horror ao trabalho e um íntimo desprezo pela indústria. Os netos dos conquistadores de dois mundos podem, sem desonra, consumir no ócio o tempo e a fortuna, ou mendigar pelas secretarias um emprego: o que não podem, sem indignidade, é trabalhar! Uma fábrica, uma oficina, uma exploração agrícola ou mineira, são coisas impróprias para a nossa fidalguia. Por isso, as melhores indústrias nacionais estão nas mãos dos estrangeiros, que com elas se enriquecem, e se riem das nossas pretensões. Contra o trabalho manual, sobretudo, é que é universal o preconceito: parece-nos um símbolo servil! Por ele sobem as classes democráticas de todo o mundo, e se engrandecem as nações; nós preferimos ser uma aristocracia de pobres ociosos, a ser uma democracia próspera de trabalhadores. É o fruto que colhemos de uma educação secular de tradições guerreiras e enfáticas

Apesar de não concordar com a premissa essencial do discurso, não posso deixar de achar este (e outros) excerto de uma actualidade deveras preocupante.

19 janeiro 2009

Antero e a União Ibérica

Regresso aos livros. No caso, Antero e a sua visão para uma União Ibérica, assente numa Republica Federal. Causas da Decadência dos Povos Peninsulares, Portugal Perante a Revolução de Espanha, as diversas cartas que escreveu e as Actas do Congresso Anteriano, que teve lugar em Outubro de 1991, nas comemorações do centenário da sua morte, estão em cima da mesa.

A ideia que o poeta micaelense defende para o futuro político da Península Ibérica não se baseia num conhecimento do terreno dos dois países, ao contrário de Oliveira Martins, mas sim nos conceitos teóricos de autores como Tocqueville, Proudhon ou Vítor Hugo. É, por isso, uma visão utópica e desfasada da realidade, que o próprio Antero acabou, já nos últimos anos da sua vida, por abandonar.

Ficam dois excertos de cartas que escreve exactamente a Oliveira Martins, em 1883 e a Wilhelm Storck, em 1887:

“Li com grande prazer os seus artigos na Democracia. Acho-os fortes; fortemente pensados, e abalaram o meu enraizado federalismo. Eu via a questão por um lado puramente histórico, e é por isso que não concebia para Espanha outra solução. Mas V. fez-me ver que o federalismo para ser histórico hoje tem de ter a forma da história de hoje, isto é, tem de absorver em si a substância da revolução social; fora disto é nada – menos que nada”

“Durante o ano de 1867 e parte de 68 viajei em França e Espanha e visitei os Estados Unidos da América. No fim desse ano de 68 publiquei o folheto: Portugal perante a Revolução de Espanha. Advogava aí a União Ibérica por meio da República Federal, então representada em Espanha por Castelar, Pi y Margall e a maioria das Cortes Constituintes. Era uma grande ilusão, da qual porém só desisti (como de muitas outras desse tempo) à força de golpes brutais e repetidos da experiência. Tanto custa a corrigir um certo falso idealismo nas coisas da sociedade”

08 janeiro 2009

Arbeit Macht Frei

O enriquecimento por via das guerras é no mínimo eticamente condenável. Todos conhecemos as teorias que falam de uma indústria (sedeada principalmente nos EUA) que produz armamento militar, que tem grande poder em Washington e que faz lobi para que guerras sejam travadas. Há também teorias sobre outras empresas que são especializadas em reconstrução dos cenários pós-guerra e que também precisam de confrontos militares para sobreviverem. Em ambos os casos, parece haver bases para a credibilidade de tais teorias, mas escasseiam factos para a suportar. Em relação à IBM na II Guerra Mundial, porém, parece não haver dúvidas da sua participação nos campos de concentração nazis. Os nazis sempre deram grande atenção à tecnologia, aliás, como se sabe, o desenvolvimento da Nasa fez-se em grande parte com know how nazi. No entanto há uma diferença importante na participação da IBM, pois o seu papel era catalogar cada um dos presos nos campos de concentração, através de um mecanismo punch card. As provas ainda hoje existem, pois cada um dos sobreviventes trás no seu braço o número que a IBM utilizava.

01 dezembro 2008

A Influência da Geopolítica na 'Operação Barbarossa'

Algo que ainda hoje leva a diferentes interpretações é a razão que levou Hitler a invadir a União Soviética.

Com efeito, podemos questionar a opção de Hitler em abrir uma frente a Leste, que seria necessariamente difícil - como a História aliás o demonstrara. Duas opções colocavam-se aos alemães: por um lado a URSS, de onde, em principio, não viriam grandes ameaças, uma vez que estava em vigor o pacto Molotov-Ribbentropp; por outro lado fechar o Mediterrâneo. E é relativamente fácil concluirmos que Hitler cometeu um erro, seja estratégico, seja de percepção, mas cometeu um erro ao optar pela URSS.

Numa fase da guerra em que os Aliados ainda estavam enfraquecidos e em que os alemães se encontravam nos Pirinéus, seria de esperar que Hitler optasse por realizar uma caminhada – que seria muito facilitada – pela Espanha fora até atingir o norte de África, fechando o Mediterrâneo. Esta opção teria tido um efeito devastador nas aspirações dos Aliados, que sendo potências marítimas, ver-se-iam impedidos utilizar aquele importante Mar, como aconteceu por exemplo para entrar na Itália pelo sul. Convém acrescentar que se tal tivesse acontecido, Portugal seria arrastado para a guerra.

No entanto, Hitler optou por tentar invadir a URSS. De facto, à partida parece ser incompreensível. Mas se tivermos em atenção alguns pormenores podemos, pelo menos, tentar explicar essa opção. Em primeiro lugar havia o elemento psicológico de conseguir fazer algo que nem Napoleão tinha conseguido; este factor é tanto mais relevante se levarmos em linha de conta a facilidade com que os alemães tinham levado a cabo as suas invasões até esse momento. O ego militar de Hitler estaria certamente muito elevado e isso terá influenciado a sua decisão. Mas há outro factor que deve ser aqui mencionado: toda a estratégia de Hitler tinha-se baseado no pensamento dos geoestrategas da escola de Munique, particularmente Karl Hausoffer, que por sua vez tinha grande admiração pela obra do inglês Halford Mackinder e a sua tese do Heartland sintetizada na célebre premissa: “quem controla a Europa controla o Heartland, quem controla o Heartland controla a ilha-mundo, quem controla a ilha-mundo domina o Mundo”. Para Mackinder uma aliança entre Alemanha e Rússia seria devastadora para a sua Inglaterra.

Hitler terá pensado que facilmente tomaria Moscovo e controlaria o Heartland, dominado o Mundo. Errou certamente, mas o seu erro foi de percepção, pois não anteviu que não seria tão fácil invadir a Rússia. Porque em termos geoestratégicos a sua opção é totalmente compreensível.

21 novembro 2008

Uma invasão virtual dos Açores

Não resisto em deixar mais uma passagem do livro de memórias de George Kennan. Kennan, nascido em 1904, era nesta altura um jovem diplomata sem qualquer influência na desorganizada política externa norte-americana de 1943. Mais tarde, porém, Kennan veio a revelar-se um dos principais ideólogos durante a Guerra Fria, com o célebre artigo assinado na Foreign Affairs, sob o pseudónimo "X" e com a teoria do containment.

O relato que Kennan faz a seguir é de meados de Outubro de 1943, alguns dias antes da entrada oficial dos ingleses na Terceira. Algumas facções norte-americanas defendiam que Kennan (que era o chargé d'affaires em Lisboa desde a morte do Embaixador) deveria solicitar a Portugal uma série de facilidades nos Açores.

"A list of facilities several times more pretencious than all that the British, even invoking their ancient alliance, had ever dreamed of requesting: a naval base, a seaplane base, bases for landbased aircraft on three different islands, cable and communications systems, observation posts, radar, facilities for accommodation of American naval vessels in each of the Azores ports, etc. It was clear that facilities of these dimensions would simply sink the economy and administration of the islands under their own weight. (...) The primary economy of the islands would be debauched by the amount of outside money brought in and expended. The islanders themselves, heretofore self-respecting people, would inevitably be moved to abandon their humble farms and other pursuits and to embrace, for the superior remuneration involved, the status of servicing personnel for the bases. It was idle to pretend that this represented anything other than a virtual takeover of the islands by our armed forces for the duration of the war and he ruination of the culture and traditional mode of life of the inhabitants."

19 novembro 2008

Açores nas Memórias de George Kennan

"Earlier in the war (IIWW) we in the legation had been obliged to intervene vigorously in Washington to prevent various eager beavers in General Donovan's OSS (predecessor da CIA) from developing plans for a revolt against Portuguese authority on the part of the inhabitants of the Azores, plans based - apparently - on the theory that Salazar was a dangerous Fascist and in the league with the enemy."

George Kennan, Memoirs: 1925-1950

12 novembro 2008

Breves Apontamentos sobre a Origem da Guerra Fria

O regime estalinista que governava a URSS era uma ditadura burocrática determinada a criar uma zona de segurança de forma a prevenir outra invasão ao seu território por potências ocidentais, como aconteceu logo após a revolução bolchevique e por Hilter em ’41. Para os EUA, a IIWW tinha sido diferente, escapando praticamente ilesos e com uma arma nova e capaz de alterar tudo, a bomba atómica.

Certas facções dentro da administração Truman eram a favor de uma abordagem mais diplomática à URSS, com certas doses de realpolitik para lidar com Estaline. Outras porém, tinham uma visão implacável da URSS e a sua tendência para o expansionismo. George Kennan é dos primeiros a definir esta linha no seu Long Telegram de 1946, onde descreve a URSS como uma potência historicamente e geograficamente determinada à expansão. Kennan achava que era essa a essência dos soviéticos e nada poderia ser feito, nenhum acordo poderia ser alcançado.

Em 1947, Truman faz um discurso que dá origem à Doutrina Truman. O Presidente americano refere que naquele momento “cada nação do mundo deve fazer uma escolha”, e extrema as posições utilizando conceitos abstractos como “mundo livre”, vs. Mundo escravizado”, criando uma realidade a preto e branco, de bem contra o mal, Oeste contra Leste, América contra a URSS.

O discurso geopolítico americano de Guerra Fria recebe outro elemento importante com Dean Acheson: a teoria do dominó. Metaforicamente, Acheson refere-se a uma maçã podre dentro de um cesto, que acabará por infectar as outras, tal como o Comunismo que, da Grécia infectaria o Irão, África e a Ásia Menor, na Europa, principalmente na Itália e na França, que já estavam ameaçadas pelos Partidos Comunistas nacionais.

Kennan, sob o pseudónimo de Mr. X escreve, depois, um artigo que iniciaria a política do containment da URSS, onde em todos os pontos do mundo, os americanos devem conter a tendência expansionista dos soviéticos.

O resto, como se diz, é História.

11 novembro 2008

Alemanha nazi reage aos rumores

Compreendo que este tipo de assunto não tenha grande interesse para muita gente, mas como é neste tipo de documentos que ando megulhado nas últimas semanas, aqui vai mais um.

Desta vez, um telegrama oficial do Chefe da Legação Alemã em Lisboa (no fundo o Embaixador alemão em Lisboa), o Barão von Hoyningen-Huene, para o Auswärtiges Amt (Ministério dos Negócios Estrangeiros), datado de 13 de Maio de 1943. É necessário ter em linha de conta que nesta altura a IIWW já corria a favor dos Aliados. E que, principalmente, devido ao sucesso dos Aliados no Norte de África, uma invasão à Península Ibérica já era uma ameaça praticamente colocada de parte. A grande ameaça que ainda se colocava aos Aliados era a campanha dos submarinos alemães no Atlântico, que impediam o transporte de equipamento, tropas e tudo o resto para a Europa e que impediam o planeamento de uma invasão em território europeu, como o que se veio a verificar no dia D.

"(...) Aproveitei a oportunidade da visita de hoje para falar ao primeiro-ministro (Salazar) sobre rumores que surgem continuamente de uma pressão americana ou inglesa sobre Portugal por causa da instalação de bases nos Açores e em Cabo Verde. Salazar replicou categoricamente que podia voltar a assegurar-me hoje que de maneira nenhuma uma pressão semelhante tem sido exercida. À informação que lhe apresentei mais adiante, segundo a qual os americanos tencionavam enviar tropas brasileiras para os Açores para os ocupar, Salazar respondeu que tinha simplesmente ouvido que tropas brasileiras deviam ser enviadas para África. No caso de um procedimento contra os Açores, os portugueses iriam naturalmente defender-se.
No contexto de informações segundo as quais os americanos teriam a intenção de encenar distúrbios nos Açores com o objectivo de provocar a separação da metrópole, é interessante uma das circulares divulgada confidencialmente à Legação, que o ministro português do Interior dirigiu aos governadores civis do continente e ilhas. Nesta carta, o ministro informa que estariam a ser documentados alguns incidentes nos Açores, que teriam sido causados abusando de privilégios provinciais. O governador civil de Ponta Delgada, que tinha sido chamado a Lisboa para prestar informações, teria voltado aos Açores com plenos poderes especiais. Agora trata-se mais do que nunca de impedir que a ordem e disciplina sejam destruídas de alguma maneira nas ilhas, e todos os culpados, sejam eles nacionais ou estrangeiros, devem ser tratados com a maior severidade.
Huene"

Convém apenas acrescentar que o pedido oficial de facilidades nos Açores foi feito pelos ingleses no dia 18 de Junho de 1943, chegando à ilha Terceira no dia 8 de Outubro do mesmo ano.

09 novembro 2008

Fundação Humberto Delgado na Internet

O sítio na internet da Fundação Humberto Delgado é um mundo de documentos digitalizados (oficiais e privados) à espera de ser descoberto.

Praticamente toda a fantástica vida deste homem está ali representada. desde os tempos em que foi aluno do Colégio Militar, passando pelas actividades de aviação militar, como oficial do Estado Maior do Exército, actividades relacionadas com a aviação cívil (TAP), as actividades como diplomata em Washington e na NATO e, claro, a eleição de '58, o exílio e a sua morte.

Para os açorianos, terá grande interesse a sua actividade secreta nestas ilhas para determinar as condições técnicas, que acabaram por ser fundamentais para o estabelecimento dos ingleses em 1943.

O sítio socorre-se de vários documentos que estão localizados em locais tão diversos como a Torre do Tombo, com os arquivos Oliveira Salazar, PIDE-DGS e do próprio Delgado, mas também o Archivo General de la Administracion, Archives du Ministère des Affaires Étrangères, Archivo del Ministerio de Assuntos Exteriores ou The National Archives.

O documento em ligação, faz parte do tema Eleições de '58 e está nos arquivos da PIDE. Trata-se de uma carta de António Borges Coutinho, representante em São Miguel da candidatura de Delgado, a António Sérgio.

A dar, pelo menos, uma vista de olhos!